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A felicidade escondida: “Não se negam pedidos a um anjo”

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Teresa Pinto Basto

Filipa Sáragga pinta, escreve e pratica solidariedade social. Tem 31 anos, três livros publicados e uma vontade imensa de partilhar o que aprende com as “crianças azuis” com quem convive

O que leva uma rapariga de 26 anos, formada em Belas-Artes, a começar a escrever e a ilustrar livros? O pedido de uma menina de 7 anos com cancro terminal pode dar um valente empurrão. Foi este o clique na vida de Filipa Sáragga, hoje com 31 anos, madrinha desta menina que se chamava Maria - e que morreu. Quando Filipa disse a Maria "um dia vou pintar a tua história", ela respondeu-lhe "não, a madrinha pinta e escreve". "Não se negam pedidos a um anjo", pensou Filipa. Nesse momento, naquele quarto do Instituto Português de Oncologia de Lisboa, ela soube que tinha de escrever a história de Maria, para dar a conhecer a sua sabedoria e o modo como sorria "no meio de tanto sofrimento".

Nascia assim o livro "Talvez um Anjo", o segundo de Filipa Sáragga, escrito e ilustrado por ela. Dedicado à memória de Maria Luísa Lousada Laureano, os lucros das vendas reverteram na íntegra para a Associação Nariz Vermelho e para a família da menina. O prefácio foi escrito pela mão do então cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo, e lançado na Fundação Calouste Gulbenkian.

Ilustração para o livro "Talvez um Anjo", dedicado à afilhada de Filipa, uma menina que morreu de cancro aos 7 anos

Ilustração para o livro "Talvez um Anjo", dedicado à afilhada de Filipa, uma menina que morreu de cancro aos 7 anos

Filipa Sáragga

Antes já tinha havido um primeiro livro (infantil), "O Toiro e a Bailarina", ilustrado com base em pinturas a óleo da autoria de Filipa Sáragga. A pintora passou por um momento mais difícil na sua vida pessoal e decidiu transformá-lo em algo positivo. "Nesta altura, fora de casa, já me tinha deparado com o verdadeiro sofrimento, com as verdadeiras fragilidades, e decidi que queria pôr o meu trabalho ao serviço dos outros.". Fala do voluntariado que desenvolveu sempre junto de crianças, muitas institucionalizadas ou "diferentes", com síndromas de autismo ou trisomia 21. Chama-lhes "crianças azuis", mas esclarece que também há muitos adultos que se sentem marginalizados e excluídos e que por isso são mal rotulados.

Imprimiu 1700 livros numa gráfica, convenceu Marcelo Rebelo de Sousa e Laurinda Alves a escrever, a apresentou a sua primeira obra no Centro Cultural de Belém (imagine-se...!). Encheu a sala e vendeu os exemplares todos. Os 23.800 euros foram direitinhos para duas associações: a Terra dos Sonhos e a Associação Salvador. Com este novo projeto, Filipa encontrou uma vocação. "Antes sonhava em vir a ser uma boa pintora. Era bastante carreirista", assume. Depois percebeu que "é uma perda de tempo estarmos demasiado concentrados em nós mesmos".

Uma das ilustrações de Filipa Sáragga para o livro "A Princesa Azul e a Felicidade Escondida", onde são visíveis os "meninos azuis"

Uma das ilustrações de Filipa Sáragga para o livro "A Princesa Azul e a Felicidade Escondida", onde são visíveis os "meninos azuis"

Filipa Saragga

O voluntariado já vinha de trás. "Os meus pais sempre nos incentivaram - a mim e às minhas irmãs - a respeitar e cuidar de quem mais precisa. Lembro-me, desde muito pequena, da felicidade que sentia no Natal quando íamos em família distribuir cabazes a um bairro social muito carenciado. Lembro-me como se fosse hoje da felicidade daquelas famílias ao receberem os cabazes. Consigo ver-lhes o sorriso e sentir-lhes os abraços. A felicidade daquelas crianças era irresistível."

A felicidade escondida

Este ano, Filipa escreveu nova obra. "A Princesa Azul e a Felicidade Escondida" é um "livro de adultos para crianças que conta a história de uma princesa diferente, nascida com uma cor que não existe", por ser vítima de bullying, discriminação, exclusão e todos os sofrimentos daí decorrentes. Determinada, Filipa queria contar com o comentário de António Guterres, alto comissário da ONU para os refugiados, na sua obra. Feitos os contactos, ele ligou-lhe, explicando que até poderia ler o livro "sem compromisso" na próxima viagem de avião, mas que não lhe podia prometer nada. Foi por isso com enorme surpresa e satisfação que Filipa recebeu a notícia de que Guterres aceitara escrever-lhe um texto para o início da obra. "Quando olho para os 50 milhões de pessoas que no mundo de hoje tiveram de fugir das suas casas e das suas comunidades por causa da guerra e da violência, gostaria muito que os responsáveis pudessem ter lido 'A Princesa Azul e a Felicidade Escondida' e aprendido a lição. O mundo seria bem melhor", escreveu António Guterres. O livro de Filipa acabou por ser integrado no Plano Nacional de Leitura, no 6º ano.

No atelier de Filipa, os quadros a óleo que deram origem ao primeiro livro, "O Toiro e a Bailarina". Pinta desde os 3 anos

No atelier de Filipa, os quadros a óleo que deram origem ao primeiro livro, "O Toiro e a Bailarina". Pinta desde os 3 anos

Filipa Sáragga

Entretanto, Filipa está já a escrever o quarto livro. É uma obra que fala sobre a sua "redescoberta", que lhe ensinou "o verdadeiro sentido da vida". Espera "ter oportunidade de fazer isto o resto da vida". Tem a sorte de ter uma família que a "ajuda a ajudar" e que tem orgulho no caminho que ela escolheu para si. Aprendeu muito com as suas experiências. A não julgar, a relativizar os males da vida, a olhar para o outro e não para si. No fim de tudo, gostava de sentir que fez "outras pessoas felizes" e que valorizou "aquilo que realmente é importante". Filipa está a fazer a parte dela.