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“As nossas Malalas” distinguidas

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Romana (à direita) e Inêsselaram um compromisso de apoio mútuo que dura há oito anos

Republicamos o artigo “As nossas Malalas”, que foi capa da revista do Expresso em julho de 2015 e que esta semana recebeu uma menção honrosa na categoria de jornalismo do Prémio Comunicação Corações Capazes de Construir, apoiado pelo Instituto Camões. Quem são as jovens portuguesas que tentam melhorar o país?

Há uma única mão levantada no meio de uma sala de aula repleta. "Quem quer ajudar a Inês? Ela tem paralisia cerebral e vem estudar para a vossa escola." Silêncio, ninguém avança. Romana aceita o desafio. Tem 8 anos e é, aparentemente, o apoio mais frágil que Inês poderia ter. Alvo de bullying, ridicularizada por ser gorda, não é especialmente bonita. Mas é a única que agarra a oportunidade. Passados oito anos, ainda é a sua mão que está lá, que empurra a cadeira de rodas da menina loira e de olhos claros, na Escola Secundária Dr. Azevedo Neves, na Damaia, arredores de Lisboa.

"Como era posta de lado e não tinha amigos, sabia que podia fazer uma grande amizade. Comecei a falar com a Inês por um dossiê com palavras. Agora, basta-me olhar", explica Romana Sousa, de 16 anos. Filha de uma portuguesa analfabeta e de um cabo-verdiano, tem sérios problemas de saúde e, apesar das dificuldades, é ela a força lá de casa. O pai não está, parte e regressa, a mãe olha para Romana antes de tomar uma decisão e os dois irmãos mais novos apagamse na sua presença. Dona de uma coragem discreta, não se intimidou quando foi preciso parar o pai, prestes a agredir a mãe ou o irmão. "Uma vez, para defender o meu irmão, levei uma estalada do meu pai. A minha mãe defendianos dele, mas, um dia, enfraque ceu demasiado e, a partir daí, fui eu que tive de defendê-los", conta em voz baixa. Ninguém a ensinou. Mais uma vez, avançou quando foi preciso.

A obesidade traz-lhe diabetes, colesterol alto, problemas hormonais e hipertensão intracraniana. Esteve internada mês e meio e conheceu Inês porque perdera o terceiro ano, devido aos problemas de saúde. Desde então, fez-se boa aluna. Está no 11º ano e estuda para Gestora de Eventos. Sonhava ser cantora, mas sabe que não será este o caminho e quer andar lá perto. "Sempre quis ser diferente, ter uma vida profissional que me sustente, mas assusta-me saber que vou viver menos e não vou poder provar aos meus pais e irmãos que sou capaz. Hoje tenho mais coragem, o meu medo são as minhas doenças", confessa.

Psicóloga dos colegas, deixou para trás o tempo em que a fotografaram nua no vestiário com o telemóvel, para espalhar pela escola. Sozinha, impediu a humilhação. Falou com a diretora de turma, fez-se respeitar e, atualmente, reúne à sua volta colegas de todos os tipos. Este ano, até já descobriu que, além de Inês, também ela existe. Fez-se pessoa. Expressa a sua opinião, encaminha a conversa, responde ao professor quando os colegas não conseguem. Está lá para eles, com uma atitude maternal: "Tenho imensos amigos, ajudo-os no que precisam e guardo o que me contam. Muita da força que tenho vem de mim, o resto vem das pessoas que sei que vão sofrer se não a tiver".

Pode Romana ser comparada a Malala Yousafzai, a jovem paquistanesa baleada na cabeça pelos talibãs em 2012 por lutar pelo direito à educação das raparigas do seu país? A menina que, aos 17 anos já foi apontada como candidata ao prémio Nobel, que discursou nas Nações Unidas em julho do ano passado, que tem um dia internacional (14 de julho) para celebrar o seu trabalho? E que tem em seu nome um fundo para promover a apoiar meninas em todo o mundo a "alcançarem o seu verdadeiro potencial"?

É como estar numa prisão

Romana nunca tinha ouvido falar de Malala, mas, questionada sobre se também ela poderia ser vista como um modelo, responde sem filtros: "Acho que sim, posso ser um exemplo para as minhas amigas." E os pequeninos olhos redondos não escondem a admiração pela recém-descoberta paquistanesa, quase parecendo ouvir o pai de Malala falar: "A nossa voz é a mais poderosa, quando se trata dos nossos direitos." É que a luta de Romana começa em casa, de cada vez que não desiste, que não se basta ao seu corpo e à sua condição social.

