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As Marias são rapazes e os rapazes também choram

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Ana Baião

O mundo já foi mais simples. Eles tinham carrinhos, elas tinham bonecas. Eles tinham emprego, elas tinham filhos. Hoje, elas querem ser como eles e eles querem ser como elas. O género conta cada vez menos. É mais o que os une do que aquilo que os separa

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

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Jornalista

Ana Baião

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Constança Bandeira cerra os dentes. O olhar azul é feroz e avalia todos os movimentos no relvado. Ela e um conjunto de outras raparigas encaixam umas nas outras, inclinadas, de modo a que as cabeças das jogadoras de cada equipa estejam alternadas.

Os corpos maciços fazem força para avançar a todo o custo. Está a decorrer uma mêlée, ou formação ordenada, todas juntas formam um túnel humano potente, vigoroso, olhos postos no centro onde se disputa a bola oval. Após várias tentativas uma colega consegue sacar a bola do meio e passá-la para as mãos de Constança, que tem a posição de médio de abertura e parte a correr veloz pelo terreno enquanto decide para onde o jogo deve continuar. A atenção está voltada para ela dado que, pela sua posição, é a jogadora que maior influência exerce sobre a partida. Coragem, bravura e determinação são os seus nomes do meio.

Constança cresceu em cima de motos e bicicletas. O pai participava em competições downhill e enduro e ela e as duas irmãs habituaram-se a acompanhá-lo nos desafios motorizados pelas imediações da serra da Lousã. O mundo dos rapazes e dos homens nunca foi um terreno estranho para ela. E cedo trocou as bonecas pela aventura, pela adrenalina, pelo desafio, e até pelas mazelas que fazem parte dos audazes. "Não me importo de partir ossos, dói mas passa", diz com o seu sorriso doce. Esta rapariga de feições delicadas rejeita o paradigma clássico do género feminino. "Não me identifico com o estereótipo da menina romântica, medrosa e frágil. Sou o contrário disso. Mas até acho que essa ideia tradicional está a mudar. As jovens da minha geração estão mais lutadoras, mais competitivas."

Há dez anos que Constança pratica râguebi. Afirma que o seu corpo mudou completamente. Os ombros alargaram, ficou mais musculada, "inchada", nas suas palavras. "Nem gostava muito do meu aspeto mais masculino, mas não me importava, o meu prazer pelo desporto era maior do que a vaidade." Certos rapazes quando sabem que é jogadora de râguebi soltam a provocação: "Xi! És mais homem do que eu". Constança cerra os lábios, mas deixa passar. "A maioria até acha interessante uma rapariga praticar este desporto. Atualmente os rapazes querem é uma rapariga que lhes dê luta e seja determinada.

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Quem cozinha são os rapazes

A ideia de que eles gostam delas submissas está a mudar. Pelo menos no meu círculo de amigos as mulheres mais lutadoras são as que chamam mais a atenção." Aos 21 anos, a tirar um mestrado em engenharia mecânica, na universidade de Coimbra, sonha ser mecânica de Moto GP - a categoria rainha das competições de motociclismo de velocidade. Afirma que há pouca diferença no campo dos desejos e projetos profissionais entre rapazes e raparigas da sua geração. "Todos nós queremos o melhor emprego, o melhor cargo e um salário ótimo. Sabemos que as mulheres ganham pior do que os homens, mas queremos mudar isso." Mas no campo dos comportamentos e sexualidade, Constança é perentória nas desigualdades de género que ainda persistem. A eles é permitido quase tudo.

Das raparigas espera-se que sejam recatadas, bem educadas. Há dois anos Constança sofreu uma lesão no joelho que a obrigou a estar em casa de perna estendida. Aprendeu com a dona Branca, a empregada de casa, com idade para ser sua avó, a fazer tricô. Mas deixa bem claro que não se imagina no papel tradicional da mulher caseira. "Todos os meus amigos rapazes querem dividir as tarefas caseiras quando se juntarem com uma mulher. Nenhum quer uma mulher sopeira em casa. Iremos ter papéis iguais e partilhados em casa e no trabalho. Na verdade, quando dou jantares em minha casa, quem cozinha são os rapazes, e quem limpa e deita o lixo fora são também eles. Isto já quer dizer alguma coisa, não?"

