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A vida de 22 refugiados cabe em nove carrinhos de aeroporto

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Pedro Nunes/ Lusa

Chegaram este sábado a Portugal cinco famílias da Síria e Sudão. Durante dez meses vão morar em Lisboa, Sintra e Penela

Já estão em Portugal os 22 refugiados sírios e sudaneses que aguardaram nove meses no Egito pela reinstalação em Portugal, sob mandado do ACNUR. Deviam ser 44 mas a greve de pessoal de cabine da companhia aérea Lufhtansa obrigou ao cancelamento do voo que trazia os restantes 23. Este sábado chegaram 13 adultos, sete crianças e dois bebés. Uma família síria ficou em Lisboa, a cargo do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS), outra deslocou-se para Sintra sob orientação do Conselho Português para os Refugiados (CPR) e a três restantes viajaram até Penela, onde serão integradas pela Fundação Assistência, Desenvolvimento e Formação Profissional (FADFP).

Fouad Ahmed, sírio, 44 anos, com quem o Expresso falou quando estava ainda no Cairo, foi o primeiro a sair da porta das chegadas do Aeroporto da Portela. A liderança fez-se notar ainda durante a viagem. Por ser o único que fala inglês ajudou a mediar conversas e dúvidas. A passagem do grupo pela gare aeroportuária foi rápida e silenciosa. Estava combinado que não haveria conversas com os jornalistas e a captação de imagens estava limitada a planos amplos.

Cinco famílias, os homens todos vestidos à ocidental, as mulheres de cabeça coberta – só uma a usar niqab, que lhe deixava apenas os olhos a descoberto -, todas de vestes longas, as sudanesas mais coloridas, as sírias mais discretas. Saltos altos a marcar a importância da ocasião, mas também ténis, mais adequados à viagem longa que os trouxe do Egito, com escala em Munique, na Alemanha. Nove carrinhos de aeroporto lotados foram suficientes para transportar a vida de cinco famílias.

No domingo poderão chegar os restantes 22, anunciou o diretor nacional do SEF, António Beça Pereira. No total, o grupo de 44 é composto por casais entre os 24 e os 40 anos com uma média de três filhos menores, a maior parte com menos de doze anos. Fugiram da Síria (26), Eritreia (nove) e Sudão (oito). A escolaridade média é de nove anos, embora existam casos sem escolaridade e outros com nível universitário. As profissões desempenhadas nos países de origem são variadas, desde canalizador, alfaiate, vendedor até contabilista ou técnico de físico-química. A maior das mulheres não trabalhavam.

Os refugiados beneficiam do estatuto de refugiado e terão direito a autorização de residência por um período de 5 anos, renovável. Os programas de acolhimento e de integração terão uma duração de dez meses após o que, em caso de insuficiência económica, continuarão a ser apoiados em condições idênticas às dos cidadãos nacionais.

  • “Já sei dizer obrigado em português. Já vos posso agradecer”

    Fouad Ahmed, 44 anos, gestor financeiro, é um dos refugiados que chega hoje a Portugal depois de nove meses de espera no Egito. Traz consigo a mulher, três filhos e o desejo de reconstruir a vida que a guerra lhe roubou. O Expresso falou com ele esta semana, por telefone, com o som caótico do Cairo a servir de banda sonora à conversa em inglês