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Sasha Grey no sofá com Julião Sarmento

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Rui Duarte Silva

Atriz saída do mundo do porno declara-se no Fórum do Futuro uma estudante da vida e o pintor revela-se fascinado com a criatividade de Marina

Sim, o Rivoli estava cheio. Sim, a procura de bilhetes foi muita. Não, Sasha, (ou Marina?) e Julião não foram para a cama um com o outro. Sentaram-se no sofá. Não, não passaram o tempo a falar de sexo. Até foram censurados por quase terem evitado o tema na conversa inicial. Sim, a sessão abriu com porno puro e duro. Não, não tinha imagens. Sim, Sasha começou por representar num excerto de um filme do pintor português. A atriz norte-americana assumia um papel. Mostrava o porno através do verbo. Ou seja, em resposta ao pedido de Julião, narrou o modo como viu uma cena de um daqueles filmes pornográficos série Z. Sim, era apenas um fragmento. Uma de quatro partes, com a mesma história a ser narrada tal como a viram outras três atrizes. Não, não foi só uma conversa de salão. Sim, era um salão - o grande auditório do Teatro Rivoli - onde decorria uma conversa apresentada como sendo sobre o prazer na arte. Sim, foi pena. Falaram pouco de prazer e nem por isso de arte.

Sim, foi criada uma grande expectativa à volta da sessão de quinta-feira à noite do Fórum do Futuro a decorrer no Porto. Sim, muitos dos presentes saíram de lá rendidos à personalidade de Sasha. Até teve direito a gritinhos no final. Sim, muitos outros saíram de lá com um título de uma peça de Shakespeare embrulhado na língua: “Muito barulho por nada”. Será um exagero, mas as caricaturas são assim mesmo, fazem-se de excessos.

Rui Duarte Silva

Ficamos a saber que Julião Sarmento conheceu e ficou encantado com Sasha há já uns anos, quando era júri do Festival de Cinema do Estoril, que por acaso até começa esta sexta-feira, e teve a oportunidade de visionar o primeiro filme extraporno com a convidada como atriz: "The Girlfriend Experience", de Steven Soderbergh, o mesmo de “Sexo Mentiras e Vídeo”. Depois disso acabaram por fazer um filme juntos, “Leporello”, este de que esta quinta-feira foi apresentado um excerto e têm mantido uma admiração mútua.

Sarmento revelou, por exemplo, ter ficado com inveja do website criado pela própria Sasha. Esta afirmou-se uma estudante da vida. Enredados numa entrevista convencional, os dois protagonistas da sessão deambularam, sem guião, por uma conversa, às vezes mole, às vezes cúmplice, sobre fotografia - outra das capacidades de Sasha reverenciada por Julião - música e as bandas a que Sasha tem pertencido, escrita, romances e o mais que a ocasião terá proporcionado, até porque têm em comum o gosto pelo prazer.

De repente acabou a conversa no palco e abriu-se o período de perguntas. Surgiram algumas bem interessantes e com uma especial capacidade de problematizar questões. Eventualmente poderiam surgir outras, mas a organização tem vindo a ser conivente com uma opção dos moderadores que se torna especialmente inibidora para muitos participantes, em particular quando o orador não fala português, o que acontece na maioria dos casos.

Rui Duarte Silva

A opção, com raras exceções, como a de Carlos Fiolhais com o Nobel da Física John C. Mather, tem sido a de, perante uma plateia no essencial constituída por portugueses e com moderadores portugueses, manter toda a sessão em inglês, mesmo no período das perguntas. Fiolhais foi sensível a esta questão e sugeriu que, ao passar a palavra para a plateia, fosse John C. Mather a recorrer aos auscultadores para utilizar os serviços de tradução existentes na sala. Assim, ouvia as perguntas em português e respondia em inglês.

Esta sexta-feira é o dia mais longo do Fórum do Futuro, com seis sessões. A partir das 14h30, no Rivoli, Ana Aguiar e Filipe Araújo apresentam “O Sensor da Felicidade”. Duas horas depois, ainda no Teatro municipal, o diretor e comissário-geral do Canadian Centre for Architecture coloca o debate nos seguintes termos: “Se a felicidade é a resposta, qual é a questão?”. Às 18h30 o tema é “Práticas artísticas em paisagens urbanas”, com Pierre Sauvageot. À mesma hora, na sala 2 da casa da Música, Paul Griffiths e Matt Peacock falam da “Música como caminho para a felicidade. Haverá um final feliz?”.

À noite, a partir das 21h30, de novo no Rivoli, estreia a “performance” “Untitled 2015 (tomorrow is in our tongue, as today pass from our lips)” , do artista argentino com origem tailandesa Rirkrit Tiravanija, com Kreëmart. A maratona termina a partir das 23h30 com “O copor e a temperatura da Felicidade - um ensaio termográfico”, com Afonso Pinhão Ferreira, Joaquim Gabriel Mendes e Miguel Pais Clemente, a que se junta uma performance de Ianina Khemlik.

No programa de sábado, o destaque para a conferência “A Religião, a Ciência e a Política: estratégias da Fé na busca da Felicidade” , com Alexandre Quintanilha, padre Anselmo Borges e Paulo Rangel, a partir das 14h30. Segue-se “Arquiteturas colaborativas”, com Santiago Cirugeda. Às 18h30 o tema é “Da Floresta Negra ao Oásis: a responsabilidade social no trajeto da felicidade”, com Phyllis Lambert e moderação de António Mexia e António Gomes de Pinho. À noite Gilles Lipovetsky fala dos “desafios da felicidade na sociedade de hiperconsumo”.

O final, sábado á noite, fica a cargo do designer Stefan Sagmeister. Com moderação de Guta Moura Guedes teremos “A conferência feliz”.

O programa completo pode ser consultado aqui.