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Foi campeão do mundo de boxe mas não resistiu a um assalto

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Jamaicano de origem, emigrou para os EUA em criança e chegou a deter três títulos unificados. Vinha a sair de um autocarro quando foi assaltado. Reagiu e morreu baleado e esfaqueado

Luís M. Faria

Jornalista

Mesmo fora do ringue, onde dar murros era o seu trabalho, O’Neil Bell teve vários episódios violentos. Consta que agrediu pelo menos um treinador. Em 2007, atirou um machado a um colega de treino enquanto corriam por um bosque (desculpou-se explicando que andava com o machado para se proteger dos ursos). Meses depois, desapareceu misteriosamente antes de um combate. Agora que morreu, os fãs da sua arte devem preferir recordá-lo pelos triunfos. Foram 27 ao todo, dos quais 25 por knock-out, contra quatro derrotas e um empate. Um palmarés digno de um pugilista cuja alcunha foi “Give 'em hell, Bell” (Dá-lhes inferno, Bell) antes de ele a mudar para algo que considerava mais próprio: “Supernova”.

Peso-médio, Bell começou tarde na modalidade. Dizia que sempre sonhara ser boxeur, mas a vida tinha outras prioridades. A família emigrou da Jamaica para os EUA em 1979, quando ele tinha cinco anos. Trabalhavam em hotéis no Delaware, e o primeiro emprego dele foi como motorista da UPS, uma empresa de entregas. Um dia descobriu um ginásio onde podia treinar e a partir daí tornou-se completamente obsessivo, passando lá todo o tempo que podia, mesmo ao sábado e ao domingo. Ao mesmo tempo, para aprender e recuperar o tempo perdido, via filmes com as lutas dos grandes pugilistas. Em 1995, mudou-se para Atlanta.

Um estilo pouco ortodoxo

A sua carreira profissional começou em 1998 e duraria 13 anos. Nell tornou-se campeão do mundo, detendo os títulos IBF, WBF e WBC em 2006. O pico da sua carreira foi nessa altura, cinco anos antes de se retirar. Não sabemos o que fez desde 2011. Os jornais da especialidade, sem dúvida, explicarão tudo nos próximos dias. Para já, é importante apurar o que lhe aconteceu na passada quarta-feira à meia-noite em Atlanta, Georgia (EUA). Bell ia a sair de um autocarro e foi atacado por quatro homens ainda não identificados. Terá talvez reagido, acabou baleado e esfaqueado. No chão via-se uma mala com maços de notas.

Outra pessoa presente, que saiu do mesmo autocarro e caminhava juntamente a Nell, também foi baleado mas sobreviveu. Ficou sem a bolsa e o telemóvel. O facto de se tratar de um homem vestido de mulher poderá suscitar especulações, embora a polícia diga que não se conheciam, ao contrário do que algumas notícias iniciais sugeriram.

Muito forte e resistente, com um estilo agressivo, Bell tinha uma forma de se treinar pouco ortodoxa, com natação e meditação, entre outras coisas. Não era uniformemente estimado pelos colegas, alguns dos quais referiram o seu feitio difícil. Mas ele próprio tinha a noção do perigo à espreita. Quando mudou de alcunha, explicou que tinha andado a investigar o Inferno e não lhe queria ficar associado, a fim de não atrair más companhias. O inferno acabou por ir ter com ele.