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Sociedade

Empresa portuguesa de testes de ADN vai chegar a 130 países

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Pedro Antunes lidera a Biopremier desde 2011. A empresa conta com 28 trabalhadores, 
a maioria jovens

ALBERTO FRIAS

Biopremier assinou contrato com multinacional de certificação SGS e vai fornecer tecnologia inovadora

O pico de notícias sobre a Biopremier aconteceu em 2013, quando rebentou o escândalo da carne de cavalo. Nessa altura, andou-se a vender gato por lebre, que é o mesmo que dizer carne de cavalo por carne de vaca e de porco. A procura por testes de diagnóstico molecular disparou e a empresa portuguesa, especializada na autenticação do ADN dos alimentos e na deteção de fraudes alimentares, chegou a fazer 300 testes por dia a produtos processados, a pedido de empresas portuguesas, mas sobretudo europeias. Nunca tinha tido tanta procura. Entretanto, o tema saiu da agenda mediática, assim como a Biopremier, que aproveitou o período de recato para trabalhar numa nova tecnologia — e que lhe vale, agora, um acordo comercial com a suíça SGS, uma das maiores multinacionais de inspeção e certificação, com 1650 escritórios e laboratórios em 130 países.

“A Biopremier vai passar a ser o parceiro preferencial da SGS para a área alimentar e isso está a permitir à empresa alcançar o que ambicionou desde sempre: ser global”, conta Pedro Antunes, presidente-executivo da empresa, sedeada em pleno campus da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. A tecnologia em causa recorre a uma das mais recentes técnicas de sequenciação de ADN, a NGS — next generation sequencing (em português, sequenciação de nova geração), para determinar todos os componentes de um alimento complexo.

O gestor descomplica a linguagem científica: “Vamos imaginar um hambúrguer que deve ser 100% carne de vaca. Até agora, fazíamos um teste PCR [reação em cadeia da polimerase] que me dava uma resposta binária. Isto tem vaca? Sim ou não. Isto tem cavalo? Sim ou não. Era preciso ir excluindo. O hambúrguer podia ter carne de coala, que nós não testávamos. A NGS faz outra pergunta: que carnes é que isto tem? Se o hambúrguer tiver canguru ou coala, nós encontramos.” A Biopremier oferece esta tecnologia, não apenas para a carne, mas para o pescado (incluindo moluscos, bivalves e crustáceos), plantas, fungos e micro-organismos.

Atualmente, a área alimentar representa 90% das receitas da Biopremier que, em 2014, faturou €750 mil. No final deste ano, o volume de negócios, indica Pedro Antunes, deverá atingir €1 milhão e, em 2016, o objetivo é chegar aos €2 milhões, por conta não só do acordo comercial com a SGS, mas da maior penetração da nova tecnologia no mercado.

As áreas veterinária e clínica ainda representam a minoria do negócio, mas o objetivo é fazê-las crescer com a NGS, que já está a ser utilizada em diagnóstico clínico, despistando em simultâneo a presença de vários agentes causadores da doença. “Tendo em conta a rapidez destes testes, que demoram apenas algumas horas, a intervenção clínica poderá ser mais rápida e eficiente, sobretudo quando não há indicações sobre o agente que causa a doença”, explica o responsável pela empresa.

Em crescimento

Na Biopremier, empresa criada em 2003 por dois cientistas (Manuel Rodrigues e Mário Gadanho que se mantêm na companhia) trabalham 28 pessoas, a maioria técnicos. Em 2012, não eram mais de uma dúzia, o que dá uma ideia do crescimento recente da empresa. “Os nossos principais investimentos têm sido na área de desenvolvimento, mas também nos nossos laboratórios. Num ano, triplicámos o nosso espaço”, conta Pedro Antunes.

É nos laboratórios da empresa, no Teclabs do campus universitário, que são desenvolvidas todas as tecnologias. Atualmente, 60% do negócio é feito fora da Península Ibérica, mas a expectativa é colocar essa fatia nos 80%. A internacionalização da Biopremier tem sido feita à base de parcerias com laboratórios e de alianças com clientes: trabalhando para cadeias de distribuição e para fornecedores e multinacionais agroalimentares em Portugal, que estão presentes noutros mercados, a empresa tem alargado o seu raio de influência. Cobre “muitos países europeus”, como França, Reino Unido, Polónia e países nórdicos, e está a entrar em geografias mais longínquas, como Estados Unidos, México e Brasil. “Temos ainda outros clientes importantes, como o Estado português e a Deco. Aliás, já trabalhamos para associações de defesa dos consumidores de outros países, como Alemanha e Dinamarca”, conta Pedro Antunes.

A empresa conta, principalmente, com dois tipos de clientes: os que lhe pedem para recolher as amostras e testar o produto, o que acontece sobretudo em Portugal e em Espanha; noutras geografias, os testes são feitos por laboratórios parceiros ou, então, enviados para os laboratórios lisboetas da Biopremier. A empresa produz também kits de testes de ADN, com os reagentes necessários, que envia para os seus clientes.