Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Anita Costa: “Importa-me ter influência online, mas isso não me define como pessoa e como mulher”

  • 333

Anita Costa foi atriz e agora divide o seu tempo entre o blogue, as aulas de direito e os trabalhos como modelo

Anita Costa e Vanessa Martins, que participaram na série Morangos com Acúçar e são agora bloguers, comentam o caso de Essena O'Neill, a jovem australiana que decidiu mudar a sua conta no Instagram, onde era seguida por milhares de pessoas, e editar os comentários das fotografias que partilhou para mostrar que elas não representam a vida real

Helena Bento

Jornalista

O caso de Essena O'Neill, a jovem australiana de 19 anos que decidiu mudar a sua conta no Instagram e editar os comentários das fotografias que partilhou para mostrar que elas não representam a vida real, continua a fazer correr muita tinta. Há outras raparigas a seguir o seu exemplo e a partilhar fotografias que, não fosse o gesto de Essena tê-las inspirado, nunca teriam coragem de partilhar. Fotografias em que aparecem sem maquilhagem ou simulando situações e estados de espírito. Fotografias em que se apresentam sem filtros e sem complexos.

Essena O'Neill era seguida por centenas de milhares de pessoas e isso traduzia-se, ao final do mês, em algumas centenas de dólares. Tinha contratos com agências de modelos, designers e empresas de publicidade. Mas depois tudo ruiu. Percebeu que já não conseguia viver sem as redes sociais (tinham-se tornado uma "obsessão") e que vivia consumida com o facto de ter de parecer bonita e feliz e perfeita a toda a hora. Na altura em que anunciou a sua decisão disse que as redes sociais "não são reais", mas sim "um artifício, com imagens forjadas e vídeos editados que se medem uns aos outros" (numa das fotografias chegou a escrever que não tinha comido durante todo o dia para que o seu "estômago parecesse bonito"), e que se trata de "um sistema baseado na aprovação social, gostos, validação em visualizações e sucesso em seguidores". Em suma, um "julgamento orquestrado", descreveu a jovem australiana.

"Não sinto que esteja a defraudar ninguém, nem a mim própria"

Anita Costa, que já foi atriz (participou na série Morangos com Açúcar) e divide agora o seu tempo entre o blogue, o curso de Direito e alguns trabalhos como modelo, diz que este ponto de vista não é novo para si, que também ela já se confrontou com afirmações como as da jovem australiana. Há quatro anos, quando ainda tinha conta no Facebook, viu-se envolvida em situações pouco confortáveis. Admite que se expôs "demasiado" e que as "críticas foram duras". Por isso, optou por criar um blogue e dedicar-se "de forma mais ativa ao Instagram", onde é seguida por quase 70 mil pessoas. "Acho que é uma inocência procurar auto-estima nas redes sociais. Vamos receber tanto de bom como de mau, e quanto mais nos expomos, mais criticados somos". Anita diz que criou o blogue e a conta no Instagram só depois de se "sentir preparada para lidar com as críticas", mas decorridos alguns anos há uma pergunta que não lhe sai da cabeça. "Mas será que alguma vez estamos preparados?"

Instagram

Anita acredita que as "redes sociais são apenas uma pequena frecha para as nossas vidas", que "não são a vida real nem a representam na sua plenitude". "No que me diz respeito, posso dizer que partilho uma pequeníssima parte de mim e não sinto que esteja a defraudar ninguém nem a mim própria. Talvez mostre, de facto, uma melhor versão de mim. Mas isso está errado?", questiona.

E diz que se não publica fotografias suas "vestida de pijama e fechada em casa a estudar durante dois meses" é porque isso não é "interessante nem inspirador". Na sua opinião, é precisamente para isso que o Instagram serve. Para "inspirar" e receber "inspiração" em troca.

Vanessa Martins, que também participou na série televisiva Morangos com Açúcar e atualmente é "digital influencer" (ou bloguer), como se identifica no seu Instagram, onde é seguida por mais de 150 mil pessoas, diz que é preciso, antes de mais, distinguir entre as diferentes redes sociais, e que se há aquelas que servem mais para "falar e expressar a opinião", como o Facebook, outras há que "vivem mais da imagem", como o Instagram. Acha que tanto num caso como noutro há sempre a possibilidade de "controlar o que se quer dizer e mostrar" e admite que muitas vezes aquilo que se mostra não corresponde à realidade. "Por norma, nas redes sociais mostra-se aquilo que queremos que as pessoas vejam ou a vida que queremos que as pessoas julguem que temos", diz.

