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Morte e barbárie. Dez respostas para conhecer o Estado Islâmico

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Estado Islâmico. O grupo tem utilizado a estratégia de executar em frente às câmaras alguns dos seus reféns ocidentais

Reuters

O autoproclamado Estado Islâmico reivindicou a autoria dos atentados de Paris. O que é o que defendem os seus guerrilheiros?

1. O que é o Estado Islâmico?

É um grupo armado jiadista que ganhou força quando entrou na guerra civil da Síria. Começou por se designar ISIS ou ISIL, mas passou a chamar-se “Estado Islâmico” a 29 de junho de 2014, depois de Abu Bakr al-Baghdadi ser nomeado seu califa. O assim autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) quer impor a autoridade religiosa sobre os muçulmanos de todo o mundo e ambiciona a conquista da região do Levante (Israel, Líbano, Síria, Iraque e Jordânia). Foi designado “organização terrorista” pelas principais potências ocidentais. Controla parte dos territórios da Síria e do Iraque. Quando conquista alguma localidade, os seus homens penduram a bandeira negra no topo do prédio mais alto.

2. Quem compõe e apoia o Estado Islâmico?

Inicialmente, era financiado por milionários árabes. Hoje, o Estado Islâmico consegue autofinanciar-se através dos lucros do petróleo e do gás (proveniente das zonas que conquistaram), dos impostos e do dinheiro proveniente dos raptos de cidadãos ocidentais. Os resgates têm sido pagos pelas famílias e por alguns governos de modo oficioso. A ofensiva no Iraque tem sido bastante lucrativa, já que o Estado Islâmico teve acesso aos milhões de dólares depositados em vários bancos de localidades invadidas. Deste modo, conseguem comprar armamento cada vez mais sofisticado.

3. Quantas pessoas já foram vítimas do Estado Islâmico?

Há centenas de denúncias de violação dos direitos humanos que visam os guerrilheiros do Estado Islâmico: soldados e civis decapitados, mulheres violadas e exploradas sexualmente são as mais comuns. Os que se recusam a viver sob as suas leis sofrem torturas, mutilações ou são condenados à morte. O Estado Islâmico é especialmente violento contra os xiitas, yazidis e cristãos e matou mais de 20 mil pessoas só em 2014, segundo algumas estatísticas mais conservadoras.

4. Quais as principais nacionalidades dos jiadistas ocidentais que combatem no Estado Islâmico?

Os franceses estão em maioria, depois surgem os britânicos. A Bélgica, a Alemanha, a Holanda, os Estados Unidos, a Espanha, a Dinamarca e a Suécia, o Canadá, a Áustria, a Itália, a Noruega, a Finlândia e Portugal são os principais países de origem dos guerrilheiros ocidentais. Há ainda russos e albaneses. O contingente fora de Europa é liderado pelos árabes, tunisinos e marroquinos. Da Austrália e da China saíram um pouco menos.

5. São jovens desinseridos?

Há muitos jovens radicais no Estado Islâmico que são filhos de famílias de classe média sem problemas sociais ou financeiros, têm estudos superiores e nunca tiveram problemas com a Justiça. A maioria, porém, vive em conflito permanente entre os valores do mundo ocidental, que rejeitaram, e os dogmas mais extremistas do Islão. Esta é a razão de pagarem um bilhete de avião até à Turquia ou Bulgária e daí viajarem de carro ou a pé até um país que só conheciam através das notícias da televisão.

6. Como matam?

As atrocidades contadas pelas vítimas incluem execuções e amputações na praça pública aos que desobedecem à ‘sharia’ ou violações de mulheres das minorias étnicas que recusam as ordens dos soldados comandados por Abu Bakr al-Baghdadi. Muitos destes mujahedines têm pouco mais de vinte anos, mas são já veteranos de guerra no Iraque, com um longo currículo de sequestros, torturas e homicídios. A escalada de violência atinge níveis nunca antes vistos em guerras recentes. Há execuções de centenas de pessoas em simultâneo e já foram descobertas valas comuns contendo corpos de homens de tribos que o Estado Islâmico tinha ocupado, tendo as vítimas sido mortas com tiros a curta distância. Numa tribo, os jiadistas tinham ordenado aos homens que deixassem as suas aldeias e seguissem para outro local, prometendo-lhes “uma passagem segura”. Estavam a mentir. Todas as vítimas foram raptadas e mortas.

7. Como angariam guerrilheiros?

Para ampliar o clima de medo e de terror, uma das táticas usadas tem sido a de colocar na internet dezenas de vídeos de decapitações feitas aos soldados inimigos e reféns ocidentais. O Youtube, o Facebook ou o Twitter são usadas como fonte de angariação e de propaganda. Nas redes sociais, há quem partilhe imagens de cabeças dos inimigos que servem de bola em jogos de futebol. Quem não obedece morre, é o lema, importado das guerras medievais. Alguns dos jiadistas portugueses entraram neste jogo de horror e não se coíbem de fazer ‘likes’ ou de partilhar as fotos e os vídeos.

8. Como fazem propaganda?

O poderio da máquina de propaganda do Estado Islâmico difere radicalmente dos vídeos amadores da Al-Qaeda dos anos 90. A esmagadora maioria dos seus vídeos é produzida e difundida através do Al Hayat Media Center, criado no verão de 2014 pelo gabinete oficial de propaganda dos jiadistas, o Al-Itisam Establishment for Media Production. Nos produtos de recrutamento mais recentes, foram produzidos vídeos, panfletos e até uma revista em língua inglesa. Os analistas são unânimes em considerar que por trás desta máquina bem oleada há vários especialistas em comunicação e com currículos nas áreas de vídeo, jornalismo ou webdesign. Nas imagens das decapitações de soldados sírios e de reféns ocidentais é visível alguma da estética mais moderna made in MTV: slow motions, bandas sonoras dramáticas e todo o tipo de pós-produções, que incluem o som de batimentos cardíacos e respirações ofegantes por cima das imagens da carnificina.

9. O que tem feito o Reino Unido para combater a Jihad em casa?

No Reino Unido foram detidas 218 pessoas ligadas a atos terroristas só nos primeiros dez meses de 2014. Foram ainda condenadas 16 depois de terem regressado da Síria. A polícia inglesa contabilizava ainda 66 jovens dados como desaparecidos pelas suas famílias, alegadamente por terem viajado para a Síria para se juntarem ao Estado Islâmico. Estima-se que entrem todas as semanas cerca de 50 pessoas em programas que combatem a radicalização.

10. O que diz o Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP) sobre os jiadistas portugueses?

Em abril do ano passado, o gabinete do secretário-geral do SIRP confirmou que se encontram “referenciados alguns cidadãos nacionais que integram esses grupos de combatentes”, que vão apoiar a causa jiadista na Síria. Alguns “detinham um estatuto de residência temporária noutros países europeus, embora apresentem conexões sociais e familiares ao território nacional”. Em setembro, fonte próxima das ‘secretas’ revelou que dois dos radicais estiveram de novo em Portugal. Não foram presos nem impedidos de viajar para a Síria ou para o Iraque. Ao contrário do que acontece noutros países, a lei portuguesa não permite a apreensão de passaportes nem proíbe o regresso dos jiadistas ao Estado Islâmico.