Inspiração, Malala Yousafzai, a paquistanesa que os talibãs tentaram matar em 2012, por defender o direito das meninas irem à escola

Inspiração, Malala Yousafzai, a paquistanesa que os talibãs tentaram matar em 2012, por defender o direito das meninas irem à escola

Também Malala é filha de uma analfabeta, uma miúda entre tantas, só que com coragem para tomar uma atitude. Em 2015, as mulheres representarão 64% da população mundial adulta que não sabe ler. Mas existem 600 milhões de raparigas em países em desenvolvimento e o que poderá acontecer se todas tiverem acesso à educação? "Surgirá uma nova leitura do mundo e uma força e um poder enormes. Malala é o ícone do que uma rapariga educada pode fazer pela mudança. É inspiradora. A desigualdade de géneros não é exclusiva dos países subdesenvolvidos. O essencial mantém-se, há sempre um aprisionamento. A violência existe, o risco de andar na rua existe.

"A frase, bem estruturada, é de Adriana Delgado, 24 anos. Ela sabe que, este ano, em Portugal, já morreram 20 mulheres vítimas de violência doméstica e, à sua maneira, também decidiu tomar uma atitude. Participa na Rede Jovens para a Igualdade de Oportunidades entre Mulheres e Homens. Não sabe dizer quando se descobriu feminista - é esta a palavra, e não tem medo de a utilizar -, recorda-se apenas de uma viagem de comboio a ler uma banda desenhada da Disney e da estrondosa entrada das feministas na história. Marcou-a. E lembra-se de se sentir incomodada com as exigências sociais quanto ao comportamento correto de uma rapariga: "Sempre fui um bocado arrapazada, o meu pai queria que eu usasse calças para poder correr e a minha mãe que tivesse cabelo curto. Nem por isso deixava de me sentir rapari ga. Sabia que havia expectativas quanto à forma de me comportar e que tinha menos opções só por ser mulher. Ser feminina significava estar numa prisão."

Adriana descobriu o seu percurso ao trabalhar contra o sexismo on-line e participa num projeto documental europeu sobre as questões de género nos novos media. "Na internet há muita misoginia", alerta. Sílvia Vermelho, 25 anos, é a presidente da Rede. Ela e Adriana conheceram-se durante o programa "De Mulher para Mulher", projeto de tutoria entre diferentes gerações femininas. Afirmativa, Sílvia começou cedo a militância. Aos 7 anos participou na primeira manifestação: estudava numa aldeia, em Mangualde, e a escola precisava de uma passadeira de peões. Conquistaram-na e ainda lá está, mas a escola Primária de Santo André desapareceu. "Foi o primeiro impulso, que se tornou quase viral", explica. O discurso, muito bem articulado, é reflexo da aplicação dela à causa da igualdade de género: "A partir do momento que desconstruí o conceito de feminismo, aceitei-o, ficou para toda a vida, transformou-se numa missão."

Amor, roupas e telemóvel

Esta forma de estar contaminou a opção profissional de Sílvia. Arriscou ser empresária por conta própria e lida com o preconceito no seu trabalho. "A diferenciação com base no género faz-se sem se dar conta. O contexto do mercado de trabalho é cada vez mais hostil e a infantilização da mulher é um processo comum e inconsciente", sublinha. Na União Europeia, as mulheres recebem menos 15,7% do que os homens. Em 2008, esta diferença era de 9,2%, ou seja o fosso está a aprofundar-se. A percentagem mais alta de mulheres em cargos de direção nas empresas acontece na Noruega e é de apenas 21%. Como mudar esta situação? Para Sílvia e Adriana a solução passa "pela criação de uma nova geração de feministas".

