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Padre e três irmãs indiciadas por crime de escravidão

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As três fundadoras da Fraternidade Missionária Cristo Jovem, em Requião, e o sacerdote responsável pelo convento foram esta segunda-feira constituídas arguidas pelo Tribunal de Famalicão por suspeita de crime de escravidão de noviças

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

Os quatro suspeitos de terem infligido maus tratos a três noviças ao longo de mais de dois anos optaram, esta manhã, por se remeter ao silêncio absoluto no Tribunal de Famalicão. Após um breve primeiro interrogatório, foram todos sujeitos à pena de coação mínima de Termo de Identidade e Residência.

Os quatro cofundadores da polémica associação de fiéis, sob a alçada da Diocese de Braga desde 1978, deixaram o tribunal sob insultos de alguns populares, surpreendidos na semana passada com as buscas da Polícia Judiciária ao convento, em Requião, onde por trás dos altos muros terão sido agredidas e escravizadas três jovens que viviam em regime de internato na Fraternidade Missionária de Cristo Jovem.

A última das noviças a abandonar a instituição - não reconhecida pela Confederação Nacional dos Institutos Religiosos - fugiu saltando o muro do convento no início do verão, depois de outras duas jovens terem saído da instituição em finais de 2013 e 2014.

Na denúncia à PJ e à arquidiocese de Braga, que estava a investigar o caso há um ano, as noviças queixaram-se de atos de violência e inibição de contactarem com a família ou sair para o exterior. Isabel, uma das irmãs fundadoras da Fraternidade Missionária Cristo Jovem, que agora a Diocese de Braga também esclarece não ser uma ordem religiosa, admitiu ter dado “uma estaladita ou uma bofetada” às noviças, como forma de castigo quando desobedeciam ou desempenhavam mal as suas tarefas.

Falsas freiras deixam população perplexa

A investida da PJ e as notícias de que afinal as irmãs não são freiras, mas leigas consagradas, deixaram a população local perplexa. João Pereira, presidente da Junta de Freguesia de Requião desde 2011, afirmou ao Expresso que sempre pensou que as irmãs eram religiosas, até porque todas as semanas há missa, liturgias e cursos de formação abertos à população. “Por acaso nunca assisti a nenhuma cerimónia, mas muitas pessoas da freguesia e até de fora vêm aqui à missa”, refere o líder da junta.

João Pereiro diz ter entrado na propriedade do convento apenas duas ou três vezes em situações relacionadas com a proteção civil, “por cauda de uma árvores que podiam constituir perigo”. De todas as vezes, diz ter sido bem acolhido pelo padre Milheiro, sportinguista ferrenho, e pelas seis irmãs residentes, que quer dentro das paredes conventuais como no exterior sempre se vestiram como freiras, com hábitos compridos azuis-escuros. “Sempre parecerem ser muito devotas e boas pessoas. Apenas exigiam às mulheres que iam à missa que usassem saias. Era a única diferença em relação à igreja da paróquia. É por isso que toda a gente está surpresa e desagradada com esta situação”, conclui o responsável da Junta.