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“O dinheiro apareceu para nos tentar calar”

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Entrevista a Ana Mafalda Pernão, diretora da Escola de Música do Conservatório Nacional

Esta semana, o Conservatório de Lisboa tornou pública a dificuldade em pagar despesas como água, luz, telefone ou papel higiénico. A razão é o corte de 43% num orçamento que em 2014 rondou os €160 mil e que em 2015 desceu para €90 mil. Desde maio que a instituição tem alertado o Ministério de Educação e Ciência (MEC) da urgência de um reforço, sem sucesso. Porém, mal a imprensa se debruçou sobre o assunto, o dinheiro apareceu: foram garantidos mais €35 mil. Ana Mafalda Pernão tem sido o rosto da escola neste processo. E tem duas palavras para o descrever: “É desesperante.”

Os €35 mil agora viabilizados pelo MEC resolvem os problemas da escola?
Não. Permite-nos algum desafogo nos pagamentos a fazer até ao final do ano, seja de água, luz e telefone, seja de serviços necessários à escola, como a manutenção dos instrumentos. Para todas essas despesas, a nossa previsão era de €50 mil. Os €35 mil não cobrem tudo, mas possibilitam não estarmos tão aflitos.

Como interpreta o reforço?
Interpreto de maneira muito clara o facto de andarmos desde maio a avisar que o dinheiro não iria chegar e em dois dias a situação ter sido atendida, depois de ser tornada pública. Para tal terá contribuído a carta que publiquei na página oficial da escola, onde se pede a contribuição dos pais para fazer frente aos compromissos até ao final do ano. O assunto saltou para a imprensa e em dois dias a coisa resolveu-se. Diria que o dinheiro apareceu para nos tentar calar.

Como se explica o corte no orçamento?
Não tem explicação. Isto não aconteceu com nenhuma escola pública, seja ou não do ensino artístico. Posso eventualmente pensar que, tendo custeado as obras paliativas que este ano foram realizadas no edifício, no valor de €43.500, a tutela achou que já tinha dado dinheiro suficiente para a manutenção e que não era preciso dar mais.

Das rubricas que compõem o orçamento, a da manutenção foi a mais afetada. Estamos a falar de que montantes?
De €60 mil recebidos em anos anteriores contra €4 mil atribuídos este ano. É uma das áreas que comporta maior despesa, tanto no que respeita ao edifício como ao equipamento que utilizamos. Só a manutenção dos 67 pianos custa €25 mil anuais.

O MEC justificou o corte?
Não houve justificação. Apenas foi dito que o orçamento deste ano não era inferior ao do anterior. É verdade que em 2014 nos atribuíram à volta de €100 mil, mas a verba foi imediatamente reforçada, chegando aos €162 mil. Se esta quantia preenche as necessidades da escola, não é possível sobreviver com metade.

Feitas as tais obras urgentes, que problemas a escola enfrenta ainda?
Este é um edifício com muitos anos e várias intervenções. A última obra de fundo data de 1946. O problema mais premente é o telhado, que é enorme e difícil de manter. Vão sendo feitos remendos, como é o caso destas últimas obras. Infelizmente, devido às chuvas dos últimos dias, hoje fui alertada para mais uma situação de água a entrar numa sala.

Em agosto, Nuno Crato prometeu avançar com a requalificação total do edifício, avaliada em €7 milhões, mas fez depender isso de um acordo entre a Escola de Música e a Escola de Dança. Esse acordo já aconteceu?
Sim, foi fechado em outubro e entregue ao ainda ministro Nuno Crato, que disse que deixaria a verba garantida antes de sair. A Escola de Dança ocupa 25% do nosso edifício e a sua permanência deixou-nos sem espaço para um auditório. Qualquer escola secundária tem um.

Que tem a dizer sobre o rol de dificuldades que há anos rodeia o nome do mais antigo conservatório do país?
Posso dizer que isto é muito cansativo. Todos os anos pensamos que teremos um ano mais calmo, centrado só na parte pedagógica, mas isso nunca acontece. É desesperante. De uma perspetiva global, verificamos que o Estado português quer libertar-se cada vez mais das suas responsabilidades. Tenho até medo de dizer isto, mas a ideia subjacente pode ser a de que o ensino artístico não é para o Estado financiar.

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