Emancipação. Sem medo de rótulos, Sílvia (à esquerda) e Adriana tentam criar uma nova geração de feministas

Emancipação. Sem medo de rótulos, Sílvia (à esquerda) e Adriana tentam criar uma nova geração de feministas

Mas ser-se feminista não é uma decisão tão simples quanto se possa pensar à partida. O grupo Girl Effect, por exemplo, recusa o rótulo. Em 2010, a ONU e a Fundação Nike impulsionaram a criação deste movimento, que visava estudar e perceber qual o efeito da educação na vida de uma rapariga. Dois anos mais tarde, Joana Fialho tomou esta iniciativa a braços e criou a unidade portuguesa. Joana morreu este ano, de forma inesperada. Mas o grupo continua. Até porque ela deixou bem viva a mensagem: "Em Portugal, temos acesso igualitário à educação entre rapazes e raparigas. Mas quando chegam ao mercado de trabalho aparecem as diferenças - e elas não estão preparadas. O importante com este e muitos outros projetos é que as mulheres caminhem no sentido de encontrar o seu papel no mundo."

Cabe às animadoras do Girl Effect Verónica Pereira, Inês Prata, Rita Castanheira, Maria João e Joana Borrego darem continuidade ao que se transformou numa missão. Preparam com atenção os campos de férias em que meninas dos 10 aos 15 anos juntam a parte lúdica à consciencialização dos papéis sociais que têm.

Um dos pontos mais trabalhados refere-se à violência no namoro e elas citam números de uma investigação da Universidade do Minho com o conhecimento de quem anda no terreno: uma em cada quatro raparigas portuguesas já terá sido vítima de violência física, psicológica ou emocional. "Quando os namorados decidem que roupa elas devem usar e lhes vigiam os telemóveis, elas não veem estas atitudes como violência, pensam que é amor, e não é fácil abordar este tema", contam as Girl Effect Portugal.

Preocupadas com o contexto nacional, estão atentas ao que se passa lá fora. Anualmente, dois membros do grupo são enviados a Nova Iorque para participar na reunião internacional Commission on the Status of Women. Lá, como aqui, usam as instalações do movimento cristão Graal e têm a responsabilidade de preparar o material didático que serve de base às reuniões entre jovens de vários países.

Em 2013 foram confrontadas com as dificuldades das mulheres rurais. "Em Portugal não temos tanta consciência dos contrastes e das diferenças. Esta experiência deixou-nos mais atentas", conta Verónica, 22 anos, de origem cabo-verdiana e que diz ter-se tornado "uma cidadã mais crítica" desde que integrou o Girl Effect.

Na conversa com as Girl Effect volta-se sempre a Joana. No regresso da viagem aos Estados Unidos, Verónica e Maria João trouxeram a biografia de Malala e Joana sugeriu uma leitura em grupo. Começaram, foram interrompidas pela morte da fundadora e estão a retomar a proposta. Até porque reconhecem na jovem paquistanesa uma inspiração, mas fazem questão de lembrar que "há muitas Malalas no mundo, pessoas anónimas que todos os dias arriscam a vida para lutarem pela libertação dos seus países". É por isso que não ficam intimidadas ao verem o seu trabalho associado ao desta referência mundial da solidariedade. Verónica assume que elas "foram educadas para controlar os riscos", mas Rita propôs-se "sair da sua zona de conforto", Inês escolheu "esta causa como filosofia de vida" e Maria João incorporou-a: "Já faz parte de nós".

Uma Malala cigana

O bairro de Santa Tecla, em Braga, causa desconforto - na cidade diz-se que é perigoso, que um forasteiro tem de ter cuidado -, mas Vanessa anda à solta, conhecelhe os cantos. Afinal, aquela é a sua casa, não fosse esta rapariga de 19 anos cigana, como cerca de 80% dos moradores da zona. Tudo começou em 2010, quando Vanessa Matos começou a frequentar o espaço da Cruz Vermelha e do Programa Escolhas no bairro. Ia em busca do acesso aos computadores e das atividades de verão. Quando os técnicos perceberam quem lhes tinha batido à porta, propuseram-lhe um emprego, para se aproximarem da comunidade através de Vanessa. A conjugação de fatores era rara e explosiva: mulher, cigana, solteira, neta do patriarca!

Unidade. Joana, Verónica, Maria João, Inês e Rita (da esq. para a dir.) atuam em grupo pela autonomia feminina

Unidade. Joana, Verónica, Maria João, Inês e Rita (da esq. para a dir.) atuam em grupo pela autonomia feminina

Quando a família de Vanessa soube, mudaram-lhes os planos. O irmão, mais velho, já era casado, tinha uma filha e o emprego teria de ser para ele. Assim foi, mas nem ela nem os técnicos desistiram.Nova proposta de trabalho foi-lhe oferecida pouco tempo depois e, desta vez, nada a impediria de se pôr a caminho. "Sempre pensei fazer a diferença", garante. E faz: atualmente, em todo o bairro, os únicos habitantes com empregos formais são Vanessa e o irmão.