De acordo com os estudos recentes sobre a juventude norte-americana, as novas gerações são mais tolerantes, libertas das amarras tradicionais ou de imposições muito restritas sobre o que é o comportamento do género masculino e feminino. Prevê-se que no futuro venham a rejeitar os padrões da família clássica como os conhecemos hoje e que se perca uma definição clara dos géneros. Num artigo recente do jornal "The New York Times"chega mesmo a afirmar-se que "esta nova geração parece menos agarrada aos tradicionais géneros binários ou a definições claras de sexualidade. É tudo à volta do individualismo e o direito de cada um a ser o que quer." E por cá a tendência é esta?

Conceição Nogueira, investigadora no domínio das questões de género e das sexualidades e professora da Faculdade de Psicologia e de Ciências de Educação da Universidade do Porto, desarruma a questão. "Se os universitários portugueses forem questionados sobre se na sua geração há distinção nos papéis de género, se eles e elas estão cada vez mais parecidos e com direitos iguais, todos ou quase todos dirão que sim, sem qualquer reserva, numa primeira instância. E acreditarão nisso. É o discurso politicamente correto. Mas se chamados a refletir mais a fundo, e se forem expostos a determinadas circunstâncias, acabam por assumir que não há igualdade."

A investigadora dá como exemplo a partilha das tarefas domésticas. "Elas assumem que eles têm mais competências caseiras. Mas o que é curioso é que esta geração tem dúvidas se no futuro se manterá esta igualdade numa relação conjugal diária. Particularmente questiona-se a possível dificuldade delas em gerirem profissões de liderança e a vida familiar. Assuntos que não preocupam os rapazes."

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Pedro Ferreira, de 21 anos, estudante do 3º ano de Economia da Universidade Nova de Lisboa, acrescenta outro exemplo. "Se uma rapariga se envolve com muitos rapazes é considerada promíscua, na gíria é uma porca. E um rapaz se estiver com muitas raparigas é um patrão, um player. Claro que acho isso errado. A vida é de cada um e todos sabemos que as mulheres gostam tanto de sexo como nós."

Este jovem, praticante de boxe, considera que as grandes diferenças de pensamento estão mais nos grupos sociais do que entre rapazes e raparigas. "As ocupações e hobbies são os mesmos. Vamos juntos beber cervejas e até à bola vamos com elas.' Há uma cabeça feminina e masculina? Pedro identifica no entanto nuances entre géneros. 'Talvez elas sejam menos impulsivas, mais ponderadas, altruístas e com uma mente mais aberta. Entre os rapazes há ainda muita homofobia acéfala. Começa desde pequenino, se queres ofender chamas o outro de paneleiro, maricas, gay. Mas por outro lado, de acordo com estudos e artigos que tenho lido, há cada vez mais jovens que assumem ser bissexuais, diz-se que a maioria é. Eu não cheguei a essa conclusão sobre mim ainda do alto dos meus 21".

Pedro é tão vaidoso como a namorada

Mas orientações aparte, Pedro não esconde a sua metrossexualidade. É tão vaidoso como a sua namorada. 'Passo mais tempo frente ao espelho do que gostaria de admitir. Preocupo-me com as roupas que visto, com o cabelo, o aspecto do meu corpo, a pele. Mas quem não é vaidoso hoje? Hoje em dia a preocupação com a imagem é tão importante para raparigas como para rapazes. E a sociedade pressiona-nos e cobra-nos isso. Começa nas capas da MensHealth e vai até aos manequins das lojas".

