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Afinal, Pablo Neruda pode mesmo ter morrido às mãos de Pinochet

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A tese de que Neruda não terá morrido por causas naturais, como consta do seu certificado de óbito, volta a estar em cima da mesa

STF

Quarenta e dois anos depois de o Nobel da Literatura ter falecido, um documento do Programa de Direitos Humanos chileno faz novas revelações e reacende o debate. Conclusões definitivas só em março do próximo ano

Era uma suspeita que ganha agora força: o poeta chileno Pablo Neruda pode não ter morrido de cancro mas às mãos do regime do General Augusto Pinochet. A hipótese volta a ser posta em cima da mesa, depois de esta quinta-feira o Governo do Chile ter reconhecido em comunicado que, afinal, os registos oficiais que dão conta da morte natural do Nobel da Literatura podem não corresponder à realidade.

O comunicado foi motivado pela publicação do documento do Programa de Direitos Humanos do Ministério do Interior chileno, que revela, pela primeira vez desde a morte do poeta, a 23 de setembro de 1973, que “é claramente possível e altamente provável a intervenção de terceiros na morte de Pablo Neruda”.

O texto, revelado pelo diário espanhol “El País” e referido na nova biografia de Neruda, conta que a certidão de óbito foi feita pelo médico do poeta a partir de uma chamada telefónica, sem que o clínico se deslocasse pessoalmente à Clínica de Santa Maria, onde Neruda, doente com cancro da próstata, se encontrava.

É esta informação que explica que o documento não registasse “um calmante injetado ao poeta que viria a provocar a paragem cardíaca que motivou a sua morte”. O relatório agora revelado acrescenta que “o estado de saúde de D. Pablo Neruda piorou rapidamente depois dessa injeção, e a morte acabou por acontecer 6h30 depois da mesma”.

O Programa de Direitos Humanos do Ministério do Interior chileno já confirmou que o documento revelado pelo diário espanhol “faz efetivamente parte de um escrito enviado ao juiz Mario Carroza, responsável pela investigação” que procura respostas sobre a morte de Neruda. Envolvido na mesma investigação está um dos sobrinhos do poeta, Rodolfo Reyes, que à rádio chilena Bío-Bío declarou que a resposta a todas as dúvidas está para breve, uma vez que “prevalece a tese que sempre defendemos e esta revelação comprova que o certificado de óbito de Neruda do ano 1973 é praticamente falso”.

Poeta planeava exilar-se no estrangeiro

O resultado das análises de peritos chilenos e de outros países vai ser conhecido em março de 2016. Certo é que em maio do ano passado, o comité científico presente na investigação comunicou ao juiz Carroza a presença de uma bactéria altamente tóxica no corpo exumado de Pablo Neruda.

Neruda era amigo próximo do Presidente marxista Salvador Allende e um político e diplomata de esquerda (senador, pré-candidato presidencial, embaixador em França e membro do Comité Central do Partido Comunista são algumas das posições que ocupou). O poeta planeou exilar-se no estrangeiro com a ascensão de Pinochet, mas depois do golpe de Estado conduzido pelo general, que resultou no suicídio de Allende, a sua morte tardou apenas 12 dias em chegar.

Pelas palavras do Nobel, “saudade é sentir que existe o que não existe mais...”. Nem toda a gente concordará que esta definição seja verdadeira, uma vez que a poesia de Neruda continua a sobreviver ao poeta.