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Je me souviens de toi

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PARIS. Na Pont des Arts ficam encadeadas juras de amor eterno. Na memória ficam para sempre as recordações das vítimas do horror no mundo.

d.r.

Não podemos desistir da palavra. Não podemos desistir de nós. Não podemos esmorecer na indiferente contemplação dos efeitos da barbárie. Não podemos deixar-nos condicionar pela bestialidade do horror

Já não importam as palavras. Já não importa a inutilidade dos discursos. Já não importa a raiva. Já não importa o ódio. Já não importa a ternura ou o consolo. Se tudo nos roubam, já nada importa.Se tudo nos destroem, já nada importa. Se de tudo nos despojam, já nada importa.

O desafio maior é libertarmo-nos do silêncio. Então, as palavras têm de importar. As palavras têm de significar o dito e o não dito. As palavras têm de verbalizar a dignidade de sermos e estarmos aqui. As palavras não servirão para ajustes de contas. Mas as palavras constroem o caminho de uma vontade perseguida até a medula. Até o âmago de nós. Até a mais infinita profundeza do ser. As palavras nomeiam a liberdade de sermos o que somos e como somos.

Não podemos desistir da palavra. Não podemos desistir de nós. Não podemos esmorecer na indiferente contemplação dos efeitos da barbárie. Não podemos deixar-nos condicionar pela bestialidade do horror.

Sábado à noite, no Teatro Rivoli, na estreia do espetáculo “Ídolos do Desporto”, concebido a partir de uma ideia de Paulo Cunha e Silva, falecido uns dias antes, a récita foi de súbito interrompida. Um ator despiu a pele de intérprete apenas para explicar a necessidade de, ali, as palavras serem interrompidas. Escorria ainda pelas notícias o sangue das vítimas dos atentados fascistas de Paris. Sim, é de fascismo absoluto, puro e duro, que falamos. Sim, é a violência pela violência. Sim, é um terror sem causa porque nenhuma causa justifica aquele terror. No exterior, o edifício do teatro estava iluminado com as cores da bandeira de França. No interior, naquele instante, abria-se a imensa cratera tão desejada pelos fautores de pavor. Naquele momento de pausa, naquela interrupção, só consegui ver o baixar de braços como antecâmara da derrota.

Nunca conheceremos a cena. Sabemos apenas ter sido decidido eliminá-la. Iria falar-se de Paris. Ignora-se como, em que contexto, a que propósito. Percebemos apenas que Paris se tornou um interdito. O que iria ser dito poderia ferir suscetibilidades, explicaram. Porquê? A quem? Aos agressores? Aos agredidos? A todos nós? Iam brincar ou caricaturar estereótipos de Paris? Ou a simples ideia de nomear Paris é já em si um perigo a exigir especiais cautelas? Um espetro de medo invade o quotidiano. Ninguém precisa de se proclamar herói, invulgarmente destemido ou particularmente corajoso. Temos medo. É natural termos medo. É natural haver agora uma especial sensibilidade a determinar comportamentos. Ainda assim, foi pena. Ainda assim, foi triste. Ainda assim, foi desolador aquele buraco de silêncio.

Não sei como dizer “lembro-me de ti” aos passageiros do avião russo abatido sobre o monte Sinai, aos mortos vítimas de similares atentados no Líbano, no Iraque, no Afeganistão, no Paquistão, em Marrocos, na Síria, na Turquia... Até a língua os torna mais distantes e, no entanto, estão tão próximos. Olho para os mortos de Paris, Madrid ou Londres, e percebo-os como sendo da minha rua, talvez por não nos distanciar a língua. Neles vejo todos aqueles outros e percebo por fim como também eles fazem parte da minha rua.

Evoco “Hiroshima mon amour”, (1959),o filme de Alain Resnais com guião de Margueritte Duras. Retiro uma frase da sequência inicial: “je me souviens de toi”. Nunca esqueci esta fala e a sucessão de frases belíssimas que lhe dão continuidade. São outros os contextos, embora esteja sempre a paixão, nos seus múltiplos matizes, a alimentar os diálogos. Mais tarde, de novo, o recurso à memória: “Je me souviens de toi. Je vois l'encre. Je vois le jour. Je voi ma vie. Ta mort. Ma vie qui continue. Ta mort qui continue... Ah! C'est horrible”. (Lembro-me de ti. Vejo a tinta. Vejo o dia. Vejo a minha vida. A tua morte. A minha vida que continua. A tua morte que continua... Ah! É horrível).

Hiroshima é a metáfora de todos aqueles locais onde a morte rasga o passado, dinamita o presente e pretende inutilizar o futuro. É o espaço do não esquecimento. Até porque, por mais infinita que possa ser a dor, ficará sempre o inatingível. O indizível sofrimento de quem se viu truncado daqueles a quem ama: “Tu n'as rien vu à Hiroshima. Rien”.

Valdemar Cruz escreve no EXPRESSO DIÁRIO às quintas-feiras