"Passo mais tempo em frente ao espelho do que gostaria de admitir. Preocupo-me com o que visto, com o cabelo, o aspeto do meu corpo, a pele. Mas quem não é vaidoso? Hoje em dia a preocupação com a imagem é tão importante para raparigas como para rapazes. E a sociedade pressiona-nos e cobra-nos isso. Começa nas capas da 'MensHealth' e vai até aos manequins das lojas." Um homem não chora? "Claro que chora. Há dias vi o filme 'As Pontes de Madison County', com a Meryl Streep e o Clint Eastwood, e emocionei-me. A minha namorada tinha adormecido, mas tive azar, acordou mesmo na altura em que comecei a chorar."

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Ana Baião

Sara Peterson, de 19 anos, é outra rapariga entre rapazes. É com eles que gosta de sair para conversar, beber copos, ouvir música à beira-Tejo na discoteca Urban, e partilhar os desaires amorosos e outros segredos. "Eles são mais dinâmicos, menos dramáticos, mais à vontade. As raparigas da minha idade ainda têm pouca liberdade para sair e eu não tenho esse problema." Sara posa como menina rebelde, mas já se deixou da fase bad girl. "Antes, metia-me em brigas quando me provocavam, mas ganhei juízo. Estou mais calma. Menos maria-rapaz, mais mulher." O que Sara quer é tirar a melhor nota no curso de maquilhagem que está a fazer. "Agora todas as raparigas querem ter o look da Kim Kardashian, parecer-se com ela". E conta que na escola as raparigas que sofrem de bullying são as mais gordas, as mais feias ou masculinas. Os rapazes ridicularizados são os mais fracos ou menos masculinos.

Nada de novo. "Não sou de preconceitos, nem olho agora o mundo assim. Para mim há as raparigas chatas e intriguistas e as outras, que são as minhas amigas". Sobre o futuro, também ela diz que os projetos familiares e profissionais são unissexo. "Nem os rapazes e raparigas falam de casamento e filhos. Queremos é ganhar dinheiro e ser independentes."

Gozar para não ser gozado

A socióloga Maria do Mar Pereira, autora do livro "Fazendo Género no Recreio: A Negociação do Género em Espaço Escolar", não se espanta com as afirmações de Sara. No seu estudo concluiu que a escola ainda está longe de ser o país das maravilhas para a igualdade entre elas e eles. Na verdade, o recinto escolar parece ser um local onde se reforçam e perpetuam muitos dos estereótipos de género. Entre 2006 e 2007, a investigadora estudou uma turma do 8º ano para avaliar como rapazes e raparigas se viam entre si. O que os aproximava e distanciava. "Uma das realidades que observei em contexto escolar é que tanto eles como elas sentiam que tinham de gozar com os colegas diferentes ou mais fracos. Todos eles faziam um policiamento desses mesmos comportamentos de género. E quem não correspondesse à norma era violentamente penalizado pela força física, violência verbal ou pela ostracização".

E que norma é essa? A maioria dos rapazes e raparigas tem formas de estar inatas de género? Maria do Mar descarta por completo essa ideia. "É tudo uma construção social sobre o que deve ser um homem e uma mulher. Os rapazes são pressionados para lutar, andar à pancada, beber muito, fazer provas de coragem, para mostrarem que são machos. 'Atira-te deste muro, mostra que tens tomates'. As pessoas acham que eles fazem isso porque gostam - porque é coisa de menino - mas analisei a questão mais a fundo e todos admitiram que o faziam para se encaixarem na ideia do que lhes é incutido que é um homem a sério. Têm medo de serem chamados maricas.

No caso das raparigas são pressionadas para serem magras, bonitas e bem comportadas." E até... menos inteligentes. "Conheci várias raparigas que fingiam ser mais burras no recreio quando os rapazes estavam por perto. Porque reparavam que eles se sentiam intimidados com aquelas que se destacavam pela inteligência. Que as achavam menos atraentes." Mas o que se vê nem sempre é o que cada um sente. "Havia na turma um rapaz que tinha um boné com umas bolas cor de rosa de que gostava muito, mas nunca o trazia para não ser gozado, por ser considerado uma cor de menina. Havia outro que gostava de ouvir Shakira, mas não ousava incluir as músicas desta cantora no seu mp3 para não ser alvo de chacota." A investigadora diz mesmo que alguns deles fingiam que não estudavam para os testes, porque considera-se que as meninas é que são marronas. "É preciso ter claro que os estereótipos de género masculino e feminino têm um efeito extremamente nocivo nas crianças e nos jovens.