Em Santa Tecla, entretanto, a desconfiança subia de tom. "A Vanessa vai trabalhar para o meio dos senhores, vai perder os nossos costumes, vai deixar de ser cigana", murmuravam as mulheres. "Eu entrava e saía do bairro de cabeça baixa, pensei desistir", recorda a jovem. Foram precisos seis meses para a tensão se esbater. Desde então, diz que tem ficado "mais cigana", mesmo depois de ter sido convidada este ano pelo Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural para participar, em Bruxelas, num encontro europeu de ciganos. Só seria autorizada pela família se levasse alguém de confiança. Levou e afirmou-se mais um pouco: "Sou cigana, falo a cantar, não deixo a tradição por nada."

O papel do tio Gomes

O segredo da aceitação no bairro tem um nome e Vanessa sabe bem: o avô é o patriarca da comunidade cigana do Minho. Uma responsabilidade para ambos. Encontramo-lo vestido de negro, a barba branca crescida, na sala de casa, com o televisor tapado por um pano, em sinal do luto pelo sogro, falecido há cerca de um mês. Tio Gomes tem que se lhe diga, é "um cigano diferente", nas palavras da neta. Andou no seminário, quis ser padre, é o guardião das tradições, conjuga o respeito pelas origens com um gosto pelo progresso dos seus. Todos os cinco filhos completaram a quarta classe. É "o bichinho", chama Vanessa, carinhosa. Mas para os demais ciganos é um juiz, quem intervém quando há diferendos. O orgulho é recíproco. "No princípio foi difícil vê-la fora da família, as crianças da nossa etnia evoluíram muito com ela", sublinha Tio Gomes.

Este homem de falas mansas percebeu há muito tempo que "a feira já não traz futuro". Também ele é feirante, assim como a neta, que, no verão e nas férias, lá está a chamar clientela. E Vanessa - como Malala, que tem no pai um incentivador e um exemplo - reconhece que faz o que faz porque tem o apoio do avô. Nascida por "um descuido" - a mãe quis abortar - acabou por ser criada pelos avós, o que lhe determinou o destino.

A jovem cigana provocou uma revolução no bairro, de tal forma que o espaço do Escolhas na Cruz Vermelha já não tem estrutura que chegue para responder aos pedidos da comunidade. E muitas meninas começam a dizer: "Quero ser como a Vanessa, trabalhar e estudar."

Persistência. Vanessa recusou-se a casar aos 11 anos e trabalkha pela sua comunidade em Braga

Persistência. Vanessa recusou-se a casar aos 11 anos e trabalkha pela sua comunidade em Braga

Na sequência do seu exemplo, 14 raparigas envolveram-se no projeto. E se até há cinco anos as meninas da comunidade só podiam chegar à quarta classe, algumas já frequentam o segundo ciclo. Porque as barreiras resistem, e mesmo Vanessa teve de ficar dois anos fora da escola.

Com a "perigosa idade" de 11 anos - aquela em que as raparigas chegam à puberdade e descobrem a sexualidade - saiu da escola, para se preparar para o casamento, com um primo, da mesma idade. Mas, rebelde, "disse cabaças": desfez o noivado. Ficou solteira, ou "solteirona", como já a chamam por Santa Tecla.

"Um cigano não faz nada se não tiver algo em troca, e o que quer receber é dinheiro", explica Vanessa, que tem emprego até ao fim de 2015 e estuda para técnica auxiliar de saúde. Entretanto, espera o seu "príncipe encantado", mas já decidiu que, seja quem for, quer que as filhas tenham "uma educação diferente". Que tenham acesso a mais, sem perder o essencial, porque, como faz questão de sublinhar, "ser cigana é ter o melhor da vida, a alegria, é fazer parte de um povo unido, um enorme orgulho".

Em África como na Lousã

"Viste o jogo de ontem?"

"Vi, fomos roubados."

"Então escreve um texto a contar."

