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Futuros médicos levam saúde porta a porta

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TIAGO MIRANDA

Alunos da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa dão apoio semanal a idosos carenciados. Visitas domiciliárias começaram esta semana, dando início à segunda edição do projeto. Os aprendizes tratam do corpo e, sobretudo, da alma

A varanda é o limite do seu mundo, o ponto mais distante até onde caminha, o local onde passa horas a olhar para rua. É também dali que os vê chegar: Rita e Gonçalo, os dois estudantes de medicina que têm sido os seus anjos da guarda. "Eu abro a porta com o coração aberto, estes meninos são uma ajuda e uma alegria", diz Rosa Rocha ao Expresso.

Com 80 anos, Dona Rosa é um dos 48 idosos que beneficiam do projeto "Saúde Porta a Porta", para pessoas com mais de 65 anos e menos recursos. Uma vez por semana, 74 alunos da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa levam, aos pares, cuidados, carinho, companhia... a quem precisa de muito e tem pouco. "Aqui vivo eu e Deus, e esta é a maior tristeza que tenho. Se cair aqui (em casa) não tenho ninguém para me dar uma gota de água para ver se não morro", desabafa a cabo-verdiana que com pouco mais de 30 anos rumou a Portugal apenas com o filho pela mão.

As voltas do mundo levaram-lhe o rapaz para longe - trabalha num hotel na Holanda -, os quatro netos e os três bisnetos. Ficou ela, 'presa' no 3.º andar de um prédio igualmente velho. "Já não saio, porque estas escadas são muito grandes para descer, porque tenho dores nos joelhos, e para subir ainda mais, porque sou asmática."

Como ela não desce, sobem Rita e Gonçalo. Não precisam sequer de tocar à campainha. No dia da visita semanal, Rosa está na varanda à espera de os ver sair do autocarro.

BPI oferece 15.600 euros

Tem sido assim no último ano e assim será, pelo menos, durante mais um. O projeto "Saúde Porta a Porta" - uma parceria entre a Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa, as Juntas de Freguesia da Estrela e de Campo de Ourique, a Câmara de Lisboa e o Hospital Cuf Infante Santo - começou em 2014/15 com 20 idosos e graças a um prémio recente, de 15.600 euros, atribuído pelo BPI Seniores, vai manter-se em 2015/16. A continuidade ficou assegurada, e com mais voluntários e mais idosos, selecionados por assistentes sociais das freguesias envolvidas.

O prémio permitiu, assim, dar mais 'saúde' à iniciativa. "Temos mais voluntários porque foi possível comprar mais kits: medidores de tensão, de açúcar e de colesterol; tiras, algodão, luvas, termómetro e desinfetante, por exemplo, levando cada um o seu estetoscópio, que é exigido desde o 3.º ano da faculdade", explica Beatriz Porteiro, aluna do 5.º ano e coordenadora do projeto.

Além do material e da experiência in loco, os futuros médicos recebem formação. "Fazemos sessões clínicas com o material recolhido", acrescenta. As 'aulas' decorrem no Hospital Cuf Infante Santo, que garante consultas e exames gratuitos aos idosos do projeto. "Durante a faculdade não temos contacto com os doentes em casa, e numa medicina cada vez mais individualizada é preciso saber como vivem os doentes, para sabermos melhor o que prescrever", acrescenta.

TIAGO MIRANDA

"A Dona Rosa foi a minha primeira doente. Vejo-lhe a glicémia, a tensão... e partilhamos histórias", diz a voluntária Rita Freitas, 22 anos, no 4.º ano de Medicina. Neste caso, a visita de médico é demorada e inclui uma avaliação ao frigorífico. "Vejo se tem comida suficiente, porque já aconteceu ter só iogurtes." Rita olha para Rosa e vê os avós: "Pessoas que precisam de ajuda - ela pede-nos para arranjar o televisor, o telefone, a lâmpada - e que nos ajudam a crescer e a ganhar humanidade."

Rosa Rocha tem médico (na Unidade de Saúde do Vale de Alcântara, da Santa Casa de Misericórdia de Lisboa) e apoio domiciliário, incluindo refeições, do Centro Social e Paroquial de São Francisco de Paula. Recebe ainda ajuda social, da Câmara lisboeta e da Junta da Estrela, mas confessa: "É muito bom ter dois médicos em casa."

"Vejo-lhe os parâmetros vitais, mas a parte médica acaba em dez minutos", diz o voluntário Gonçalo Portugal, 21 anos, aluno do 4.º ano. "Durante o curso adquirimos competências teóricas, mas falta-nos este bocadinho do contexto social e faz todo o sentido entrar um pouco antes na comunidade." E logo dá um exemplo: "Na semana passada tive de ir com a Dona Rosa ao médico assistente para conseguir renovar as receitas para os medicamentos de que precisa e que estavam a acabar".

Além das visitas dos dois futuros médicos, Rosa Rocha recebe também Helena Domingues, psicóloga da Junta de Freguesia da Estrela. Esta terça-feira, quando o Expresso acompanhou a visita semanal de Rita e Gonçalo, a psicóloga foi dizer à Dona Rosa que iriam juntas buscar óculos novos, um par para ver ao perto e outro para ver ao longe, pagos pelo fundo de emergência social. Rosa Rocha foi cozinheira e "ganhou um pouco para comprar um prato para pôr comida na mesa".

Agora, Rosa Rocha vê o tempo passar a partir da sua varanda. Além das visitas semanais de apoio, sente-se feliz sempre que telefona ao filho. "O meu amigo na maior parte do tempo é a TV." "E a bengala", acrescenta Rita Freitas. A futura médica conta baixinho que a "Dona Rosa não gosta muito dela, mas tem de ser". Rosa vê naquele objeto a fragilidade da velhice, que não quer encarar. E desabafa: "Já fui linda."