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Catarina Furtado. “Eu gosto mesmo do ser humano”

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Catarina Furtado é presidente da “Corações com Coroa” (CCC), uma associação de apoio a raparigas e mulheres. Um projeto nascido da experiência, da necessidade e da amizade. Da amizade, acima de qualquer outra coisa. Esta segunda-feira, 9 de novembro, a CCC realiza uma conferência dedicada aos jovens

O que é que leva uma mulher bem sucedida, pessoal e profissionalmente, que dorme pouco e anda sempre a correr de um lado para o outro, a fundar uma associação de apoio a raparigas e mulheres? A vontade. De ajudar, de dar a mão, de abraçar novos desafios.

A "Corações com Coroa" nasce da pressão positiva de amigos, que viram (e veem) em Catarina Furtado a pessoa ideal para arrancar com um projeto destas dimensões. Os 15 anos como embaixadora da Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) apresentam-lhe um mundo ainda muito desigual e "por causa dessas imagens e dessas vivências, as pessoas acabaram por me incentivar a constituir uma associação sem fins lucrativos, que hoje em dia já é uma ONG, para trabalhar com as temáticas com que tenho trabalhado na UNFPA, adaptadas à nossa realidade, mas também com projetos além-fronteiras, sobretudo em países de expressão portuguesa".

Um passo com estas dimensões só é possível se for dado em conjunto com pessoas de confiança, que partilhem os mesmos valores e os mesmos ideais. Foi o caso. Para atuarem como cofundadoras da associação, Catarina juntou-se a duas grandes amigas, porque achou que isso era absolutamente vital. "É um trabalho voluntário e tinha que ter a meu lado pessoas de enorme confiança. Foi há três anos e, confesso, parece que foi ontem, mas ao mesmo tempo dá-me a sensação que os nossos passos têm sido seguros e têm sobretudo aquilo que mais queria: uma transparência total".

É com base em valores transparentes e rigorosos, aprendidos em casa e na vida profissional, que Catarina Furtado tem ajudado muitas raparigas e mulheres que procuram na "Corações com Coroa" um apoio. Jovens raparigas que não têm hipótese de continuar a estudar, mulheres que são maltratadas e vítimas de uma sociedade que, ainda hoje, tende a não as valorizar. E isso, diz, "é uma inquietação que vem antiga, fruto da minha educação". Será nesse ponto que um país desenvolvido como Portugal, toca um em desenvolvimento?

"O não querer saber é altamente confortável"

Diz-se que a sabedoria não ocupa lugar. Diz-se, também, que a verdade incomoda e incomoda muito mais do que a mentira. Catarina Furtado tem uma certa "intolerância contra as pessoas que não querem saber, porque o não querer saber é altamente confortável. Cada vez que sabemos menos, ficamos mais longe de podermos ser atuantes, e participantes, e ativos. Acredito que aquilo que vemos e lemos, se nos tocar o coração e a consciência, pode funcionar como uma espécie de botão para que façamos a diferença".

Gerações anteriores fizeram a diferença na forma como lutaram pelos direitos, e deveres, que vigoram hoje em Portugal. Mas essa geração anterior tem agora de passar a mensagem às mais recentes e esse é um papel que Catarina Furtado, enquanto presidente da associação e figura pública, sabe que tem de assumir: partilhar a sua mensagem e, diz, "espalhar a notícia pelos mais novos", para que, um dia "sejam eles a notícia, porque fizeram a diferença".

Hoje em dia os jovens vivem numa espécie de 'cloud'. Na era das redes sociais, a informação é consumida ao segundo e medida em número de partilhas. Ler uma notícia é fazer um 'like'. Não se aprofunda e, diz Catarina, a "necessidade de ler a próxima notícia, o próximo post, é tão grande que eles não têm necessariamente culpa. Porque essa é a maneira como as coisas lhes são apresentadas. Como é que se contraria isto? É muito difícil", conclui.

"Achei que fazia sentido a associação ter tentáculos"

Esta segunda-feira, 9 de novembro, realiza-se a 4ª conferência "Corações com Coroa", no auditório do Museu do Oriente, em Lisboa, sob o tema "Juventude: a maior geração de sempre, a solução para o desenvolvimento glocal". Se o tema são os jovens, Catarina achou por bem associar uma cara bem conhecida dos mais novos: Sara Matos, atriz de 26 anos, com milhares de seguidores nas redes sociais.

"Se conseguirmos que os jovens se identifiquem com o que a Sara tem para dizer, pode ser que nas cabeças deles haja um clique, e nas suas áreas de atuação, seja na escola, na universidade ou até no trabalho, consigam mudar alguma coisa. Portanto, achei que fazia sentido começar a ter uns tentáculos e mergulhei a Sara nestas temáticas. Mas vai ter que saber muito, porque eu não acredito em papagaios", avisa.

Na sede da associação está disponível, gratuitamente, uma psicóloga que atende jovens raparigas e mulheres. Se as segundas até aparecem com alguma regularidade, as primeiras têm algum receio de falar sobre o que as preocupa. "Nesse sentido, a Sara pode ser um bom 'isco', ser alguém que mostre que apesar de ter sido uma privilegiada, por ter tido oportunidade de estudar, se preocupa e tem uma posição interventiva e cívica".

A paixão e o acreditar que se pode fazer a diferença é o que move Catarina Furtado. A "Corações com Coroa" foi e é feita de etapas, de projetos e de um dia a dia sempre de olhos postos no que se pode fazer para melhorar a vida de outros. Quando se vive assim, "dorme-se pouco, muito pouco, mas muito melhor à noite. E vale muito a pena, porque eu gosto mesmo do ser humano".

Esta segunda-feira, 9 de novembro, no Museu do Oriente, a partir das 15h, segue mais uma etapa CCC... de coração aberto para o mundo.