Tanto para a saúde física, nas provas de bravura, como para a saúde psicológica e emocional, porque lhes é passado que não devem mostrar emoções, chorar, procurar amparo. E os padrões rígidos de género limitam-lhes as oportunidades enquanto jovens e adultos." A socióloga não pinta tudo de negro. Considera que muitos preconceitos e estereótipos estão a atenuar-se, mas não é de opinião que haja uma diluição nos papéis de género. "Estou certa que se parar este debate e consciencialização, volta tudo atrás, o progresso para." Como tira-teimas do que se toma como inato para eles e para elas, refere um estudo replicado várias vezes pelos investigadores Margareth Harris e George Butterworth, em vários países, que demonstra que as pessoas interagem com o mesmo bebé de forma diferente se estiver vestido de cor de rosa ou de azul. "Quando o bebé estava de azul era realçada a sua força, agitava-se a criança de forma enérgica, falavam mais alto, dizia-se 'és muito forte', 'vais ser jogador de futebol'. Mas quando o mesmo bebé estava de cor de rosa, os adultos mudavam completamente a atitude. Falavam de forma doce, suave, olhos nos olhos, junto ao peito, elogiavam a beleza, repetiam 'és muito linda, muito amorosa'. Este tipo de diferenciação de tratamento para rapazes e raparigas claro que os condiciona e faz com que se desenvolvam de forma diferente. Eles mais estimulados para atividades atléticas e elas mais preparadas para a comunicação e para terem um lado emocional mais desenvolvido."

Bonecas para eles e carrinhos para elas

O pediatra Mário Cordeiro partilha da mesma opinião. "Já passou o tempo em que elas brincavam com bonecas e eles com carrinhos. Não deixar um rapaz brincar com uma boneca é dizer-lhe que o pai não mima ou que ele, rapaz, não virá a dar biberões ou papas aos filhos; ou quando uma rapariga não pode brincar com carrinhos é dizer-lhe que a mãe não trabalha e que ela não virá jamais a tirar carta ou a poder jogar futebol." Quanto à abolição das cores de menina e de menino, Mário Cordeiro tem uma opinião diferente de Maria do Mar Pereira.

"Acho que não se deve ser fundamentalista porque são símbolos de que há algo diferente - e há física e psicologicamente - entre os dois sexos, e a identidade sexual faz-se de maneira radicalmente diferente, desde cerca dos dois anos, em que há um jogo de sedução entre as meninas e os pais, e entre os rapazes e as mães, e depois, mais tarde, surgem as 'princesices pirosas e cor de rosa' delas e as espadas de Sandokan e os 'vou-te matar' deles..." Apesar disto, o pediatra deixa claro que levar estas diferenças a humilhar ou achincalhar quem não queira seguir esse estereótipo é que é profundamente errado. "Um rapaz pode não gostar de futebol, e depois? Uma rapariga pode odiar ballet, está no direito dela! A própria ideia de 'maricas' ou 'maria-rapaz' é absurda, cientificamente errada e socialmente imbecil."

Mas se é claro que rapazes e raparigas portugueses controem futuros comuns e imaginam-se (quase) iguais a realidade estatística é menos moderna e democrática. De acordo com os recentes estudos do Epiteen por um lado as raparigas são mais escolarizadas do que os rapazes - entre os inquiridos 42,8% das raparigas já tinham concluído a licenciatura contra 30,3% dos rapazes. O dado mais curioso do estudo, apresentado o ano passado na Fundação Champalimaud, é que apesar das raparigas serem mais escolarizadas, enfrentam maiores barreiras no mercado de trabalho logo a partir dos 21 anos.

