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Seixas da Costa. França “tem o seu inimigo dentro de si”

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Nuno Botelho

Em duas entrevistas publicadas esta segunda-feira, o antigo embaixador em Paris critica o Ocidente por só intervir “quando as coisas se tornam muito chocantes” e defende um olhar “responsável” em relação ao terrorismo, “que não coloque em causa as nossas liberdades”

“O que este caso devia suscitar era reflexão e uma ação concreta sobre o isolamento interno do Estado Islâmico”, defende o embaixador Francisco Seixas da Costa, a propósito dos atentados de Paris, acrescentando que é preciso “olhar para a questão do terrorismo de modo responsável, mas de tal maneira que não coloque em causa as nossas liberdades”.

Seixas da Costa, que representou Portugal na capital francesa entre 2009 e 2013, comenta esta segunda-feira o impacto dos atos terroristas em duas entrevistas, publicadas nas edições do “Diário de Notícias” e no “Diário Económico.

Ao “DN”, revela ter olhado para os atentados “com relativa surpresa”, por ter pensado “que as medidas de segurança implementadas depois do ‘Charlie Hebdo’ impedissem ataques assim”.

O embaixador diz ainda estarmos perante “uma dimensão altamente sofisticada de terrorismo e que representa uma rede muito forte e articulada dentro de França”, país que “tem grande dificuldade em criar modelos de integração para a sua comunidade islâmica”. “Tem o seu inimigo dentro de si”, conclui.

Ao Ocidente, deixa uma nota crítica: “Só intervém quando as coisas se tornam muito chocantes”. Ainda assim, Seixas da Costa não acredita “que os países mais poderosos queiram pôr tropas no terreno”.

Sobre o risco de este caso afetar a forma como olhamos para os refugiados, o embaixador refere, ao “Diário Económico”, que “a Europa já estava à espera de um pretexto para acusar os refugiados de ameaça à segurança”, sentimento que é preciso conter e que não pode por em causa a ajuda a quem também foge da guerra. “É um pouco obsceno apontar para dois ou três pessoas e generalizar”, afirma.

Quanto a possíveis alterações às regras de Schengen, Seixas da Costa admite que “já era certo que uma revisão deste espaço era inevitável”. “O que se tenta agora evitar é uma revisão radical que afete a livre circulação dentro da Europa”, acrescenta.

O embaixador lembra também que “Portugal, na sua condição de país periférico, é um país que beneficia bastante de Schengen, acima de tudo a nível turístico”, motivo porque “deve defender tanto quanto possível a manutenção das regras deste espaço, mas não sem deixar de ter em conta as preocupações de segurança dos parceiros europeus”.