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Como (falar de) coisas que não existem

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FUTURO. O astrofísico e prémio Nobel da Física John C. Mather esteve ontem no Porto na abertura do Fórum do Futuro, cujo tema é a Felicidade

RUI DUARTE SILVA

O tempo não é resgatável. O tempo não é reversível. O futuro é uma equação indemonstrável. Só pode, assim, ser aliciante o Fórum de discussão imaginado por Paulo Cunha e Silva, vereador da cultura da Câmara Municipal do Porto, para colocar a cidade no circuito dos grandes debates neste momento travadas a nível mundial por grandes pensadores de áreas muito diversas

Gosto muito do futuro. Não do futuro visto a partir de uma perspetiva ontológica, isto é, a cair no domínio da metafísica, mas do futuro como abstração na qual tentamos enquadrar as realidades sonhadas no presente como enunciadoras do vindouro. É um exercício ao qual a humanidade se tem dedicado com paixão desde o mais remoto dos tempos. Pode ser por desgosto ou inconformismo face ao presente vivido. Pode ser em resultado de uma vontade irreprimível de equacionar hoje as possibilidades do amanhã. Pode ser por tudo e pelo seu contrário. No final, prevalece sempre o desejo de refletir, de pensar, de equacionar as formas do novo e os caminhos da diferença.

Gosto muito do futuro, também porque o futuro nunca me desilude. Não pode. Não tem essa capacidade. Nem mesmo se acaso se confirmam os primeiros versos dos "Quatro Quartetos", de T.S. Eliot, um poema ao qual não me canso de regressar:

“Time present and time past
Are both perhaps present in time future
And time future contained in time past.
If all time is eternally present
All time is unredeemable”

(“O tempo presente e o tempo passado/ Estão ambos talvez presentes no tempo futuro/ E o tempo futuro contido no tempo passado. Se todo o tempo está eternamente presente/ Todo o tempo é irredimível”).

rui duarte silva

O tempo não é resgatável. O tempo não é reversível. O futuro é uma equação indemonstrável. Só pode, assim, ser aliciante o Fórum de discussão imaginado por Paulo Cunha e Silva, vereador da cultura da Câmara Municipal do Porto, para colocar a cidade no circuito dos grandes debates neste momento travadas a nível mundial por grandes pensadores de áreas muito diversas.

Nomeia-o como do Futuro e logo aí define todo um programa. Em cada ano escolhe um tema. Desta vez debate-se a felicidade. Não poderá estar mais errado quem julgue tratar-se de uma oportunidade redutível a conversas com um caráter vagamente esotérico, no que pode conter de misterioso e até hermético.

Veja-se a sessão de abertura, realizada ontem com a presença do astrofísico, cosmólogo e Prémio Nobel da Física John C. Mather e coloquemos uma questão bem central nas muitas reflexões à volta da evolução do Cosmos: estamos sós? É possível que entre milhões de galáxias, apenas na nossa, e dentro da nossa, apenas num único e exclusivo planeta, o nosso, haja vida? Não sabemos. Mas acreditamos poder encontrar respostas no futuro.

De novo, transportamos um desejo do presente para o tempo que há-de vir. John C. Mather equaciona também as possibilidades que poderão abrir-se com novos e potentes telescópios a instalar nos próximos anos. Com o conhecimento recolhido, com as realidades concretas de outras paragens perdidas no espaço, será o homem capaz de vir a desencadear vida num outro sistema?

rui duarte silva

De que forma passará a felicidade humana pela realização de projetos tão ambiciosos como a criação, no futuro, de inteligência artificial capaz de levar até outras galáxias, até outros sistemas solares, a imagem do que somos no nosso presente, só eventualmente visível num futuro que se diria infinitamente distante?

O futuro vai ter um final feliz? A questão é interessante do ponto de vista retórico, mas inútil do ponto de vista prático. A felicidade é apenas um estado de alma e o futuro não existe. O fim do futuro seria o fim do tempo. Logo, o futuro pode sempre antecipar uma ideia de felicidade por cada um visualizada conforme o grau de expectativas contidas no modo como gere o seu quotidiano no confronto com a realidade.

A verdade, e numa espécie de paródia ao título da exposição patente no Museu de Serralves criada a partir da Bienal de S. Paulo, é que não sabemos como falar das coisas que não existem. Mas tentamos.

Valdemar Cruz escreve no EXPRESSO DIÁRIO às quintas-feiras