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Tim Cook superstar

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OLÁ. Após o discurso, dezenas de estudantes invadiram o palco, para tirar selfies com Tim Cook

FOTOS MASSIMILIANO STUCCHI, EM MILÃO

O presidente-executivo da Apple falou pela primeira vez numa universidade fora dos Estados Unidos, arrastando uma pequena multidão de professores e alunos da Universidade de Bocconi (Milão). Todos quiseram ouvir um dos homens mais influentes da atualidade. No final houve invasão de palco e muitas selfies

Isabel Leiria, em Milão

Foi como se a universidade tivesse anunciado que ia pôr à venda bilhetes para um concerto de uma mega-banda. Em cinco minutos, a lotação do grande auditório da Universidade de Bocconi, em Milão, esgotou, para desespero de vários milhares de alunos que desde as oito da manhã do dia marcado, 22 de outubro, se sentaram em frente ao computador a tentar inscrever-se.

Marcelo bem insistiu, mas não conseguir melhor 'senha' que o 700. Tomás ficou com o número 1048. Maria fartou-se de fazer 'refresh' à página, mas com mais de cinco mil pessoas à frente perdeu logo a esperança de conseguir um lugar numa sala com capacidade para 900 e que tinha ainda de acolher professores e convidados especiais. Para estes três alunos portugueses daquela universidade restou a possibilidade de ver Tim Cook, o homem que sucedeu a Steve Jobs à frente da Apple, num dos vários ecrãs instalados no edifício e assistir à transmissão em streaming.

É estranho imaginar que um gestor possa arrastar hordas de jovens para o ver e ouvir. Mas se dúvidas houvesse da popularidade da Apple, sobretudo entre as gerações mais novas, ficaram esclarecidas mal Tim Cook entrou esta terça-feira na sala e se ouviram os primeiros entusiásticos aplausos e o disparar contínuo das máquinas fotográficas, e claro está, se ergueram por toda a sala iphones e ipads, dois dos produtos mais bem sucedidos que a empresa lançou até hoje, para registar o momento.

Mario Monti, o presidente da Universidade, com Tim Cook, depois do discurso de abertura

Mario Monti, o presidente da Universidade, com Tim Cook, depois do discurso de abertura

No discurso de abertura, Mario Monti, ex-primeiro ministro de Itália e presidente da Universidade de Bocconi, fez questão de o contar a Tim Cook: “Não pode imaginar o entusiasmo com que os nossos estudantes receberam a notícia de que viria cá, para assinalar a nossa abertura oficial do ano letivo. Só comparável a uma estrela do rock ou a um atleta famoso. Minutos após o início das inscrições, ficaram logo esgotadas.” A imprensa não se ficou atrás, com mais de uma centena de repórteres acreditados para o evento que, no ano passado, teve como convidada Christine Lagarde, diretora do Fundo Monetário Internacional.

O que é que Tim Cook tem?

Mas o que é que tem Tim Cook, além de ser considerado pela revista “Forbes” como um dos homens mais influentes do mundo, de estar à frente da empresa que bate recordes de valorização em bolsa e cuja marca é considerada como a mais valiosa do mundo? Provavelmente a popularidade deste homem discreto de 55 anos, alto, de cabelo grisalho, decorre mais da fama dos produtos Apple do que da sua própria personalidade e percurso.

As inscrições para assistir à preleção de Tim Cook, feitas há quase um mês, esgotaram em cinco minutos

As inscrições para assistir à preleção de Tim Cook, feitas há quase um mês, esgotaram em cinco minutos

É certo que a empresa continuou a ter mais e melhores resultados desde que assumiu a posição de CEO, em 2011, após a morte do anterior presidente, e co-fundador, da Apple, o muito mais controverso Steve Jobs. E que muito do renascimento da Apple no final do século passado se deu após a contratação de Tim Cook.

Francesco Paolo, 24 anos, um dos alunos que conseguiu garantir lugar no auditório, explica assim o entusiasmo: “Enquanto líder é uma fonte de inspiração. Sobretudo para os alunos de gestão. Claro que também sou um fã dos produtos da Apple. É uma marca tão icónica!”, diz, enquanto passa em revista as muitas fotos que tirou com o seu iphone e escolhe as que vai publicando no Instagram ou partilhando com os amigos através do What's App.

Uma fila cerrada à espera do “rock star”

Ao seu lado, mais de uma centena de jovens forma uma fila cerrada à porta, aguardando longos minutos pela saída de Tim Cook. Mais uma vez, a imagem faz lembrar mais uma concentração de fãs à espera de alguma estrela do mundo da música ou do cinema do que do mundo empresarial.

Na verdade, tudo o que envolveu a participação do CEO da Apple na cerimónia teve de ser minuciosamente combinado entre a empresa e os responsáveis da Bocconi. O título da comunicação foi mantido em segredo até quase à última hora, foram definidas regras para o trabalho dos fotógrafos e a segurança garantida. E Cook só falaria 20 minutos, foi avisado.

