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“Já sei dizer obrigado em português. Já vos posso agradecer”

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Fotomontagem Tiago Pereira Santos

Fouad Ahmed, 44 anos, gestor financeiro, é um dos refugiados que chega hoje a Portugal depois de nove meses de espera no Egito. Traz consigo a mulher, três filhos e o desejo de reconstruir a vida que a guerra lhe roubou. O Expresso falou com ele esta semana, por telefone, com o som caótico do Cairo a servir de banda sonora à conversa em inglês

Hoje, por volta das 13h, Fouad Ahmed aterra em Portugal. Ele, a mulher e os três filhos menores. E mais 17 refugiados sírios, eritreus e sudaneses que esperaram nove meses no Egito pela reinstalação em Portugal. Deviam ser 45 mas a greve de pessoal de cabine da companhia aérea Lufhtansa obrigou ao cancelamento do voo que trazia os restantes 23. Ao todo chegarão a Portugal oito famílias, 30 adultos e 15 menores, que irão viver em Lisboa, Sintra e Penela.

Fouad, 44 anos, é de Alepo, a segunda maior cidade da Síria, agora um monte de escombros disputado por todas as fações que alimentam a guerra desde 2011. Ele fugiu um ano depois, ele que era gestor financeiro de um moderno Shopping Center, que vivia na melhor zona da cidade. O currículo que ainda permanece na Internet retrata um homem sério, de bigode fino e cabelo domado a brilhantina, e 15 anos de experiência no mundo financeiro. A última referência é de 2012, o ano em que aterrou no Egito, em que se refugiou no Grande Cairo, uma espécie de campo de refugiados disperso pela malha urbana degradada. O ACNUR concedeu-lhes o estatuto de refugiados e a reinstalação num país europeu. A Organização Internacional para as Migrações OIM desvendou-lhes o destino: Portugal.

Em inglês, ao telefone, Fouad contou esta semana ao Expresso a história que o traz até cá. Em barulho de fundo ouve-se o som do trânsito caótico do Cairo. Já ficou para trás.

Disseram-me que Portugal era um país bom para o turismo, como a Síria. Que as pessoas são simpáticas e acolhedoras, como na Síria. Na minha cabeça acredito que será como a Síria.

Na apresentação que fizeram de Portugal aqui no Cairo asseguraram-me que não havia problema nenhum em eu ser muçulmano, que aí respeitam-se as religiões, que somos livres de ter qualquer religião. Nós ficámos muito felizes com isso. Antes, de Portugal, só conhecia o futebol, o Cristiano, e que os ingleses passam sempre o verão no vosso país.

É bom saber que podemos viver aí em paz. Somos pessoas muito pacíficas. O que nos aconteceu não foi culpa nossa, estava fora do nosso controlo. A situação na Síria estava e está terrível, terrível. Foi por isso que tivemos de sair de lá, de fugir.

Queremos ter um novo começo num novo país, vamos ser bons cidadãos para que nos aceitem como residentes no vosso país. Espero que sim, espero que sim. Disseram-me que ia para Lisboa, Vale do Tejo. Quero ter a minha família aí, criar os meus filhos num ambiente bom, melhor que aqui no Cairo, melhor do que na Síria em guerra.

Eu tenho uma mulher e três crianças, uma menina e dois rapazes. Em Alepo era gestor financeiro no Shahba Mall, um dos maiores centros comerciais da Síria. Tinha Zara, Carrefour, karting indoor. Foi bombardeado. Agora é só ruínas. Eu sou muito bom em contas, finanças e inglês técnico. Antes trabalhei na Arábia Saudita e no Kuwait. Tinha uma boa vida. Vivia na melhor zona de Alepo. Era tudo bom.

A 9 de dezembro de 2012 fugimos. Os combates e os bombardeamentos já estavam cada vez mais perto da nossa casa. Só quem estava lá é que pode perceber. O som das bombas era aterrador, aterrador. E depois começaram rumores de que os terroristas iam entrar na nossa casa. Apanhámos um voo para o Cairo, todos juntos.

Aqui a vida não é fácil. Há maldade. Não somos bem vindos. Os refugiados não têm uma boa vida aqui, é a verdade.Trabalhei numa pequena empresa de táxis. Pagavam muito pouco. Quando me disseram que ia para Portugal fiquei contente. Nunca fui dos que sonhava com a Alemanha, eu não. Sei inglês, consigo trabalhar em qualquer lugar. Só queria um lugar seguro.

Quero voltar a ser um profissional respeitado e contribuir para a prosperidade do meu novo país. Voltar a trabalhar na minha área seria ótimo. Veremos. Disseram-me que alguém nos ajudaria a tentar arranjar um emprego. Veremos. Quem sabe se não existem vagas em empresas internacionais que trabalhem em importação e exportação, em comércio, talvez uma vaga no departamento financeiro. Veremos.

Disseram-me que nos vão ensinar português. Já me estou a preparar. Fiz o download do dicionário Inglês-Português. “Obrigado” significa “thank you”, não é? Já sei dizer. Assim já vos posso agradecer.

A minha família continua lá, em Alepo. Três irmãos, duas irmãs, todos os meus primos. Só eu consegui fugir. Agora as estradas estão cortadas. Não conseguem sequer arranjar comida. Não há eletricidade.

Gostava de voltar um dia para a Síria mas acho que não vou voltar. Está tudo em ruínas, tudo destruído. Agora quero ficar em Portugal, por muito muito tempo”.