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Morreu o jornalista José Frota, ex-correspondente do Expresso em Évora

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Durante duas décadas, o noticiário sobre a realidade alentejana nas páginas do Expresso teve a sua assinatura. O funeral de José Frota é esta quinta-feira

O jornalista José Frota, de 69 anos, antigo correspondente do Expresso no Alentejo, morreu esta terça-feira no Hospital do Espírito Santo de Évora (HESE). José Frota estava internado desde há algum tempo na unidade hospitalar, vítima de doença crónica.

O velório de José Frota decorre na Igreja dos Álamos, na cidade eborense. O funeral realiza-se amanhã, quinta-feira, às 15h00, no Cemitério dos Remédios (antigo cemitério de Évora).

José Frota foi correspondente do Expresso no Alentejo entre 1989 e 2008. Colaborou também em diversos projetos na região, entre eles o "Imenso Sul".

Foi lá que Luís Rego, mais tarde jornalista da SIC e hoje assessor do grupo parlamentar do PS, o conheceu. "Foi uma fonte inspiradora para toda uma nova geração de jornalistas alentejanos", lembra Luís Rego.

Uma das últimas atividades profissionais de José Frota foi a edição da revista "Évora Mosaico", propriedade da Câmara Municipal de Évora, entre 2009 e 2012.

José Frota era pai de Gonçalo Frota, ex-jornalista do Blitz, mais tarde do Sol e hoje colaborador do Público.

Sentido de humor

Quem conheceu José Frota, como foi o caso do autor destas linhas, recorda-se de outra característica sua: "O típico humor alentejano", nas palavras de Luís Rego. "Ele conseguia dizer as coisas na cara, mas sempre com aquele ar de piada", acrescenta.

O sotaque carregado e o bigode farfalhudo, que por vezes cofiava antes de alguma tirada mais cortante, são traços que ficam da memória do homem e do camarada de trabalho.

Escrever sem contemplações...

O jornalista também era assim, direto (e meticuloso quando era necessário). No contexto de uma pequena cidade portuguesa, José Frota nunca teve qualquer relutância ou hesitação em escrever textos que, sabia-se de antemão, seriam do desagrado dos poderes instalados.

O seu último artigo no Expresso, publicado em 18 de outubro de 2008, dá mesmo disso conta. José Frota escreve como o Presidente da Câmara de Évora (então José Ernesto Oliveira, do PS) "chegou ao topo da carreira no hospital".

"Nomeado fora de prazo" foi o título do texto. Logo no "lead", o jornalista dizia ao que ía: "Médico de carreira, José Ernesto Oliveira não exerce há 12 anos, mas ainda assim acaba de ser promovido ao topo de carreira no hospital local. Em Évora, a nomeação definitiva do presidente da Câmara como chefe de serviço do Hospital do Espírito Santo foi acolhida com surpresa e está a gerar controvéria".

... e com a matéria bem estudada

Noutras vezes, a virtude do jornalista estava no método. Nos inícios deste século, a conclusão das obras da barragem de Alqueva já estava por um fio e muitos empresários espanhóis perceberam rapidamente o que se seria o negócio de converter áreas de árida planície em solo de fértil regadio. José Frota meteu mãos à obra e fez um dos primeiro grandes trabalhos jornalísticos sobre o tema.

Que demorou algum tempo e obrigou a percorrer grandes distâncias (mas apenas à medida que outras exigências obrigavam o jornalistas a deslocações para fora de Évora). Assim, durante largos meses procedeu-se a "um levantamento efetuado pelo Expresso com base em informações recolhidas junto de conservatórias e repartições de finanças da região bem como de algumas autarquias, num total de 19 municípios considerados)", segundo se explica na edição de 24 de fevereiro de 2001.

E depois lá vinham as conclusões da investigação: "Espanhóis controlam Alqueva". Ao longo de dois anos analisados, garantia o Expresso, "empresas do país vizinho já compraram, pelo menos menos, 11 mil hectares de terrenos".