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Julgamento do suspeito de terrorismo na Portela começa esta quinta-feira

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PORTELA O suspeito subiu as redes do aeroporto de Lisboa e esteve escondido 24 horas antes de tentar entrar no avião da TAAG

marcos borga

PSP admite que pode vir a reforçar as medidas de segurança junto ao tribunal, no Campus da Justiça, em Lisboa. Mas recusa alarmismos

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

É esta quinta-feira de manhã que se inicia o julgamento de Gima Her Calunga, um cidadão de nacionalidade holandesa apanhado no aeroporto da Portela na noite de 3 de julho de 2014, com uma faca, junto a um avião das linhas aéreas angolanas. Gima, de 29 anos, foi detido preventivamente e acusado de adesão e apoio a organizações terroristas e terrorismo internacional, bem como aos crimes de atentado à segurança de transporte por ar com vista ao terrorismo, posse de arma branca e introdução em lugar vedado ao público.

O julgamento começa ainda sob o eco dos atentados terroristas em Paris, das detenções de jiadistas na Bélgica e dos alertas de bomba em Hannover. A PSP refere que "eventualmente" irá reforçar as medidas de segurança junto ao tribunal onde vai decorrer a sessão de julgamento. Ao Expresso, uma fonte oficial daquela corporação refere que houve um aumento da segurança junto a aeroportos e embaixadas, por iniciativa da Polícia, mas recusa-se a avançar com cenários alarmistas. "Em Portugal, não há qualquer sinal ou indicação de que vá ocorrer algo semelhante a Paris, mas estamos obviamente mais atentos, uma vez que o nosso país integra as forças de coligação que têm atacado o Daesh."

No Campus da Justiça, Gima irá ser interrogado sobre a sua passagem na Síria, durante duas semanas, em campos de treino da Al-Qaeda e do autodenominado Estado Islâmico (Daesh), no início de 2014. Segundo a acusação, recebeu treino militar e aceitou a missão de concretizar o referido atentado terrorista no aeroporto de Lisboa, por indicação dos mencionados grupos.

Tinha uma faca com 21 centímetros na mão quando foi detido junto de um avião da TAAG, companhia aérea angolana, no aeroporto de Lisboa, a 3 de julho de 2014. Segundo o despacho de pronúncia, Gima Her Calunga dirigiu-se para junto da aeronave com o objetivo de sabotar o avião, provocando danos com a faca nos pneus, sistema de travagem ou sistema elétrico da aeronave, de forma a provocar falhas no seu funcionamento e assim dar causa a um acidente de aviação e ao invadir a zona de descolagem. O arguido tinha perfeito conhecimento de que estava a cometer um atentado à segurança de um meio de transporte aéreo e que colocou sério obstáculo à normal circulação do referido avião.

Os juízes salientaram ainda que o holandês não apresentava qualquer ligação ao território nacional e a sua formação nos campos de treino jiadistas deixava antever seriamente a continuação da sua atividade delituosa. Confirmaram também a tese do Ministério Público, de que agiu sempre de livre vontade, tendo sido submetido a exame pericial psiquiátrico, que o considerou criminalmente imputável.

A investigação foi levada a cabo pelos procuradores Vítor Magalhães e João Melo, do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) e pela Unidade Nacional de Contraterrorismo da Polícia Judiciária.

Duas noites no aeroporto

Nascido na cidade do Dundo, norte de Angola, o suspeito entrou em Portugal por terra, de comboio, numa viagem que passou pelo Luxemburgo, França e Espanha, até chegar à Gare do Oriente, em Lisboa, a 29 de junho de 2014. Durante três noites, ficou hospedado na residencial LarExport, situada a poucos metros das instalações da Polícia Judiciária. Pagou 180 euros em dinheiro por uma estadia de duas semanas. Arrendou o quarto n.º 6 no terceiro andar da pensão de um prédio a necessitar urgentemente de obras. As caixas do correio estão destruídas, as escadas de madeira têm frinchas e buracos de todos os tamanhos.

Gima fez perguntas a várias pessoas sobre como viajar para Angola. Dizia que ia procurar os pais. Um dos moradores da pensão assegurou ao Expresso que o holandês lhe chegou mesmo a revelar que teria estado preso na Síria, mas sem dar quaisquer pormenores dessa detenção.

