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Paulo Cunha e Silva: Ecos de Lisboa

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Rui Duarte Silva

A morte inesperada de Paulo Cunha e Silva, vítima de ataque cardíaco com 53 anos, chocou toda a comunidade cultural e artística nacional. O Expresso recolheu testemunhos de várias vozes que com ele privaram e nos dão eco de como o trabalho do vereador da Cultura do Porto foi acompanhado em Lisboa

Perante uma noticia tão súbita, tão inesperada alguém escreveu: "O Paulo era o meu amigo cometa." Nos testemunhos recolhidos entre várias figuras dos meios artísticos e culturais de Lisboa, podemos verificar que a imagem está certa. Rápido, contagiante, brilhante. Todas as vozes são unânimes em afirmar que Paulo Cunha e Silva foi o cometa, ou furação, que nos últimos dois anos entrou pela vereação da Cultura do Porto, provocando um tremor de terra na cidade, contaminado com a sua energia e a sua capacidade de fazer, a vida da comunidade artística e dos seus cidadãos.

Os ecos da transformação que Cunha e Silva estava a operar no Porto, depois do deserto em que se encontrava a cidade nos últimos anos, tiveram ressonância noutros pólos urbanos, como um exemplo de uma política cultural e artística, independente, orgulhosa, sólida, crente na cultura transversal e interdisciplinar.

Entre as suas muitas criações, o conceito de "cidade líquida" tem um apelo quase magnético. Uma cidade que flui e se desfaz no jogo dos múltiplos gestos, formas, volumes, capaz de contaminar a comunidade artística e os seus públicos. Paulo Cunha e Silva, formado em medicina, tinha a versatilidade dos humanistas. Acima de tudo foi um pensador. Não é por acaso e até "tristemente irónico", como nos diz Nuno Faria, crítico e curador de artes plásticas, cúmplice de longa data, que "tenha desaparecido no momento em que estava a fazer um programa em torno da Felicidade". E por isso arrisca dizer que "Paulo era um humanista", para quem a cultura lato sensu era um lugar de comunicação, pensamento, encontro. O momento da grande festa.

Catarina Vaz Pinto - Vereadora da Cultura de CML

Tiago Miranda

"Há muitos anos que o Paulo já fazia um trabalho muitíssimo importante, agora como vereador colocou a cultura no centro da sua cidade.

Hoje as cidade têm um grande protagonismo. Esse protagonismo assume-se em várias áreas — política, social e cultural. A importância da cultura é enorme, pois é ela que afirma a sua identidade dentro de um centro geográfico e no espaço global. Neste sentido, o trabalho do Paulo foi notável. A marca mais forte desse protagonismo foi o diálogo interdisciplinar que ele conseguiu promover entre a comunidade artística e o público. Tudo isto só foi possível conseguir num tão curto espaço de tempo pelo seu olhar sobre a cidade e capacidade de a pensar."

João Louro - Artista plástico

Gonçalo Rosa da Silva

"Conheço o Paulo há muito anos, são muitos episódios que recordo, muitos projetos que fizemos juntos... O que se passou no Porto, desde que o Rui Moreira apresentou a sua candidatura independente e juntou Paulo Cunha e Silva, foi uma coisa muito inusitada. De repente, os dois fizeram o inesperado, ultrapassaram a máquina partidária, mostrando que não é só na política partidária que se traça o caminho. Juntaram pessoas de todos os lados, convidaram a participar, a fazer, transformando a cultura num acontecimento. Posso dizer com grande convicção que o Paulo foi o furacão na sociedade portuense e o seu exemplo, um momento pioneiro, espantoso."

Rui Vieira Nery - Musicólogo

Tiago Miranda

"Era um portuense ferrenho, daqueles com um bairrismo apaixonado que os lisboetas têm dificuldade em entender, e ao mesmo tempo um cidadão do Mundo, profundamente cosmopolita. Conheci-o há uma vintena de anos, ainda nos primeiros tempos da Fundação de Serralves, e desde então fomo-nos cruzando em causas comuns e colaborando em múltiplos projetos.