Mudar o mundo

E assim foi. Durante precisamente 20 minutos, num discurso sobretudo virado para os estudantes, em que recordou os seus primeiros dias na Universidade de Duke, onde fez o MBA e aprendeu uma das “lições mais importantes” da sua vida: “Com outros cinco alunos formámos um grupo de estudo e um grupo de amigos que ficou para a vida. Éramos todos diferentes, com visões políticas distintas, origens étnicas diferentes, cada um com os seus interesses e objetivos. Mas usávamos precisamente isso para nos tornarmos mais fortes. Mais do que qualquer aula, recordo-me da camaradagem e do trabalho em equipa. Acredito que as melhores empresas do mundo vão ser as que têm essa diversidade e estou muito grato por ter tido oportunidade de aprender esta lição bem cedo.”

De lição em lição, Tim Cook foi deixando mensagens e apelos aos jovens da plateia, muitos dos quais farão parte da nova geração de gestores e empresários. Defendeu a luta contra a discriminação, independentemente de “onde vimos, como parecemos, rezamos ou de quem amamos” - “a Apple é uma empresa aberta a todos, sempre foi, porque essa é simplesmente a atitude certa para se ter”, insistiu o discreto presidente da companhia, que em 2014 assumiu publicamente a sua homossexualidade.

Tim Cook durante a sua intervenção de 20 minutos, com tempo cronometrado

Tim Cook durante a sua intervenção de 20 minutos, com tempo cronometrado

Falou longos minutos sobre o impacto das alterações climáticas e de como era dever das pessoas e das organizações assumir a defesa do ambiente. Da importância de preservar os direitos de privacidade dos consumidores, numa altura em que quase tudo o que envolve a nossas vidas está registado em telemóveis e computadores. E de como “cada um pode e deve ajudar a fazer do mundo um lugar melhor”.

“Os problemas e os desafios que existem são demasiado grandes e complexos para serem resolvidos apenas pelos governos. Os negócios no seu melhor acontecem quando servem o bem público”, defendeu Tim Cook, que acredita que a Apple tem tido a sua contribuição na melhoria da vida das pessoas: “É o que nos motiva na Apple: mais do que fazer dinheiro, queremos deixar o mundo melhor do que estava quando começámos. Com os produtos que desenvolvemos queremos que as pessoas tenham o poder de fazer coisas que não conseguiam antes, que se liguem e partilhem os momentos mais importantes da sua vida e que se tornem mais produtivos e criativos.”

“Quebrem fronteiras”, aconselhou Tim Cook aos estudantes de Bocconi

“Quebrem fronteiras”, aconselhou Tim Cook aos estudantes de Bocconi

Claro que de fora ficaram polémicas envolvendo a Apple, como as acusações de suposta fuga aos impostos, com a declaração de lucros noutros países onde a carga fiscal é menor. A mensagem que Cook queria passar e que os alunos ouviam em devoto silêncio era outra: “Também vocês podem ajudar a mudar o mundo e a melhorar a vida das pessoas. Usem a vossa voz, rejeitem as coisas pré-assumidas, quebrem fronteiras.”

Invasão de palco

No final, o que quebrou mesmo foi o protocolo e a organização. Depois de muitos aplausos, e entusiasmados com o momento, dezenas de alunos invadiram o palco, para tirar 'selfies' com o presidente da Apple. Cook acedeu e ajudou ele mesmo a tirar algumas. Sem surpresas, o que mais se via eram iphones.

Sorte para os que conseguiram estar dentro do auditório, azar para os que tiveram de aguardar do lado de fora. A organização trocou as voltas aos estudantes que esperavam também por uma foto e Tim Cook, como uma estrela acossada pelos fãs, acabou por sair por outra porta.

Universidade de Bocconi, um marco na Economia e Gestão

Fundada em 1902, a Universidade de Bocconi é a mais importante instituição de ensino superior em Itália nas áreas de Gestão, Economia e Finanças e uma das mais prestigiadas a nível europeu e mundial. Os rankings internacionais do “Financial Times” e os QS World University Rankings (dos rankings mais consultados pelos alunos na Europa e na Ásia ) colocam-na no top 10 europeu e o top 30 mundial, sendo o objetivo para 2020 subir mais alguns lugares: “A Bocconi quer estar entre as cinco melhores universidades europeias e entrar no top 20 mundial”, adianta o reitor, Andrea Sironi. Não é por acaso que o presidente executivo da Apple aceitou participar na cerimónia de abertura de ano letivo desta universidade, privada mas não lucrativa, nesta terça-feira.

Entre cursos de licenciatura, mestrados e programas de doutoramento, a Universidade tem quase 14 mil alunos, 11 por cento dos quais estrangeiros. Vários cursos são dados integralmente em inglês e cerca de metade dos professores efetivos não nasceram em Itália.

Entre os mais de 250 acordos de parceria com escolas estrangeiras, estão quatro portuguesas, que todos os anos enviam alunos para a Bocconi e recebem outros tantos em troca: as escolas de negócios da Católica em Lisboa e no Porto, a Nova School of Business And Economics e o ISEG Lisboa School of Economics and Management.

* A jornalista do Expresso viajou a convite da Universidade de Bocconi