Vamos a números. Enquanto 16,7% dos rapazes do estudo trabalhavam a tempo inteiro, apenas 13,7% das raparigas conseguiam a mesma oportunidade. Por outro lado, 7,7% das raparigas trabalhavam a tempo parcial em comparação com os 5,4% dos rapazes. E não era por escolha. «Elas começam logo a ser discriminadas e a serem consideradas trabalhadoras menos valiosas e competentes pelo facto de poderem vir a ser mães, logo vistas como menis produtivas. Esta questão não se coloca nos homens", esclarece Anália Torres, socióloga e investigadora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa.

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Sebastião Varela é um puto cheio de pinta com 18 anos. Guitarrista da banda rock Eu Fúria e assistente de produção do novo filme do realizador João Pedro Rodrigues - "Ornitólogo" -, afirma que foi educado sem uma ideia fechada do que é ser homem. Por isso até aos 14 anos usou o cabelo comprido. "Eu queria andar assim e os meus pais não viam nada de mal, até diziam que me ficava bem." Sobre a sua geração afirma que é mais o que une rapazes e raparigas do que aquilo que os afasta. "Nem acho que haja um olhar exclusivamente masculino e um olhar exclusivamente feminino. A minha geração está a demarcar-se desses estereótipos. Não são só as mulheres que podem ver o mundo de uma maneira romântica, bela e sentimental. Esse pode ser também um domínio masculino. Depende de cada um. Eu quero muito formar família, ter filhos e casar. Não são só elas a ter esses desejos na minha idade."

Sebastião não esconde que, apesar de ser rocker, emociona-se sempre que ouve fado. Em particular o tema 'Medo', cantado por Amália, de quem é sobrinho-bisneto. "A maneira como a minha tia o canta, de forma tão sentida, a beleza do poema, mexe comigo. À medida que cresci percebi melhor o significado daquelas palavras. E emociono-me sempre."

Uma novidade que começa a surgir agora entre algumas minorias da nova geração é a recusa da identidade de género masculino e feminino, ou a afirmação de ambiguidade de género. São os jovens 'trans', 'género fluido' ou 'género queer'. Ou seja, rapazes e raparigas que se recusam a ser catalogados pelos genitais com que nasceram ou que não se identificam em parte ou por completo com esse género. O caso mais mediático que reclama ser do 'género fluido' - entre o masculino e o feminino - é a cantora pop americana Miley Cyrus, que durante anos foi a referência de muitas meninas como a adorável personagem "Hannah Montana", da Disney Channel. Numa entrevista à revista "Out" assume que desde cedo teve dificuldade em sentir-se parte da caixa atribuída ao género feminino. Ao contrário, sentia-se sem género definido. "Eu, de certa forma, queria ser nada. Não me identifico com o que as pessoas definem como rapaz e rapariga. Não odeio ser rapariga, mas odeio a caixa de género onde me querem colocar". E também sexualmente se assume "fluida", afirmando que tanto se pode interessar sexualmente por rapazes como por raparigas.

"Não sou homem, nem mulher. O meu nome é Alice"

Alice Cunha, de 19 anos, tem um visual andrógino, exuberante e assume-se socialmente como trans e gender queer. Nasceu com genitais de rapaz, mas não se identifica com o género masculino. Há três anos adotou o nome de Alice e pede para ser tratada no feminino. "Não sou homem nem mulher. Sou gender queer, que é uma categoria alternativa de género." Na forma como se veste mistura conceitos de ambos os géneros. Por vezes tem barba cerrada, noutras maquilha-se com base e batom carregado, pinta as unhas, usa anéis e brincos e revela os ombros peludos em grandes decotes. Mas sublinha que não o faz por fetiche ou performance. "Esta é a minha identidade, a forma como me sinto como pessoa. Não estou no corpo errado, nem estou presa no meu corpo. Estou, sim presa nas expectativas que a sociedade tem sobre mim e sobre o meu corpo." Esta estudante de artes do espetáculo da Faculdade de Letras de Lisboa, e ativista do coletivo Panteras Cor de Rosa, "frente de combate à lesbigaytransfobia", conta que vive numa espécie de bolha social.

