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Sociedade

Mulheres com cancro da mama avançado “sentem-se culpadas e abandonadas”

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Fátima Cardoso, diretora da Unidade de Mama do Centro Clínico Champalimaud

Ana Baião

São os próprios médicos e grupos de apoio que muitas vezes negligenciam as pacientes sem hipótese de cura, alerta Fátima Cardoso, presidente da Conferência Internacional de Consenso Sobre o Cancro Avançado, que decorre desta quinta-feira até sábado, em Lisboa

Na Europa, uma a cada oito mulheres vai desenvolver cancro da mama. Há um diagnóstico a cada dois minutos e meio e uma morte a cada seis minutos e meio. Para quase um terço das mulheres, será o fim da linha.

É a pensar nelas que Lisboa recebe a Conferência Internacional de Consenso Sobre o Cancro Avançado. Falámos com Fátima Cardoso, diretora da Unidade de Mama da Fundação Champalimaud e que preside ao encontro.

Alguns estudos têm posto em causa os rastreios organizados ao cancro da mama. Demonstram que não só não diminuíram significativamente a mortalidade pela doença, como fizeram disparar o número de falsos positivos, biópsias, cirurgias e outras terapias desnecessários. Estes rastreios continuam a fazer sentido?
Há uma grande confusão à volta dos benefícios do rastreio. Há argumentos demasiado extremados e falta perspetiva ao debate. Muitos desses estudos são de países nórdicos, onde a maioria da população tem acesso gratuito aos melhores cuidados de saúde. Ora, num país onde as mulheres tenham acesso generalizado aos cuidados de saúde, onde consultem com regularidade os seus ginecologistas e médicos de família, é natural que não precisem tanto do rastreio organizado, porque muitas vezes já fizeram os exames. Mas a realidade é muito diferente em países do leste europeu, de África ou da América Latina, onde, se não forem dados à mulher meios para ela fazer um rastreio de graça, ela não tem como o fazer e muitas vezes não tem sequer onde o fazer.

O que explica que, nesses países, as taxas de mortalidade por cancro da mama sejam muito mais elevadas.
Os números são muito claros. Na maioria dos países europeus, o diagnóstico de cancro avançado corresponde a 10, 15% dos casos. Quando se vai para países menos desenvolvidos, chega a 50%, 60%, precisamente porque não há rastreio. São mulheres com uma doença incurável, que, em média, vão viver mais dois, três anos. Porque é que batemos tanto na tecla do diagnóstico precoce? Porque o cancro da mama só é potencialmente curável se for diagnosticado precocemente.

E, mesmo nesses casos, há sempre uma probabilidade de ocorrer uma recidiva.
Mesmo nos tumores que são diagnosticados precocemente e são tratados de uma forma correta há 30% de risco de recidiva. Podemos diagnosticar o cancro muito cedo, dar-lhe o melhor tratamento que o dinheiro pode comprar, e um terço, uma em cada três mulheres (e homens), vai ter uma recidiva. Por isso é que a taxa de cura é à volta de 70% nos países desenvolvidos. Há 30 por cento que não vão ser curados.

Foi a pensar nesses pacientes que Lisboa recebe agora a Conferência Internacional de Consenso sobre Cancro Avançado. É um tema muitas vezes esquecido pelos próprios media, que preferem focar-se nos casos de sucesso.
É um assunto sobre o qual poucos querem falar, porque não é cor de rosa. Durante muito tempo não teve sequer o apoio dos grupos de apoio, pela mesma razão: porque é mais fácil falar de diagnóstico precoce, de rastreio e de coisas que se podem curar, do que falar de uma doença que é incurável. Mas eu, como especialista em cancro avançado, tenho que dizer frequentemente, senão todos os dias, que o cancro voltou, que tem metástases e que a paciente tem uma doença que é incurável, com uma sobrevivência média de dois, três anos.

Qual é a principal mensagem que tenta passar-lhes?
Que a culpa não é delas. Muitas das mulheres que tratei dizem-me: "Mas eu fiz o rastreio, fui ao médico, fiz os exames que me mandaram, fiz os tratamentos todos e mesmo assim o cancro voltou. Porquê?". Estas doentes sentem-se culpadas, como se fosse culpa delas que a doença tivesse voltado. E sentem-se também abandonadas. Os grupos de apoio não as querem nos seus eventos, não são 'pink', os media não querem falar, não acham que seja interessante. Os próprios médicos preferem concentrar-se em casos que possam ter um final feliz. Ninguém lhes dá atenção, têm medo de falar da doença delas. É como nos anos 60, em que não se podia dizer a palavra cancro.

Não evoluímos nada?
Em 2006, estas pacientes estavam na mesma situação que estavam todos os doentes oncológicos nos anos 60 e 70, quando se dizia que a pessoa tinha morrido de doença prolongada. Surgiu então uma série de iniciativas, onde se inclui esta conferência, que tenta mudar o estado das coisas, a situação destes pacientes com cancro da mama avançado. Este ano, voltou-se a fazer um estudo internacional para ver o que se melhorou na última década. Hoje, a maior parte dos grupos de apoios já tem recursos desenvolvidos especialmente para o cancro da mama avançado. Um bom exemplo é a Europa Donna [Coligação Europeia Contra o Cancro da Mama], que tem uma representante em Portugal.

No campo terapêutico, a mudança tem sido mais difícil de operar.
A mortalidade começou a cair a partir dos anos 90, caiu cerca de 30%, mas ainda há um caminho longo a percorrer. Uma parte dessa diminuição deveu-se à implementação do rastreio, à aposta no diagnóstico precoce e na educação. A outra teve a ver com o desenvolvimento de novos tratamentos. Uma das grandes esperanças é a medicina de precisão, o poder definir o tratamento adequado para cada tipo de paciente. A evolução da investigação tem ido no sentido de compreender melhor a célula tumoral do cancro avançado, compreender o papel do organismo onde ele se está a desenvolver e depois desenvolver medicamentos mais dirigidos, que sejam mais eficazes e possam ter menos efeitos laterais.