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Bebés infetados com o vírus da sida. São poucos mas número duplicou

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No ano passado, os hospitais portugueses registaram quatro recém-nascidos seropositivos infetados pelas mães. O número é pequeno mas é o dobro do registado em 2013. As grávidas com VIH também foram mais e os especialistas estão alarmados

Pode ser um passo atrás no caminho para lutar contra a sida. Os números mais recentes sobre a situação nacional, divulgados esta sexta-feira pela Direção-Geral da Saúde (DGS), revelam que duplicou o número de recém-nascidos infetados com VIH, por transmissão materna.

Nasceram quatro bebés seropositivos em 2014, mais dois do que no ano anterior. O número, pequeno, associou-se a outro, maior: 239 grávidas portadoras da infeção, mais 42 do que em 2013. Juntos, os dados estão a alarmar as autoridades de Saúde.

No relatório - "Portugal em números 2015 - Infeção VIH, SIDA e Tuberculose" - , é referido que dois dos recém-nascidos infetados são filhos de mães de nacionalidade estrangeira e dois de mães portuguesas. Ou seja, o problema não é, sobretudo, das comunidade migrante como tem sido regra.

Os especialistas da DGS reconhecem que "os valores continuam a preencher os critérios apresentados pela Organização Mundial da Saúde para definir a eliminação da transmissão mãe-filho", no entanto, salientam o "acréscimo do número de casos em residentes em Portugal". Por isso, apelam: "Este facto deve merecer redobrada atenção, por parte de todos os intervenientes, e, em particular, das estruturas de saúde, tendo em vista a deteção proativa destas situações e a promoção da adesão das grávidas ao rastreio e ao seguimento médico regular durante a gravidez."

Ao Expresso, Jorge Saraiva, presidente da Comissão Nacional de Saúde Materna, da Criança e do Adolescente, afirmou que "estes números priorizam a deslocação de equipas de saúde às áreas onde vivem mulheres com mais dificuldades económicas e sociais". Apesar de os cuidados serem gratuitos, o médico salienta que "há grávidas que não conseguem pagar o autocarro ou faltar ao trabalho para irem ao médico". Segundo o diretor do Programa Nacional para a Infeção VIH/Sida, "há mulheres que não têm acompanhamento médico e só aparecerem, nas Urgências, para terem os filhos", acrescentou António Diniz durante a apresentação do relatório.

Angolanas infetadas vêm ter os filhos em Portugal

Mas pode haver outro motivo para os números agora conhecidos. A responsável pela consulta de grávidas portadoras de VIH na Maternidade Alfredo da Costa revela que há um fenómeno novo nas unidades de saúde portuguesas, públicas e privadas. "Notamos que há mais mulheres angolanas, com poder económico (que pagam os cuidados privados ou no próprio Serviço Nacional de Saúde) quem vêm para Portugal para o parto. Muitas já vêm medicadas e optam por aqui para terem mais condições de segurança e privacidade", diz Cristina Guerreiro.

Sobre os recém-nascidos infetados, a especialista garante que a transmissão vertical do VIH (de mãe a filho) "tem sempre oscilações" e o aumento verificado entre 2013 e 2014 não sai do histórico.

Os progressos

No retrato geral da infeção, Portugal revela muitos progressos. Diminuíram as novas infeções (-17,3%), os novos casos de sida (-11,6%) e as mortes associadas (-14,5%). No ano passado, foram notificados 1220 seropositivos, a maioria do sexo masculino, dos quais 223 já no estádio de sida, e 391 mortes. As regiões metropolitanas de Lisboa (com 45% das novas infeções, concentradas nos concelhos de Loures, Sintra e Amadora) e Porto e o Algarve reúnem a grande maioria (68,5) dos novos seropositivos, que contraem o vírus sobretudo por via heterossexual (60,5%).

A transmissão entre homens que fazem sexo com outros homens (HSH) representa 31,8% e está a aumentar (32%), destoando da tendência nacional. Já no caso dos utilizadores de drogas injetáveis, a infeção continua a regredir, menos de 4% de casos, ficando agora abaixo da média da União Europeia (UE). Igualmente a par da maioria dos países europeus está agora a deteção precoce do vírus.

A proporção de diagnósticos tardios diminuiu e está nos 49%. "Pensávamos que ainda estaríamos nos 65 e estamos ligeiramente acima da média da UE e abaixo da média da região europeia. Estamos a diagnosticar menos e casos e mais cedo, mas ainda temos muito trabalho pela frente", salientou António Diniz na sessão de apresentação.

Testes rápidos sem limite de idade

A realização de testes de deteção rápida nos cuidados primários (3547 feitos), iniciada em 2014 terá contribuído para os resultados. Além disso, permitiu perceber que é preciso mudar algumas coisas. "Mais de um quarto das novas infeções ocorreram acima dos 50 anos e quase 7% depois dos 65 anos, portanto a indicação de que só fazer o teste até aos 65 anos não faz sentido e vamos retirar o limite de idade", adiantou o responsável da DGS. António Diniz revelou ainda que no ano passado, "426 pessoas fizeram quimioprofilaxia pós-exposição", ou seja, tomaram antirretrovirais depois de terem tido comportamentos de risco.

Os resultados positivos têm de ser mantidos. António Diniz reconhece que "a evolução foi francamente positiva" e que "vivemos um período imparável". o médico deu como exemplo vários progressos conseguidos, como os casos dos países onde já é possível fazer o teste da sida em casa. "Estamos à beira de poder dar um salto imenso na luta contra a infeção VIH e esta é a altura de acompanhar o que a ciência nos diz".
Uma das metas é chegar a 2020 e conseguir ter "90% das infeções diagnosticadas e 90% dos diagnosticados tratados", por exemplo. Mais, António Diniz vai mais longe. "Pelo contexto em que estamos e com o armamentário científico que temos acho que é possível eleger como meta para 2030 um Portugal sem sida e sem tuberculose."

Conferência inédita em Portugal

A associação Abraço quer trazer a Lisboa a reunião da Sociedade Internacional de Sida (IAS). Está entre os candidatos para o encontro de 2019. A decisão será conhecida no verão do próximo ano e, sendo positiva, trará a Portugal seis a sete mil pessoas.