O diálogo faz parte do trabalho de Joana Lopes, 24 anos, licenciada em Reabilitação Psicomotora, com mestrado em Psicologia Social e presidente da Associação Humanitária para a Educação e Apoio ao Desenvolvimento (AHEAD). No âmbito do trabalho desta organização, dez voluntários por dia, dedicam-se, três vezes por semana, a ajudar crianças carenciadas dos bairros da Boavista e da Ameixoeira, ambos em Lisboa, a melhorarem o aproveitamento escolar. Cercada por crianças, dona de uma paciência invejável e de uma autoridade que organiza o ambiente, Joana é um refúgio para aqueles miúdos. E sabe-o: "Eles aqui estão protegidos."

Ana Filipa Figueiredo, 22 anos, estudante de Medicina, vice-presidente da AHEAD, gostava de ser cirurgiã, mas foi no voluntariado que se encontrou. "Não me custa tirar tempo ao meu curso, porque não é o meu sonho, o meu sonho é isto. A Medicina é o caminho para cá chegar", diz, lembrando-se do tempo passado em África. Lá os voluntários da organização dedicam-se a dar aulas, a formar professores e, muitas vezes, a atender a necessidades básicas. Em troca recebem sorrisos, afetividade e a força da música, que, dizem, os empurra para a frente.

Anualmente há cerca de três a quatro centenas de candidatos ao programa internacional da AHEAD, que os leva a Moçambique e São Tomé. Mas a viagem é a cereja no topo de um bolo, que exige muito esforço para ficar pronto. Grande parte do tempo de Joana e Ana é dedicado a viabilizar o orçamento. Rifas, jantares e eventos, tudo serve para impedir que os voluntários sejam escolhidos com base na capacidade financeira em lugar do que deve ser fundamental: o perfil.

Vontade. Em Lisboa, Ana (à esquerda) e Joana dão apoio escolar a crianças carenciadas

Vontade. Em Lisboa, Ana (à esquerda) e Joana dão apoio escolar a crianças carenciadas

Discretas, não se lançam em grandes voos quando a discussão é sobre o mérito do trabalho que fazem. Malalas, elas? "A necessidade é a única maneira de sabermos se somos capazes. O nosso trabalho é importante, mas não conseguimos fazer a comparação.
Temos à nossa volta todas as ferramentas e todos os meios. Se nos dissessem há um ano que hoje estaríamos aqui, também acharíamos impossível..."

Nos bares a falar de sexo

A mística de Malala Yousafzai alcança, contudo, cantos imprevistos. Na Lousã, Daniela Filipa, 17 anos, gostava de perguntar à jovem paquistanesa "de onde vem toda aquela força e coragem". Tímida, de parcos sorrisos, vai-se descobrindo ativista à sua maneira.
Há cinco anos entrou para o Centro de Ocupação Juvenil (COJ) da Cáritas Diocesana, numa salinha da escola. Lá encontrou Ticha, como chama a Patrícia Ramalheira, 40 anos, educadora social e responsável pelo espaço, da qual, com o tempo, se fez companheira. "Ela era caladinha, mas vem crescendo interiormente", conta a amiga e orientadora.

Envolvida neste momento no projeto "Pintar Sonhos", Daniela participa, com algumas colegas, numa iniciativa para melhorar a vida de crianças e jovens da região, pintando-lhes os quartos. "É importante chegarmos a casa e ter o nosso espaço. No meu tenho tempo para pensar e sei que estas crianças não têm uma vida como a minha", diz. Ainda não descobriu os conceitos nem tem as ferramentas teóricas do trabalho de voluntariado, mas já percebeu que há quem precise e quem possa colaborar. Algumas colegas desconfiam, tentam desviá-la, mas Daniela resiste e marca para o futuro o desejo de ser enfermeira. Para ajudar. Sem perder o que já conquistou: "Quero manter o voluntariado para toda a vida. Há tempo para tudo, se pensarmos bem."

Impulso. Sem conceitos abstratos, mas com vontade de ajudar, Daniela (em primeiro plano) faz voluntariado desde os 12 anos

Impulso. Sem conceitos abstratos, mas com vontade de ajudar, Daniela (em primeiro plano) faz voluntariado desde os 12 anos

Rita Brito, de 24 anos, pensa o mesmo. A sua mão redondinha vai espalhando porta-copos pelas mesas do bar no Bairro Alto.
Voluntária da Amnistia Internacional, angariar apoios é uma das tarefas regulares que tem. Àquela hora, os clientes não estão interessados em proselitismos, ninguém quer falar de direitos de género. Mas o refrão repete-se e a paciência é o sustento: "A tua assinatura conta", vai afirmando Rita. Acreditando na força da palavra, não desarma perante negativas menos simpáticas. É em continuar que está o ganho, acredita, ou, como se diz na Amnistia, "parar as pessoas é importante".

