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“Falhámos redondamente na luta contra o radicalismo islâmico”

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Felipe Pathé Duarte, vice-diretor do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo

Raquel Moleiro

Raquel Moleiro

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Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Fotojornalista

No rescaldo dos atentados de Paris e ainda com o mundo ocidental em modo de proteção reforçada, o especialista em segurança e política internacional defende que a luta contra o extremismo islâmico tem de ser muito mais do que um ataque militar. Deve apontar à origem e à ideologia que o sustenta. Deve mitigar em vez de apostar na utopia da erradicação. E esperar pelos resultados, a longo prazo.

Como é possível planear um ato terrorista desta dimensão sem que as secretas o detetem? E logo em Paris, depois do “Charlie Hebdo”...
Não será difícil planear um atentado terrorista. O terrorismo vive da imprevisibilidade. É o que o caracteriza. Além disso, falamos de um universo vastíssimo de potenciais jiadistas, cuja monitorização e acompanhamento é impossível. Tenho algum pudor em afirmar que houve falhas das forças e serviços de segurança franceses. Contudo, ao nível europeu, no que diz respeito a coordenação, ainda há muito a fazer.

Como se estancam estes ataques? Ou vão continuar?
É um erro as sociedade abertas pensarem que podem erradicar este tipo de ameaça. Pode ser mitigada, mas não erradicada, sob pena de colocarmos em causa aquilo que nos caracteriza como democracia. A base destes ataques está na ideia do jiadismo global, é ideológica e encontrará sempre recetor enquanto não for atacada. E ainda pouco estamos a fazer para isso. Os ataques militares ao Daesh são cruciais, mas não vão resolver o problema.

É possível vencer a guerra contra o Daesh?
É possível vencer, mas a longo prazo. Para ser honesto, não consigo responder como. Terão de haver sempre duas frentes paralelas, uma ‘física’ e outra ideológica. A primeira, mais fácil, reduz a capacidade estrutural do Daesh. A segunda, complexa, deve atacar o jiadismo global como ideia, seja na disseminação, seja na permeabilidade à receção. O centro de gravidade do Daesh não é físico, é ideológico. Talvez por isso a vitória seja a muito longo prazo. Basta um indivíduo permeável à ideia para levar a cabo um atentado terrorista.

Porque é que um jovem nascido e criado no Ocidente adere ao Estado Islâmico?
É a única narrativa que lhe permite passar das palavras aos atos ‘legitimamente’. Isto é, que lhe permite acelerar um motor da história através de uma violência justificada em nome de uma ordem nova que se pretende impor. Não difere muito das formas de adesão de outros movimentos terroristas. É-lhes providenciada uma identidade e uma causa, bem como sentimento de pertença (a algo superior) e possibilidade de erradicar fisicamente os óbices à prossecução das suas expectativas enquanto jovens. Isto é poder.

O Ocidente está a ser eficaz na luta contra o radicalismo islâmico?
Não. Falhámos redondamente.

Estes ataques vão alterar a intensidade da resposta dos Estados à progressão e ação do Daesh?
Claramente. Tudo assim se perfila. Mas é fundamental que haja uma concertação sólida a nível internacional que conjugue os países ocidentais e as potências regionais. Além disso, uma intervenção com botas no terreno deverá ser consequente e considerar um state reparing, sob pena de se voltarem a criar vazios de poder e bolsas de ressentimento político-social.

Justifica-se mudar a lei em Portugal? Ou basta aumentar o nível de alerta em resposta a ataques reais?
Acho importante pensar o regime de funcionamento dos Serviços de Informações, nomeadamente no que diz respeito à capacitação legal para intercetar comunicações. Os complexos do Estado Novo não poderão ser justificação para a falta de cultura de intelligence que nós temos.

A liberdade de circulação de pessoas é uma das caraterísticas da construção europeia. Faz sentido restringi-la?
Não. Isso seria colocar em causa o ethos que marcou todo o processo de integração europeu — uma excentricidade que nos define. Seria um retrocesso. Poderão ser feitos controlos aleatórios das fronteiras. Ou um efetivo controlo dos movimentos em situações excecionais.

FILÓSOFO DA JIHAD

Diretor de investigação e análise da Global Risk Awareness, vice-diretor do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, professor no Instituto Superior de Ciências e Segurança Interna, doutorado em Ciência Política. Escreveu dois livros: um sobre terrorismo e outro sobre o pensamento estratégico jiadista. Na origem do seu percurso securitário esteve o curso de Filosofia. Numa aula, em Coimbra, abordaram o conceito de inimigo. Ele foi investigar. Interessou-se pela Al-Qaeda e não mais abandonou o tema.