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“Finda uma guerra de libertação, os povos deviam fuzilar os líderes”. Frase de 1968, no diário agora editado

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Escritor angolano Luandino Vieira lançou na Gulbenkian os seus “Papéis da Prisão”, um volume de quase 1100 páginas e que inclui um diário no Tarrafal

O diário de José Luandino Vieira, dos seus mais de onze anos de prisão, foi lançado na Fundação Gulbenkian. É um volume de quase 1100 páginas, intitulado “Papéis da Prisão” e que reúne, para além do diário, inúmeros apontamentos e diversa correspondência trocada com familiares e amigos. Foram escritos na cadeia da PIDE em Luanda e no campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, em cadernos sempre com o mesmo título: “Ontem, Hoje, Amanhã”, uma forma de manter viva a chama da esperança no futuro e na liberdade. Sobre a liberdade, aliás, escreveu, logo nos primeiros tempos do Tarrafal: “17 de Setembro de 1964. Hoje passou ao largo rumo S/N para S. Vicente talvez um transatlântico. Fomos todos a correr e ficámos a vê-lo sulcar as águas. Lá ia a liberdade a passar!”

Os dias do Tarrafal arrastavam-se, lentos, e até davam para apreciar as coisas belas da natureza. “23 de Junho de 1965. Hoje de manhã (6h30m) deixei-me ficar muito tempo debaixo das acácias q. estão carregadas de vermelho e vão deixando cair sobre uma pessoa as suas pétalas. Havia um zumbido constante das abelhas, que enchia todo o silêncio fresco da manhã. Senti-me bem em Tarrafal! A força da natureza.”

Militante do MPLA, a prisão não apagou o sentimento de revolta e frustração com os caminhos seguidos em muitos dos países e regimes saídos das guerras de libertação e de processos descolonizadores: “2 de Janeiro de 1968. Cada vez me convenço mais da veracidade duma frase que às vezes digo: ‘finda uma revolução, guerra de libertação, os povos deviam fuzilar os líderes – é difícil não estarem corrompidos e comprometidos’”.

Ao Tarrafal chegaram, no verão de 1968, novas dececionantes sobre o fim da primavera de Praga: “29 de Agosto de 1968. Leio a notícia da invasão da Checoslováquia pela URSS etc. Não posso aceitar é impossível aceitar que isso se coadune com uma política marxista! E como dói! Merda! Não escrevo mais nada.”

Capa de um dos cadernos de prisão de Luandino Vieira

Capa de um dos cadernos de prisão de Luandino Vieira

“Uma obra sem comparação na língua portuguesa”

Zeferino Coelho, o editor, era um homem feliz. Responsável pela Caminho, uma das editoras do grupo Leya, afirmou à plateia que quase encheu o auditório 2 da Fundação Gulbenkian: “Nesta altura da minha vida profissional, se parasse aqui, fechava com chave de ouro”. Contou que foi “há cinco ou seis anos” que Luandino lhe “mostrara alguns papéis trazidos da prisão. Foi num café, junto ao centro comercial ao pé da gare do Oriente. Fiquei a olhar completamente fascinado”. Um dos mais velhos e experientes editores portugueses, Zeferino não duvida: “É um documento extraordinário, que não tem comparação na língua portuguesa”.

José Luandino Vieira, o nome literário de José Vieira Mateus da Graça, nasceu em 1935 em Vila Nova de Ourém, mas rumou muito jovem para Luanda. Militante do MPLA, estava na prisão de Luanda quando foi editado o seu título mais consagrado, “Luuanda”, que recebeu em 1965 o Grande Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores, o que levou à extinção desta associação. Prémio Camões em 2006, recusou-se a recebê-lo, alegando que não publicava nenhum livro novo há alguns anos.

Condenado a 14 anos de prisão, cumpriu quase 12, repartidos entre Luanda e o Tarrafal. Depois da independência, optou pela nacionalidade angolana. Em Luanda, desempenhou importantes cargos quer no MPLA quer no Estado angolano, com relevo para o de diretor da Televisão Popular de Angola (TPA). Após o reinício da guerra civil, entre o MPLA e a UNITA, regressou a Portugal, onde está radicado desde 1992, em Vila Nova de Cerveira.

Ao lado de Rosa Luxemburgo e Gramsci, Dostoiévski e Graciliano

A organização deste imenso espólio de Luandino esteve a cargo de uma equipa formada por Margarida Calafate Ribeiro e Mónica V. Silva, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, e de Roberto Vecchi, da Universidade de Bolonha.

Na qualidade de anfitrião, o novo administrador da Fundação Gulbenkian, Guilherme d’Oliveira Martins, recordou a atribuição do prémio da SPE ao livro “Luuanda”, que classificou de “obra fundadora da moderna literatura angolana”. O apoio da fundação, para o trabalho de fixação de texto e edição, foi justificado por Rui Vieira Nery, que referiu “a dimensão poética e lírica” da obra. Comparou-a mesmo às cartas de prisão de Rosa Luxemburgo e de Antonio Gramsci – enquanto Roberto Vecchi a incluiu “na grande literatura de cárcere”, ao lado de Dostoiévski e Graciliano Ramos. Nery admitiu que a obra venha a ser traduzida para francês, inglês e italiano e anunciou o lançamento do livro em Luanda, em colaboração com a União dos Escritores Angolanos, de que Luandino chegou a ser o secretário-geral.

“Esta é uma obra sobre a importância da liberdade e o que temos de fazer quando ela falta”, comentou Margarida Calafate.

Capa do livro agora editado

Capa do livro agora editado

“Nunca serei um mau nacionalista”

“Isto não é um livro, são 12 anos de vida, multiplicados por cada segundo”, começou por dizer Luandino. Explicou as condições em que esteve preso, entre 1961 e 1972. Marcou as profundas diferenças entre as várias prisões em que esteve na cidade de Luanda, quase sempre entre prisioneiros de delito comum, a que designou de “lumpen proletariado” – e o longuíssimo período em que esteve no Campo do Chão Bom, mais conhecido por campo de concentração do Tarrafal, sempre entre presos políticos, do MPLA, da FNLA e da UNITA, mas também do PAIGC e a que chamou de “lumpen burguesia”.

Sobre estes anos, em Cabo Verde, observou que “será uma obscenidade falar de sofrimento, comparado com o de milhões de angolanos”. Fez questão de publicar os seus “Papéis da Prisão” “antes de morrer. Publicar depois da morte é muito fácil: ninguém assume a responsabilidade!”

Luandino optou por não falar da atualidade angolana, ignorando a situação dos presos políticos que estão a ser julgados em Luanda. Mas foram várias as referências críticas, sempre sibilinas, aos trilhos seguidos pelo MPLA. Não por acaso, conclui a sua breve intervenção lendo o excerto do seu diário do Tarrafal relativo a 8 de Agosto de 1965: “O meu amor à minha terra, Angola, é apenas a forma do meu amor pela humanidade. Nunca serei um mau nacionalista.”