Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Surto de legionela foi há um ano mas ainda não há culpados

Foi numa das torres de refrigeração da empresa Adubos de Portugal, em Alverca, que teve origem o surto de legionela de 2014

Marcos Borga

A 7 de Novembro de 2014, um surto de legionela afetou o concelho de Vila Franca de Xira, matando 12 pessoas e infetando 375. Um ano decorrido, as vítimas ainda aguardam que se faça justiça

Um ano depois de um surto de legionela ter afetado o concelho de Vila Franca de Xira, as vítimas, que viram a sua vida mudar totalmente, continuam a aguardar que a Justiça descubra os responsáveis.

De acordo com o relatório final do surto de legionela, a doença, registada em novembro do ano passado, no concelho de Vila Franca de Xira, com maior incidência nas freguesias de Vialonga e da Póvoa de Santa Iria/Forte da Casa, causou 12 mortos e infetou 375 pessoas.

Quase um ano depois, ainda decorre um inquérito no Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) da Comarca de Lisboa Norte - Vila Franca de Xira. Numa resposta enviada à agência Lusa, fonte do Ministério Público (MP) adianta que "os trabalhos já se encontram numa fase avançada" e que ali deram entrada 211 queixas de lesados diretos e de familiares das vítimas.

O surto de Vila Franca vai ser um dos temas em destaque no Congresso de Pneumologia, que decorre até esta sábado no Centro de Congressos Sana Epic, em Albufeira, no Algarve.

A demora na resolução deste caso está a preocupar algumas das vítimas deste surto, que aguardam "com bastante ansiedade" pelas conclusões do Ministério Público. "Sentimo-nos totalmente abandonados. A impressão que dá é que se estão a borrifar para nós. Vamos ver se a culpa não morre solteira, como de costume", afirma à Lusa Joaquim Perdigoto, uma das 375 vítimas da legionela.

Perdigoto, de 44 anos, é motorista de autocarros na Rodoviária de Lisboa e conta que a doença contraída há um ano lhe deixou sequelas: "De vez em quando tenho ataques de tosse que me obrigam a parar o autocarro. A minha resistência também nunca mais voltou a ser o que era", lamenta.

Em situação pior ficou Rosa Ribeiro, de 57 anos, que depois de ter apanhando legionela desenvolveu síndrome de Guillain-Barré (doença que ocorre quando o sistema imunológico do corpo ataca parte do próprio sistema nervoso, por engano) e teve, há uma semana, um acidente vascular cerebral (AVC) que lhe paralisou a parte direita da face.

"Não voltou a ser a mesma pessoa. Cansa-se a subir escadas, queima-se com frequência, até pegar numa moeda lhe custa", conta à Lusa José Ribeiro, marido de Rosa.

José Ribeiro refere que, na sequência destes problemas de saúde, a mulher, que trabalha num laboratório, teve, num espaço de um ano, de meter baixa pela terceira vez consecutiva. "Fomos das primeiras pessoas a apresentar queixa. Fizemo-lo contra desconhecidos porque ainda não se sabe ao certo quem causou a legionela. Quero agradecer à Junta da Póvoa de Santa Iria, porque têm sido incansáveis connosco", afirma.

A demora na conclusão do inquérito sobre o surto de legionela está a motivar também o descontentamento do presidente da União de Freguesias da Póvoa de Santa Iria e Forte da Casa, duas das localidades que sofreram mais com a bactéria.

"Na altura, vieram dizer que era um crime gravíssimo e passado um ano ainda não temos um culpado. Quero acreditar que as instituições estão a trabalhar. Tudo faremos para que não caia no esquecimento", sublinha o autarca Jorge Ribeiro.

No mesmo sentido, o presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Alberto Mesquita (PS), deixa também críticas à demora na conclusão do inquérito e admite a possibilidade de o município ribatejano interpor uma ação para ser "ressarcido dos danos de que foi alvo".

"Trata-se de uma averiguação complexa. No entanto, é necessário, por respeito às vítimas, que a Justiça conclua rapidamente este processo", defende.

O surto, o terceiro com mais casos em todo o mundo, foi considerado extinto a 21 de novembro, tendo na altura o ministro da Saúde, Paulo Macedo, realçado a resposta dos hospitais que "trataram mais de 300 pneumonias".

Com a divulgação de resultados laboratoriais a apontar para uma relação entre as bactérias recolhidas em doentes para análise e aquelas encontradas numa torre de refrigeração da empresa Adubos de Portugal, e com o caso a passar para a Procuradoria-Geral da República, o segredo de justiça é a justificação de algumas entidades, como a Inspeção Geral da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território (IGAMAOT), para não se falar sobre o desenvolvimento do processo.

A doença do legionário, provocada pela bactéria legionela pneumophila, contrai-se por inalação de gotículas de vapor de água contaminada (aerossóis) de dimensões tão pequenas que transportam a bactéria para os pulmões, depositando-a nos alvéolos pulmonares.