Nas escolas a que vai a convite, Rita fala de pena de morte e não se cansa de se surpreender. "Muitos jovens são a favor, dizem que há crimes que têm de ser punidos. Falam de pedofilia, de terrorismo e até de incêndios." Com a idade dos miúdos que agora a escutam já ela andava no voluntariado. Começou com 15 anos na paróquia de Alvalade, em Lisboa: "Percebi que a solidariedade é essencial". Aos 18 anos entrou para a Amnistia, onde espera um dia trabalhar de forma remunerada. Até porque sabe que o empenho precisa de sustento: "Se não tiver dinheiro para mim, não terei para ninguém". Licenciada em Sociologia e com mestrado em Economia de Políticas Públicas, arma-se para melhor atingir os objetivos fixados. O seu principal projeto é trabalhar em zonas de conflito, especialmente no Leste europeu.

A educação é o principal pilar. Em casa viu a falta que faz querer tê-la e não poder. A avó materna completou apenas a quarta classe, queria mais, não a deixaram ir além, por ser mulher. Serviu-lhe de exemplo. "Dizem que há situações que não existem em Portugal, mas existem. E a pergunta que temos de nos colocar é, diariamente: o que é que já fez pelos direitos humanos hoje?" É também por isso que, quando se entra no escritório da Amnistia em Lisboa, salta à vista o poster com a fotografia de Nelson Mandela e a frase "A educação é a arma mais poderosa que podemos usar para mudar o mundo".

As raparigas de várias partes de Portugal citadas neste artigo são exemplos anónimos de quem trabalha por si e pelos outros. Não é de caridade que se trata, mas de mostrar que, conscientemente ou de forma espontânea, há quem marque limites e abra caminho para quem vier a seguir. Escolhidas com o apoio de organizações que estão no terreno, servem de modelo para mostrar que há muitas formas de se ser Malala.

Iniciativa. Com talento para fazer parar, Rita luta pela igualdade sendo voluntária na Amnistia Internacional

Iniciativa. Com talento para fazer parar, Rita luta pela igualdade sendo voluntária na Amnistia Internacional

A Declaração da Rapariga

Há três anos, a ONU instituiu o Dia Internacional da Rapariga, a 11 de outubro. Em causa estava a necessidade de alertar o mundo para a urgência de que as jovens exerçam uma cidadania plena. "Garantir os seus direitos humanos e abordar a discriminação e a violência que estas enfrentam é essencial para o progresso de toda a família humana", disse na altura o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon. Na sequência desta iniciativa, surgiu também a Declaração da Rapariga, feita com base no contributo de 508 adolescentes que vivem em 14 países em desenvolvimento e que contou com o apoio de Malala Yousafzai. "Eu não fui posta no mundo para ser invisível. Eu não nasci para ser negada. Não me foi dada a vida apenas para pertencer a outra pessoa. Eu pertenço a mim mesma. Tenho uma voz e vou usá-la. Tenho sonhos inesquecíveis. Tenho um nome e não é anónimo, insignificante, desprezível ou que esteja à espera de ser pronunciado.

Um dia eles irão dizer: este foi o momento em que o mundo acordou para o meu potencial. Este é o momento em que me autorizaram a ser surpreendente. Este é o momento em que o meu crescimento deixa de te assustar. Este é o momento em que ser rapariga se tornou na minha força e no meu santuário, não na minha dor. Este é o momento em que o mundo vê que ultrapassei todos os problemas e sou a chave, com as soluções. Este é o momento em que uma rapariga e uma rapariga e uma rapariga e 250 milhões de outras raparigas dizem alto: este é o nosso momento, este é o meu momento, este, sim, este é o momento." (Tradução livre)

  • De onde vem toda esta força?

    São jovens, portuguesas e ninguém as conhece, mas todos os dias tentam tornar melhor a vida dos outros. Das suas famílias. Delas próprias. São pequenas Malalas à lusitana. Encontraram na solidariedade uma forma de ser.