"Os meus amigos aceitam-me como sou. Mas claro que todos os dias sou apontada na rua. E ouço recorrentemente o comentário 'Mas o que é que é isto? É um homem ou uma mulher?' Sair da norma binária de género desta sociedade é severamente criticado e notado, mas não abdico de ser quem sou." Está consciente de que o seu caminho profissional será bem mais sinuoso do que o da maioria dos jovens. "A possibilidade de arranjar emprego enquanto 'trans' é sempre diminuta, porque o meu nome não consta no Cartão de Cidadão. E quando constar ainda vão achar que há algo de errado na minha imagem para que me possa chamar Alice. Ainda tenho muito que lutar para conquistar o meu lugar."

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Um novo paradigma

A investigadora Sandra Saleiro do ISCTE, autora da Tese de Doutoramento "Transgéneros: Uma abordagem sociológica da diversidade de género", considera que a visibilidade 'trans' entre os jovens, através de movimentos associativos, está a mudar um paradigma e as estruturas de entendimento de género. "E se há pessoas transexuais que se identificam com o género oposto ao que lhes foi atribuído à nascença, por outro lado existem pessoas que assumem não se identificar nem com um género ou com o outro. E algumas em certos momentos identificam-se com um género e noutros momentos com o outro. Ou seja, estas pessoas provam que ao contrário do que aprendemos e achávamos, género não é indissociável do sexo definido biologicamente."

Em Portugal, desde 2013 a transexualidade já não é considerada um transtorno da identidade de género no manual DSM (Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais), considerada a bíblia psiquiátrica, tendo mudado para 'disforia de género', colocando-se agora a tónica na angústia e desconforto que uma pessoa sente pela não adequação ao género que lhe foi atribuído à nascença. Para Sandra Saleiro ainda falta dar um passo. 'Acho necessário a retirada total da diversidade de género do diagnóstico das doenças mentais. Porque estes modos minoritários de identificação e expressão de género não são casos clínicos. E aponto como exemplo a Argentina, Malta, Irlanda e Dinamarca, como países em que cada cidadão pode autodeterminar a que género pertence, sem precisar de um aval médico".

Na mesma linha de pensamento está a socióloga Sofia Aboim, coordenadora de um projeto europeu sobre transgéneros na Europa. "Estamos demasiado habituados a ver o mundo com dois géneros, mas há muito mais diversidade e temos de a aceitar e as leis têm de acompanhar isso. Sociologicamente é enriquecedor. E socialmente interpelador. Obriga a uma reflexão profunda do que é uma pessoa e o seu género". Recorde-se que esta temática já foi incluída no programa político de Hillary Clinton. E Obama viu-se obrigado a referir-se publicamente a Caitlyn Jenner, a ex-atleta transexual norte-americana. Por cá, Júlia Mendes Pereira tornou-se este ano a primeira mulher transexual a candidatar-se à Assembleia da República, através do Bloco de Esquerda, pelo distrito de Setúbal.

"Este rompimento com o binarismo de género levanta questões muito interessantes. O que se fará com os símbolos das casas de banho? E quando forem presos ou presas? Como se fará com o IRS? É toda uma série de buracos legislativos quanto a esta diversidade de género que têm de ser reformulados".
Isso não será perturbador para a sociedade? "O direito ao voto das mulheres também foi perturbador no passado, ou a abolição da escravatura. O que é interessante é esta busca pela autenticidade que vem no pacote da modernidade e a desconstrução dos rótulos opressivos de género." Uma coisa é certa, esta questão veio para ficar.

Texto publicado na edição da revista E do Expresso de 17/10/2015