Dois dias depois, a 1 de julho, fez check-in no Hotel AS Lisboa, na Almirante Reis, depois de utilizar um computador do hotel. Mais uma vez pagou em numerário. Foi dali que acabou por dirigir-se até ao aeroporto de Lisboa, munido de uma faca Mercer envolvida numa bainha artesanal feita de papel e fita cola, que guardou entre as costas e as alças.

Na noite de quinta-feira, 2 de julho de 2014, subiu a uma árvore, junto à estação de serviço da Repsol na Segunda Circular, e acabou por conseguir saltar a vedação. Seguiu em direção à pista 3 e pernoitou numa infraestrutura abandonada conhecida como radar velho. No dia seguinte, fez o percurso várias vezes, com “o objetivo de estudar o funcionamento do aeroporto”.

Às 22h15 do dia 3 de julho dirigiu-se à zona de embarque 46, onde se encontrava um avião da companhia aérea angolana TAAG que se preparava para levantar voo até Luanda.

O Boeing 777/300ER estava a ser rebocado para a placa quando o condutor do rebocador detetou uma sombra próxima da aeronave, chamando de imediato as autoridades. Em poucos minutos, a PSP deteve o holandês, que tinha consigo a faca do mato, “que visava sabotar o avião, provocando danos designadamente nos pneus, sistema de travagem ou sistema elétrico da aeronave, de forma a provocar falhas no seu funcionamento e assim dar causa a um acidente de viação”, garantem os procuradores.

Nos primeiros momentos após a detenção, “tentou fazer-se passar por maluco”, assegurando que estava ali apenas para ver os aviões e que a faca se destinava a descascar frutos. Um exame pericial psiquiátrico, realizado posteriormente, considerou-o imputável.

Além da faca, Gima tinha uma agenda escrita em holandês onde revelava algumas informações sobre as suas semanas de treino na Síria e o passado recente em mesquitas salafistas da Holanda. Rapidamente se descobriu que Gima Her Calunga constava de uma lista internacional de suspeitos com ligações ao extremismo islâmico, mas sem contacto ou ligações em Portugal.

Sinais de alarme provenientes da Síria

Em abril de 2014, depois de ter estado duas semanas nos campos de treino dos radicais islâmicos, o holandês saiu da Síria “descontente com as condições de vida que lhe eram proporcionadas” e foi detido pelas autoridades turcas que controlam a entrada e a saída de combatentes do Daesh. Acabou por ser expulso para a Holanda. Segundo o MP, ainda antes de sair da Síria, Gima recebeu instruções para realizar uma missão quando regressasse à Europa, “consistente em estudar os procedimentos de segurança interno do aeroporto de Lisboa e ali concretizar um atentado terrorista”.

Logo após a sua detenção em Lisboa, o juiz de instrução Carlos Alexandre decretou que Gima ficasse em prisão preventiva na cadeia de alta segurança de Monsanto. Foi indiciado pelos crimes de adesão e apoio a organização terrorista, atentado à segurança de aeronave, detenção de arma e introdução em lugar vedado ao público.

O caso teve repercussões na Holanda e em Angola. A imprensa holandesa revelou que o alegado terrorista, que se tinha radicalizado nos últimos anos, chegou a ser expulso de várias mesquitas em Haia, entre elas da conhecida mesquita salafista As-Sunnah, considerada pelos serviços secretos como um palco de difusão do radicalismo islâmico. Ainda segundo os holandeses, Gima fazia parte de um grupo de jiadistas que está debaixo de olho das autoridades há vários anos, apoiante da corrente ‘takfir’ (radical).

Segundo o Ministério Público, estava sob vigilância das secretas holandesas desde que regressara da Síria, principalmente depois de ter confessado a uma assistente social de Apeldoorn, onde vivia, que participara em atividades jiadistas e que regressou para levar a cabo ataques terroristas. Nessa altura, ficou incluído numa lista de pessoas proibidas de viajar de avião.

Em maio, as autoridades perderam-lhe o rasto. Deixou a sua casa sem aviso. E não podendo viajar por ar, escapou para Lisboa de comboio.