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33 pontos perdidos no meio do oceano e um nome para recordar?

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KIRIBATI. Este poderá ser mesmo o primeiro país a desaparecer

REUTERS/DAVID GRAY

Em tempos remotos, no auditório que hoje julgo pertencer ao Instituto de Investigação Científica Tropical de Lisboa (há coincidências engraçadas, de facto), um professor interessado em demonstrar que a ‘cambada’ de jovens universitários que lhe fazia frente só poderia ser dona de uma imensa ignorância acerca do mundo, atacava com um velho truque pronto a humilhar a escumalha. O aglomerado de alunos vivia a anos de distância de um Google ou de uma Wikipedia, acessível, como hoje acontece, a partir de um polegar.

A vetusta figura, professor de Direito que nunca perderia o tom provocador fosse nas aulas fosse na política, onde mais tarde confirmou carreira, atirava aos jovens caloiros do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade Técnica de Lisboa, a pergunta: “Por acaso, saberão os senhores dizer-me o que é Kiribati?” No auditório da velha casa, herdeira de desempregados cientistas sociais “ultramarinos”, a quem fora confiada, anos antes, a missão de medir e cartografar a geografia e a demografia dos povos colonizados pelos nossos “egrégios avós”, fez-se silêncio. Felizmente, durou segundos. De um canto do grande auditório levantou-se um sábio colega que prontamente lhe respondeu: “Sim, Kiribati, um estado da Commonwealth, na verdade um arquipélago no meio do Oceano Pacífico”.

Se é verdade que nunca mais me esqueci da cena, incluindo-a numa das mais memoráveis dessa longínqua e saudosa licenciatura, também nunca mais dediquei muito do meu tempo a pensar na importância das ilhas Kiribati, e muito menos no que elas podem significar para o andamento do mundo... Até perceber que é de lá que vêm sinais claros de que a minha vida pode mudar. E até a sua.

Aconteceu cruzar-me nesse imenso oceano que é agora a internet com uma entrevista ao Presidente da República de Kiribati. Um lugar constituído por 33 atóis e ilhas espalhadas no meio do Oceano Pacífico, das quais apenas 20 são habitadas. Lindas de morrer, provavelmente, a avaliar pelas fotografias, mas também próximas da morte.

Kiribati corre o risco de ser o primeiro país do mundo a desaparecer devido às alterações climáticas. Luta neste momento contra a erosão costeira, contra a qual pouco pode fazer, e a subida das águas, que já não é lenta, mas que vem com as marés, e com os ventos.

Anote Tong, o Presidente, precisa de uma medida urgente para que o seu país não seja uma Atlântida real. Em outubro deste ano, numa conversa realizada pela plataforma TED, Tong já não duvidava de que o aquecimento global seja real. Tong já o sente, assim com os 100 mil habitantes dos três grupos de ilhas de Kiribati. Um dos ciclones que recentemente atingiu uma parte do país é algo de totalmente novo. Uma mudança de padrão, com pouca possibilidade de retrocesso a partir de medidas apenas nacionais.

A sobrevivência de Kiribati, o Plano B nacional, parece passar por encontrar um sistema de ilhas flutuantes onde se possa viver (mesmo que a solução pareça uma loucura) ou pela medida, já tomada, de parar de pescar atum, de modo a garantir um futuro sustentável.

E nós? Vamos continuar a achar que eles são só eles, e nós somos nós? É que este não é um problema exclusivo de 33 ilhas no meio de um oceano com um nome difícil de decorar.