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A virtude das castanhas e do Martinho que virou santo

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É um mistério: não há castanhas como as de rua. Mas é difícil não fazê-las bem em casa: é cortar, espalhar um pouco de sal e siga para o forno (ou eventualmente para a panela, para quem for dado à castanha cozida). E porque ainda estamos no tempo delas, vamos falar de castanhas - e de Martinho, o soldado que virou santo

É o faro que habitualmente nos guia. Uma agradável nuvem de fumo precede o aparecimento dos vendedores de castanhas, que no outono enriquecem as esquinas das ruas com os seus carrinhos e fornos próprios onde assam o fruto do castanheiro. É raro provar castanhas tão boas como as de rua.

Assadas ou cozidas com erva-doce, as castanhas fazem parte da tradição de outono na Europa, mas desde a pré-História que eram usadas como complemento calórico na alimentação humana, como substituto do pão, da batata ou como farinha. Os gregos e os romanos enchiam ânforas de castanhas com mel silvestre. Na Idade Média, passaram a integrar o receituário conventual, sendo a farinha de castanha largamente usada pela Europa. Com o Renascimento, ganhou nova vida, sobretudo na confeitaria.

Surgiram em França e Itália as "marrons glacés", castanhas cristalizadas em açúcar. Foi depois das Cruzadas, quando o açúcar foi trazido para a Europa, que esta especialidade apareceu, por volta do século XVI, na zona de Piemonte, onde havia muitos castanheiros. Além de assada ou cozida, a castanha também pode ser servida em puré ou em sobremesas, como no "crème de marrons", uma compota de castanha e açúcar com um travo de baunilha.

O ouriço da castanha é o fruto do castanheiro e as castanhas as suas sementes

O ouriço da castanha é o fruto do castanheiro e as castanhas as suas sementes

Do ponto de vista alimentar, a semente do castanheiro tem vantagens sobre outros alimentos: menos gordura do que as nozes, por exemplo, muito mais amido que as batatas, sendo também ricas em vitaminas C e B6 e uma boa fonte de potássio. E, afinal, porque temos o hábito de comer castanhas em novembro? E por que chamamos a este período do ano, em que celebramos o magusto, "Verão de S. Martinho"?

Martinho era um soldado nascido na Hungria em 316, que aos 15 anos foi para Pavia, em Itália, e mais tarde, em França, abraçou a via do sacerdócio. Reza a lenda que num certo dia de novembro muito chuvoso e frio, Martinho seguia a cavalo a caminho de Amiens, ao serviço do imperador deste país, quando rebentou uma tremenda tempestade - e um pobre se abeirou da estrada a pedir-lhe esmola. Não tendo nada para lhe dar, Martinho cortou com a espada a sua capa ao meio, para que este pudesse proteger-se do frio. Nesse momento, conta-se que a chuva parou e o sol começou a brilhar. Por isso é que se fala no "Verão de S. Martinho", para assinalar uma altura em novembro em que o frio costuma dar tréguas e o bom tempo reaparece.

O dia de S. Martinho (que entretanto se entregou à vida sacerdotal, tendo sido bispo de Tours) ficou marcado a 11 de novembro, data em que o santo foi sepultado, quando costumamos celebrar o Magusto. Diz o provérbio: "No S. Martinho come castanhas e prova o novo vinho". Este vinho novo refere-se ao vinho guardado após as vindimas, mas também se tem por hábito beber água-pé ou jeropiga.