Há muitos anos que éramos amigos, com várias colaborações pontuais. Aquilo que me ocorre agora, de imediato, é falar daquele dinamismo enorme, capaz de motivar o coletivo. Depois do deserto cultural que atravessou, o Porto emergiu com o Cunha o Silva. Quando chegou à Câmara já tinha uma experiencia enorme de fazer cultura e um grande conhecimento do meio. Com a sua capacidade de diálogo e de cruzar artistas pôs o Porto a girar, e o que emergiu foi uma cidade fervilhante. Não é por acaso que o prémio 2014 da SPA para a melhor programação cultural autárquica foi para ele."

António Mega Ferreira - Escritor

Tiago Miranda

"Era um ser extremamente afável e muito agradável no trato. Acompanhei o trabalho dele em Roma, quando foi adido cultural de Fernando D'Oliveira Neves, de quem eu era amigo. Eu estava na embaixada quando escrevi o meu livro 'Roma, Exercícios de Conhecimento' e tive oportunidade de observar o trabalhador extraordinário que ele era. Logo ali entendi que estava perante um grande fazedor.

Ser a driving force é fundamental. Quando tomamos consciência do que aconteceu nestes últimos dois anos no Porto é que verificamos o que ele manejou e pôs em movimento. Foi um trabalho impressionante. Ele não precisava de dizer o que andava a fazer. As coisas aconteciam e nós víamos. Para fazer é preciso visão, ideias e capacidade as pôr em prática. É esta a natureza do fazedor."

Inês de Medeiros - Deputada

Marcos Borga

"Fui uma espectadora banal quanto ao Paulo Cunha e Silva, pois nunca trabalhei com ele.

A última vez que estivemos juntos foi nesta edição da Feira do Livro do Porto. Pediram-me para fazer um debate e ele estava lá. Como sempre conversámos.

Em dois anos assistimos à transformação profunda de uma cidade e essa revolução deve-se a uma ideia muito concreta de política pública que tem a assinatura do Paulo Cunha e Silva. O que posso dizer se não que aquele meio era riquíssimo e que estava entorpecido e que foi essa energia contagiante, impressionante, de um homem, que ao ocupar um cargo político, mostrou que quando há vontade e inteligência, se consegue provar que o meio cultural é o elo de ligação mais imediato para pôr a comunidade a funcionar e ter confiança para enfrentar o futuro? Tudo isto foi o que o Paulo fez, apontando com o seu exemplo um caminho."

Tiago Rodrigues - Diretor do Teatro Nacional D. Maria II

TIAGO MIRANDA

"Conheci o Paulo numa reunião duríssima , estava eu a começar com a minha companhia, O Mundo Perfeito, e ele estava à frente do Instituto das Artes. Quando saí dali percebi que tínhamos pela frente um interlocutor com uma energia e um furor fora do comum. Estes são dois traços dele que desde logo intuí e que se mantiveram na sua forma de trabalhar. A maneira vertiginosa como ele conseguiu nos últimos dois anos pôr o Porto a funcionar com a sua comunidade artística, de uma forma muito concreta, muito palpável é a prova disso mesmo. O Paulo provocava ondas de choque com a sua capacidade transformadora, tornou-se num político criativo num breve espaço de tempo e neste sentido foi um exemplo raríssimo.

Ele tinha esta ideia de 'cidade líquida' que é uma ideia belíssima, onde muitas coisas acontecem ao mesmo tempo em vários lugares, nas estruturas mais institucionais, aos espaços mais independentes, com um mesmo objetivo de contaminar, contagiar, arriscar. Esta vertente, penso, acabou por produzir efeitos nos meios culturais de outras cidades. Essas, são as tais ondas de choque a que me refiro. Este modelo foi inspirador para o país sensível à cultura e à criação artística."