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O homem que inventou a felizcidade

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CULTURA. Paulo Cunha e Silva provocou uma radical viragem cultural no Porto, com impacto nacional e internacional

FERNANDO VELUDO/NFACTOS

Paulo Cunha e Silva, vereador da cultura da Câmara do Porto recentemente desaparecido, deixa um legado notável. Partiu pouco depois de ter sido o ideólogo de um fórum que colocou a Invicta no centro do debate e do pensamento contemporâneo

Domingo à noite o Rivoli estava atulhado de gente. Muitos permaneciam no exterior sem possibilidade de aceder à sessão de encerramento do Fórum do Futuro. O designer de comunicação Stefan Sagmeister, um ícone no mundo do design, tinha a seu cargo a responsabilidade de fechar o encontro este ano construído à volta da felicidade. Antes da entrada deste austríaco radicado em Nova Iorque e de Guta Moura Guedes, responsável por o apresentar a uma plateia ansiosa, sobe ao palco Paulo Cunha e Silva, vereador da cultura da Câmara Municipal do Porto e o ideólogo de um fórum responsável por colocar a cidade no centro do debate e do pensamento contemporâneo.

Com o esboço de sorriso transformado em marca de identidade pessoal, anuncia o final daquele encontro com 60 palestras distribuídas por vinte sessões distribuídas por cinco dias. Tudo começara com um prémio Nobel da Física a mostrar a fotografia da primeira luz do Universo, uma sessão descrita com fascínio por um vereador já a pensar no próximo ano e a anunciar o tema de debate: a Ligação. A ligação entre as pessoas, as ligações moleculares, as ligações entre planetas, as ligações improváveis, o infinito contido na ideia de ligar.

António Mexia e Guta Moura Guedes assistindo à apresentação de Sagmeister

António Mexia e Guta Moura Guedes assistindo à apresentação de Sagmeister

FERNANDO VELUDO/NFACTOS

É uma comunicação muito breve. Logo de seguida Paulo senta-se na plateia. Entra Sagmeister, após uma muito consistente e detalhada introdução feita por Guta, e, de pé no meio do palco, inicia um curioso mergulho pelos caminhos possíveis de acesso a alguns estados de felicidade. Há humor à mistura e o recurso a pequenos vídeos e diapositivos ilustrativos de quanto vai dizendo.

Em dado momento faz uma espécie de pausa para dizer que, embora participe em inúmeras conferências um pouco por todo o mundo, tem uma atitude por alguns vista como um defeito. Nunca, mas nunca, faz o tradicional agradecimento público pelo convite. Naquela noite propõe-se abrir uma exceção. Fala do Fórum, da excelência dos convidados, da inacreditável capacidade de uma pequena cidade para organizar uma iniciativa com tanto impacto, recorda passagens anteriores pelo Porto e realça o impacto da mudança sentido e vivido nos últimos dias. Por fim, e para materializar o agradecimento, chama ao palco Paulo Cunha e Silva. Um tanto envergonhado, um tanto desajeitado, um tanto desconcertado contra tudo quanto é seu hábito, Paulo recebe uma enorme salva de palmas no teatro que reabriu após longos anos de letargia. Ninguém o sabia, mas aquela era a homenagem final, no local certo, na hora certa, e para o homem certo.

rui duarte silva

Paulo Cunha e Silva era vaidoso. Sabiam-no todos quantos com ele contactavam. Perdia-se nos caminhos do excesso. Tinha a obsessão do detalhe e da perfeição. Chegava a ser intolerante para quem não cumpria. Podia ser irascível para quem parecia não compreender as dinâmicas implícitas na sua febril necessidade de ter sempre algo a ser concretizado. Ou seja, não estava isento dos defeitos que nem a morte apaga. Afinal, era apenas um homem. Com uma diferença: não era um homem qualquer e onde chegava marcava a diferença.

Percebeu-se isso mal chegou à Câmara. Uns dias depois de tomar posse convidou-me a passar pelo seu gabinete ao fim da tarde, num dia à minha escolha. Conhecíamo-nos desde que, com perto de 30 anos, começara a organizar conferências em Serralves, mas nunca fomos próximos. Discordávamos com frequência um do outro, desde logo por Paulo ter por vezes dificuldade em entender que o ritmo avassalador das suas iniciativas não podia, não tinha que ter necessária e imediata repercussão pública no Expresso. É paradoxal, mas ambos tínhamos razão. Ele, tomado pela urgência das coisas, ambicionava a máxima divulgação possível, para que cada vez mais pessoas tivessem acesso ao fruir cultural. Eu, porque o espaço de um jornal é finito e, como dizíamos muitas vezes um ao outro, a vida faz-se de opções. Mantínhamos a distância cordial de quem se respeita e percebe os diferentes campos em que cada um se movimenta. Aceitei o encontro com alguma emoção, reconheço-o. Não por ele, mas pelo significado implícito no convite. Não tinha um encontro daqueles na Câmara do Porto há doze anos. Desde logo por em todo aquele período a autarquia não ter tido um vereador da cultura, como pelo facto de ter objetivamente ostracizado tudo quanto à cultura pudesse respeitar.

rui duarte silva

A história é conhecida e dir-se-ia, em duas linhas, ter o Porto acordado para a luz há dois anos, após um longo período de ignorância e trevas. Não é exagero. É apenas o espelho de uma realidade que Paulo Cunha e Silva ajudou a transformar. Por isso a sua atitude, apesar de revelar um profundo amor às causas da cultura, é antes de mais política. Por que foi uma opção política - e não o dinheiro - a determinar a acintosa atitude do anterior executivo para com os agentes culturais. Aqui estou como Cervantes no início de "Don Quixote" quando escreve: "Num local da Mancha de cujo nome não me quero lembrar...". Prefiro esquecer-me dos nomes dos responsáveis pelo executivo, mas não deixo de recordar como o trabalho desenvolvido por Paulo Cunha e Silva é o mais poderoso manifesto contra a arrogância ignorante que tantas vezes toma conta do poder.
Assim, quando o revejo naquele gabinete que logo tratou de encher de quadros a óleo tantos anos perdidos, abandonados nos armazéns da Câmara, ocorre-me pensar na falta que fazem homens com tantos motivos para serem vaidosos como Paulo Cunha e Silva.

Uma das suas últimas palavras naquela sala do Rivoli foi para convocar um dos trocadilhos que tanto gostava de construir. A gosto com o Porto. A gosto com o Fórum, despediu-se com um sorriso malandro e o neologismo contido no conceito de que todos estávamos a viver um momento ou um espaço de FELIZCIDADE.