Instagram

Uma das revelações que Essena O'Neill fez foi que se tinha apercebido, "assim como a maioria dos jovens, que tinha ficado viciadas nas redes sociais". Apesar de a dependência da Internet estar mais associada a jovens que passam horas e horas em frente a um ecrã a jogar, negligenciando tarefas básicas como comer e dormir, também a dependência das redes sociais é considerada um problema, apesar de em menor escala e de ser mais difícil detetar, explica o psiquiatria João Reis, que integrou o Núcleo de Utilização Problemática da Internet (NUPI) no Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

Apesar disso, o médico garante que o problema só é patológico se constituir "uma fonte de sofrimento para o próprio ou para terceiros". Avaliando por alto o caso de Essena O'Neill, tanto quanto as circunstâncias lho permitem, diz que parece ter havido uma "certa desilusão" que começou "com um elevado nível de envolvimento", mas que quando assim é "não há elementos suficientes que permitam afirmar que haja patologia".

Daniel Sampaio, psiquiatra e terapeuta familiar, diz que a dependência da Internet é um problema "muito importante nos nossos dias" e que é necessária "mais reflexão e, sobretudo, investigação". Sobre os riscos, diz que são sempre maiores "nas pessoas que já revelaram outro tipo de dependências". Já João Reis diz que "pode haver pessoas que tenham um maior propensão para esta dependência" - pessoas que tenham dificuldades em expor-se socialmente e pessoas que estejam a atravessar períodos de "maior ansiedade e tristeza" e que recorrem à Internet como forma de "estímulo" e "gratificação".


"A vida social virtual não pode mover a nossa vida real"

Vanessa Martins diz que as redes sociais "mudaram a nossa forma de socializar em pouco tempo" e que isso "não tem de ser necessariamente mau". Olha para a situação da jovem australiana como um "caso extremo" e acha que "a vida social virtual não pode mover a nossa vida real". Diz que gosta de navegar nas redes sociais quando está sozinha ("é quase como um momento para mim e de me pôr a par de tudo") e "para passar o tempo, enquanto espera ou faz uma pausa". Também as usa para fins profissionais, para comunicar algum trabalho ou produto novo, explica

Sabe-lhe bem estar um dia sem ir ao Facebook ou ao Instagram. "Não tenho qualquer obrigação, uso de forma saudável, publico fotos quando acho que devo publicar e interajo quando penso que tenho de o fazer, mas não passo mal se não lá for. É tudo equilibrado", garante. Na sua opinião, um dos maiores perigos das redes sociais pode ser precisamente a "falta de noção de que é preciso também desligar".

"Seria hipócrita dizer que o número de likes não me importa"

Na sua mensagem polémica ao mundo Essena O'Neill revelou que se tinha deixado asfixiar pela necessidade de ser aprovada pelos outros. “Tornei-me numa máquina que dava aos outros o que queriam de mim, sem saber ou valorizando que eu era. Estava perdida em expectativas, pressões e desejo de ser aceite", disse.

Anita Costa reconhece o peso destas palavras e admite que "seria hipócrita se dissesse que o número de likes ou o número de seguidores não importa - importa no que diz respeito ao meu blog e ao trabalho que posso vir a ter por causa disso". "Importa-me ter influência online, mas isso não me define nem me valoriza como pessoa e como mulher", diz. Relativamente à manipulação de imagens, que foi também posta em causa, diz que é importante "haver limites, que não há nada de bonito em parecer um boneco", mas que também não vê "nada de errado em conhecermos o nosso melhor ângulo ou editar fotografias".

Tanto ela como Vanessa acreditam que a maior vantagem da Internet é mesmo "permitir a aproximação entre as pessoas e entre gerações". "Tenho várias amigas que emigraram e através das redes sociais sinto-me próximas delas e sei quase tudo o que fazem. E a minha mãe, por exemplo, adora ir ao Instagram", conta Vanessa.

Apesar de achar que o Instagram só lhe trouxe "coisas boas", "provavelmente porque apareceu na altura certa", Anita reconhece que também há perigos, como "o de nos compararmos com outras pessoas, muito mais bonitas e muito mais ricas do que nós, e com vidas muito mais interessantes".