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Um cortejo de emoções na despedida de Paulo Cunha e Silva

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Funeral, a pé, do Rivoli à igreja da Lapa cruzou as ruas da baixa e passou junto à Câmara Municipal

Com o corpo já transformado em cinzas, após um funeral que esta tarde levou o féretro do Teatro Rivoli até a igreja da Lapa, Paulo Cunha e Silva, vereador da cultura da Câmara Municipal do Porto falecido na noite de terça-feira aos 53 anos, dificilmente deixará de ser uma presença no imaginário dos milhares de portuenses e outros cidadãos nacionais e estrangeiros que ao longo destes últimos dois dias têm expressado a angustia, a dor, a perplexidade pelo desaparecimento de quem parte tão jovem.

O corpo esteve em câmara ardente no auditório Manoel de Oliveira do Teatro Municipal e foi para lá que se dirigiram centenas e centenas de pessoas, anónimas e figuras públicas, até ao último instante presas a uma emoção incomensurável. De comum, nos muitos comentários ouvidos, sem necessidade de particularizar, fica a sensação de vazio por um desenlace tão inesperado.

Até na morte se pode e deve falar de estética ao evocar toda a ternura e simplicidade contidas no modo como o corpo foi velado no auditório que Cunha e Silva fez renascer das cinzas. Com a urna colocada bem no centro do palco, assente em suportes invisíveis, ladeada por duas belíssimas coroas de flores e um piano, iluminada apenas por um foco feito de luz ténue, sobressaía, em fundo, uma fotografia recente do vereador acabado de ser condecorado pelo governo francês.

Na plateia, o silêncio. No palco, já perto da hora do funeral, primeiro Pedro Abrunhosa, depois Álvaro Teixeira Lopes, acariciaram as teclas do piano para dali libertarem alguns trechos musicais condizentes com a solenidade do momento.

Foi ainda na sala que se ouviram as primeiras palmas. Iriam repetir-se ao longo do percurso, à entrada e à saída da igreja, onde a missa foi celebrada pelo bispo do Porto, D. António Francisco dos Santos, acolitado por quatro padres.

No final foi o tempo da família libertar a alma. A sobrinha incapaz de conter a emoção. O sobrinho sóbrio na evocação do exemplo recebido. O companheiro de Paulo, Miguel, a falar da enorme capacidade de espanto contida na vida daquele que partiu.

Por fim, Rui Moreira, presidente da Câmara, também ele com a voz embargada, quase a ser incapaz de se conter e, por isso mesmo, a revelar que chorou. Chorou muito. Até porque, esse choro é o mesmo que “chora pelo Paulo a cidade do Porto, esta cidade líquida que ele tão apaixonadamente amou e por quem se deixou tão apaixonadamente amar”.

Ao ver o amigo, o até agora vereador, Moreira olha para o choro de uma cidade “que perdeu um génio fora de qualquer baia ou norma”. Na verdade são poucos, são até raros, os seres humanos geniais. Mas são ainda menos, prosseguiu, “os génios bons e generosos. Aqueles que dedicam a sua vida aos outros, que fogem do conforto, que não se refugiam em Olimpos altaneiros a que porventura teriam direito por mérito próprio”.

Ao longo de 25 anos de amizade, “em longas, intermináveis, conversas”, os dois imaginaram uma cidade do Porto “coesa, viável, culta e solidária”. Culta porque, prosseguiu o presidente da CMP, “não sendo culta, não seria nunca plenamente coesa, viável ou solidária”. Para ambos a cultura não podia ser vista como um luxo, um “bem efémero e leviano que se propague naturalmente e só é importante em tempos de abastança”.

Por isso, uma mensagem importante neste momento de grande indefinição. Rui Moreira, que deverá chamar a si o pelouro da cultura, reafirma um compromisso para com a cidade do qual resulta a firmação de que a cultura “é um dos pilares fundamentais”.

Assim, assegurou, a única forma de homenagear Paulo Cunha e Silva é não deixar murchar ou morrer o caminho por ele iniciado. Esse é o apelo solene deixado por Rui Moreira que abrira a sua curta intervenção com a constatação de que “a morte é a mais tremenda circunstância da vida”. Toda a vida de Paulo Cunha e Silva, foi um permanente questionamento do ser, do estar, e das circunstâncias que tolhem os passos no sentido do diferente e na procura do maravilhamento.

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