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À procura de alunos estrangeiros

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Número de estudantes que escolhem outro país para tirar um curso superior está a aumentar exponencialmente e rondará atualmente os cinco milhões. A competição por talento é cada vez mais intensa

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

Jornalista infográfica

A universidade fica em Milão, Itália, mas a probabilidade de se entrar numa sala de aula e ouvir o professor ensinar em inglês é elevada. No conjunto de todas as cadeiras, mais de 50% já são dadas nessa língua e há quatro licenciaturas internacionais em que o curso é lecionado integralmente em inglês. No próximo ano letivo começarão mais duas. Mais de metade dos professores não nasceram no país e 11% dos alunos vem de fora. Alguns acabam por ficar a trabalhar em Itália. A maioria parte ruma a outro destino, para continuar a estudar ou trabalhar.

É assim na Bocconi, uma das universidades de referência a nível mundial nas áreas de gestão, economia e finanças, mas também e cada vez mais em todas as instituições de ensino superior que jogam, ou querem entrar, no campeonato cada vez mais atrativo, mas também competitivo, da disputa de estudantes internacionais.

O mercado não só cresceu exponencialmente na última década – nem a crise fez abrandar o ritmo –, como se estima que continue a aumentar, muito especialmente por causa dos jovens chineses e indianos, que não encontram respostas de qualidade e em número suficiente nos seus países de origem. Só estas duas nacionalidades totalizarão perto de um milhão de estudantes internacionais.

Os números mais atuais dizem respeito a 2012, mas são esclarecedores: em 2000, havia cerca de dois milhões de estudantes internacionais a estudar fora do seu país de origem; uma década depois o número já ultrapassava os 4,5 milhões, segundo a OCDE.

Há o campeonato onde jogam os Estados Unidos, seguidos à distância por Reino Unido, França e Austrália. E há depois uma série de outros países que se lançaram, há mais ou menos tempo, nesta competição, como Portugal.

Study in Portugal

O último Governo juntou-se aos esforços individuais de cada instituição e deu os primeiros passos ao definir uma estratégia de internacionalização do ensino superior português. A criação do portal Study in Portugal e a aprovação de um estatuto do estudante internacional foram duas das medidas.

À sua escala, também Portugal vai atraindo mais estudantes. Eram 26.570 em 2013/2014 que estavam a tirar um semestre, por exemplo, ou um curso inteiro nalguma universidade ou politécnico português. Brasil (só em Coimbra estão mais de dois mil estudantes e investigadores), Espanha, Itália, Polónia e Alemanha são alguns do países com maior representação.

d.r.

Os ganhos para os países e para as instituições são óbvios. As universidades recebem alunos, propinas e, no melhor dos cenários, possíveis futuros professores e investigadores. As cidades beneficiam do facto de conquistar, nem que seja temporariamente, mais habitantes, que gastam dinheiro e que podem ajudar a projetar a imagem do país.

“A competição por talento é tremenda”

“Não interessa a dimensão e a riqueza de um país. O que interessa é a qualidade, a estratégia e a ambição da escola”, defende Stefano Caselli, vice-diretor da para as Relações Internacionais da Bocconi, que ao longo dos anos foi ganhando projeção internacional e subindo nos rankings até se colocar entre as 10 melhores instituições da Europa e 30 no mundo na área das gestão e finanças. Caselli dá o exemplo da Holanda e da Suíça como países cujas instituições se projetaram além fronteiras.
A “competição por talento é tremenda”, afirma Andrea Sironi, reitor da Universidade de Bocconi. E faz-se sentir na procura de alunos, mas também de professores. “O mercado é completamente internacional. Semana sim, semana não há um professor a receber um convite. Isto não acontecia há uns anos”.

A importância dos rankings

Neste jogo, em que todos procuram informação sobre todos, os rankings internacionais acabaram por ganhar importância crescente. Sobretudo ao nível dos mestrados e formação pós-graduada. Para uma escola de gestão, por exemplo, a presença nas listas do “Financial Times” acaba por ser determinante, e é aí que todos querem estar.

Maria Neves, 22 anos, tem perfeita consciência disso e foi também a pensar nas portas que se podem abrir que optou pelo mestrado conjunto que a Católica Lisbon School of Business and Economics tem com a Bocconi. Fez o 1º ano em Portugal, está agora a completar o 2º em Milão.
“Em termos de qualidade de ensino acho que não existem grandes diferenças de qualidade entre as duas instituições. O que difere é o nome e a projeção internacional de uma e de outra. Se quiser trabalhar em Londres, por exemplo, e disser que estudei na Bocconi é uma coisa. Se disse que foi na Católica é outra”, explica Maria, que chegou a pedir um empréstimo para conseguir pagar as propinas. Mas espera que o investimento compense. “Quero regressar a Portugal, mas só se conseguir um bom salário. Se for para voltar e ganhar 700 euros mais vale continuar cá fora.”

A jornalista viajou a convite da Universidade de Bocconi