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Refugiados. “E se nos sentássemos à mesma mesa?”

EMPREENDEDORES. Duas alemãs tiveram a ideia da iniciativa, os alunos, de vários países, corresponderam à chamada e o diretor da Nova Business School deu todo o apoio necessário

Como resolver a integração dos refugiados nos países de acolhimento? À mesa. Pelo menos é o que acreditam os alunos que venceram o concurso da Escola de Gestão da Universidade Nova de Lisboa que tentaram no último sábado encontrar uma saída para a crise da Europa

Jessica, uma alemã de 25 anos, em Portugal há 12 meses e de partida para São Paulo, colocou os seus receios à Luísa, também alemã, com a mesma idade e quase a rumar a Viena, que concordou. De volta das férias do verão, o tema dos refugiados estava em todas as conversas de alunos e professores. Serão os refugiados que estão a chegar maciçamente à Europa um problema ou uma oportunidade?

Ambas vivem em Lisboa e estudam na Nova Business School, a faculdade que o “Financial Times” colocou entre as 30 melhores da Europa na área. Decidiram que o tema deveria ser debatido e os alunos convocados para encontrar propostas de solução. O diretor da instituição, Daniel Traça, alinhou. Os alunos corresponderam. Em cerca de um mês, tinham em mãos cerca de 70 candidaturas. Destas, 40 passaram à competição, em grupos formados pela própria organização.

No dia a seguir aos atentados em Paris, apesar do choque, ninguém se demoveu: a integração dos refugiados é a única saída. Os candidatos e alguns professores, tentaram, então, encontrar respostas e o grupo vencedor chegou à conclusão que o melhor é sentarem-se todos à mesa.

“A ideia surgiu à hora do almoço, enquanto comíamos. Lembrei-me de uma mulher que conheci em Moçambique e de como ela sempre disse que os estrangeiros gostavam da comida africana e de como era possível fazer contactos durante as refeições”, conta a alemã Karoline, do grupo vencedor.

E foi com a frase “você tem de provar uma cultura para a entender”, de Deborah Cater, autora britânica de livros de viagem, que o grupo vencedor encerrou a sua apresentação. Uma ideia que passa por uma mesa, algumas cadeiras, um website e, sobretudo, o conceito da partilha. Na proposta vencedora, os refugiados estenderiam a toalha, preparariam a comida, com base em receitas tradicionais dos seus países de origem, e colocariam os pratos à mesa. Os locais ofereceriam a sala, a mesa e as cadeiras.

Todos sentados de boa vontade e preparados para falar. E comer. Assim, sem grande protocolo, seriam abordados os problemas de cada um e, o que poderia ser uma situação de confronto, transformar-se-ia numa situação de partilha. Com os estereótipos como refeição principal e o diálogo como talheres, tentar-se-ia desmontar incompreensões.

A ideia foi criada para ser concretizada na Alemanha, pensada para que se recorresse aos media sociais, às instituições de apoio social e de acolhimento e às associações não governamentais envolvidas no processo de receção. Os anúncios seriam colocados nos centros comunitários, junto dos interlocutores nos campos de refugiados e a divulgação dos casos de sucesso seria feita nos meios de comunicação tradicionais. Os custos seriam uma responsabilidade dividida entre as famílias de acolhimento, os patrocinadores e uma recolha de fundos.

Yan Qin, chinesa, Juli Lubig, alemã, Frederico Zanuttini, italiano, Karoline Hormann, alemã, e Yusuf Nural, turco, o único que não é aluno da Nova, mas do ISCTE, não ganharam qualquer prémio em dinheiro. Nenhuma viagem. Nenhuma medalha. Ganharam um vinho do patrocinador, e, principalmente, como explicaram ao Expresso, “ganharam experiência e a possibilidade de alargar as redes de contacto”.

No sábado a seguir a Paris

Cerca de 40 alunos estiveram reunidos no último sábado, pouco depois de conhecidas as notícias dos atentados de Paris, à procura de uma solução para a crise dos refugiados. Em três horas, tinham de apresentar uma solução.

Inserida na rede CEMS, que integra quarto melhor mestrado do mundo em Gestão, A Nova é considerada a única escola portuguesa com parâmetros compatíveis com as escolas da Global Alliance in Management Education -, onde estão algumas das melhores instituições de Economia e Gestão do mundo.

Para aceder ao programa, os estudantes, como Jessica e Luísa, devem frequentar um dos três mestrados base da Nova SBE (Economia, Finanças ou Gestão), no segundo ano, passem um semestre em Lisboa e outro numa das restantes 29 escolas que fazem parte da rede global CEMS. A conclusão do mestrado implica ainda um estágio internacional com a duração mínima de 10 semanas consecutivas numa empresa, localizada no estrangeiro.

Daniel Traça, diretor da Nova Business School

Daniel Traça, diretor da Nova Business School

“Já não é possível gerir olhando para a secretária, o mais importante é levantar a cabeça e olhar para o mundo e é isso que passamos aos nossos alunos”, explica Daniel Traça, diretor da Nova Business School. Ele próprio leciona uma disciplina que sublinha a importância do desenvolvimento da responsabilidade civil e empenha-se em que os alunos participem em programas de voluntariado.

Este ano, mais de 50 por cento dos candidatos à escola eram estrangeiros e vinham de mais de 80 países diferentes: Alemanha, Itália, França, China, Áustria, Índia e Noruega, por exemplo. Atualmente, 40 por cento dos alunos e 30 por cento dos professores são estrangeiros, apresentando mais de 60 nacionalidades diferentes. E mais de 40 por cento dos alunos desenvolvem carreiras internacionais. A faculdade garante ainda que todos os alunos têm empregabilidade a 100 por cento, seis meses após terminarem a formação.

“Os nossos alunos têm de ter os olhos levantados para o mundo. Não adianta fingir que os problemas e os desafios não existem, porque, um dia, saltam-nos para a cara”, explica Daniel Traça e, como bom professor da área da gestão, criou em frente ao Expresso uma fórmula para o sucesso: A3, ou seja, “estar consciente (aware), agir (act) e ser-se responsável pelo resultado (accountable)”.