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Estado Islâmico já matou três portugueses

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Precília Correia, 35 anos, morreu quando assistia ao concerto da banda Eagles of Death Metal, em Paris

D.R.

Maria tinha 76 anos, Précília 35 e Manuel 63. Os três foram vítimas do terrorismo. Perderam a vida em França e na Tunísia. Outros quatro portugueses morreram em nome da ideologia extremista, longe de casa, numa guerra que não é deles

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Estavam no local errado, à hora, minuto e segundo errados. Foram alvos aleatórios do terrorismo extremista. Vítimas mortais do autodenominado Estado Islâmico (Daesh). Este ano, três portugueses perderam a vida em atentados realizados em França e na Tunísia.

Maria da Glória Moreira, uma viúva de 76 anos, foi a primeira vítima. No final de julho foi assassinada por um homem armado, quando passava férias na costa da Tunísia. A professora reformada gozava os primeiros momentos de lazer depois da morte do marido, dois anos antes. Os dois gostavam de fazer turismo na Tunísia e foi por essa razão que decidiu ter uns dias para si no hotel Riu Imperial Marhaba, em Port El Kantaoui, 140 quilómetros a sul de Tunes.

Estava na praia quando o atirador solitário a matou. Morreram 39 pessoas nesse ataque que seria reivindicado pelo Daesh. "Além de todo o choque que uma situação tão drástica e tão violenta causa, torna-se quase irónico, tendo em conta que a minha sogra estava a recuperar de uma viuvez relativamente recente, e que estava a reaprender a viver - esta era a primeira viagem que ela fazia sozinha -, e tinha ido para um destino que lhe agradava particularmente, onde tinha boas recordações de ter estado com o meu sogro. Portanto, acaba por ser uma ironia ainda maior e uma dor adicional que as coisas tenham acontecido desta maneira". As palavras são do genro da portuguesa.

Foi também num momento que seria de lazer que morreu Précília Correia, a mais recente vítima dos terroristas. A lusodescendente de 35 anos assistia ao concerto da banda norteamericana Eagles of Death Metal no La Bataclan, na noite de sexta-feira 13, quando a sala de espetáculos parisiense foi tomada de assalto pelos terroristas. Filha de pai português e mãe francesa, trabalhava numa loja da Fnac na capital.

A última fotografia que colocou na página do Facebook tem a data de 23 de julho. É de uma praia paradisíaca. As anteriores, captadas na costa do Meco (Setúbal) e em Lisboa, são de junho, quando Précília passou as férias do verão em Portugal.

Horas antes de ser oficializada a morte desta lusodescendente já o Governo havia confirmado o nome da primeira vítima portuguesa. Chamava-se Manuel Colaço Dias, tinha 63 anos e residia em França há 45 anos, com a mulher e os dois filhos, um rapaz com 28 anos e uma rapariga com 30. A filha tinha viajado para Portugal com a mãe para tratar dos papéis para o casamento.

Manuel Colaço Dias era natural de Corte de Pinto, uma aldeia que fica a poucos quilómetros de Mértola, no Alentejo. Em Paris trabalhava como motorista de uma empresa de transportes e turismo. Na noite desta sexta-feira, tinha levado três pessoas ao estádio para assistirem ao jogo particular de futebol entre França e Alemanha. Terá morrido numa das explosões que ocorreram junto ao recinto desportivo.

Manuel Dias morreu na sexta-feira junto ao Estádio de França, onde decorria um jogo de futebol a que assistia o Presidente François Hollande

Manuel Dias morreu na sexta-feira junto ao Estádio de França, onde decorria um jogo de futebol a que assistia o Presidente François Hollande

D.R.

Os comentários de amigos de longa data e de familiares do alentejano na página do Facebook "Amigos de Corte de Pinto" traçam-lhe um pequeno perfil. O 'Barreno' era tido como uma pessoa de grande humor, simples, considerado gente da terra, mesmo estando emigrado há tantos anos. "Mais uma vitima inocente do terror que começa a assolar a nossa porta", salienta um amigo naquela página.

Os quatro que deram a vida pelo extremismo

Ao contrário destas três vítimas que morreram em França e na Argélia, outros quatro portugueses não morreram por mero acaso. Pertenciam ao exército terrorista de Abu Bakr Al-Baghdadi e deram a vida pelo fanatismo religioso.

José Parente fez-se explodir dentro de um carro, no Iraque, a 22 de maio do ano passado. A fotografia de Parente, que usava o nome de guerra Abu Osama Al-Faransi, surgiu em dezenas de páginas de propaganda do Daesh logo a seguir ao ataque. O lusodescendente, que vivia no sul de França, tornou-se num mártir dos fundamentalistas islâmicos. O ataque suicida matou dezenas de inocentes.

Cinco meses depois, foi a vez de Sandro Monteiro (conhecido como "Funa"). Oriundo de Monte Abraão, na Linha de Sintra, e tinha-se radicalizado em Londres no bairro de Leyton, juntamente com outros cinco portugueses. Foi abatido pela aviação ocidental em Kobane, na Síria, junto à fronteira com a Turquia.

Mikael Batista foi a terceira baixa portuguesa do exército terrorista. Também foi abatido pelos raides da aviação liderada pelos EUA. E também em Kobane. Mas já em janeiro deste ano. O lusodescendente de 23 anos tinha família em Chaves e emigrou para França há alguns anos.

O último jiadista português a morrer em combate foi Luís Carlos, de 26 anos. Oriundo da Cova da Moura, na Amadora, foi viver para França, onde se converteu ao Islão por influência da mulher de nacionalidade tunisina. Radicalizou-se e partiu para a Síria no ano passado. Morreu a 30 de maio em Sheddadi, noroeste da Síria. E deixou naquele país a mulher e duas crianças, uma delas nascida depois da morte do pai.