Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

A culpa não é só da chuva

  • 333

LUÍS FORRA / Lusa

Ribeiras transformadas em ruas que se transformam em ribeiras. Só a chuva não justifica a enxurrada. A culpa é do excesso de betão

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

O ministro da Administração Interna, Calvão da Silva, atribuiu as inundações deste domingo em Albufeira à “fúria demoníaca da natureza”. Porém, a explicação é bem mais terrena.

A forte precipitação registada este domingo não transformou as ruas de Albufeira em ribeiras e as esplanadas em lagos só por si. Teve uma ajuda em terra: “O mau planeamento de décadas que permitiu a construção em leito de cheia”, aponta Alveirinho Dias. O especialista em recursos hídricos do Centro de Investigação Marinha e Ambiental (CIMA), da Universidade do Algarve, lembra que “a canalização das ribeiras com manilhas que conseguem evacuar as águas em condições normais, mas não quando chove um pouco mais”, é outra das razões para que se vejam tampas de sarjeta a saltar e ribeiras a saltar do leito.

Por isso, Alveirinho Dias tem outra imagem do que aconteceu: “Não são as ruas que se transformaram em rios, mas os vales e as ribeiras é que foram transformados em ruas, que se transformam em rios quando há uma maior precipitação”.

A ocupação urbana em leito de cheia, a sucessiva impermeabilização de solos nos meios urbanos e a canalização de linhas de água são as principais razões apresentadas por vários especialistas para as inundações em zonas de maior risco.

Choveu menos este domingo do que a 13 de outubro de 1989

E esta constatação conduz a outra: não se podem confundir fenómenos com consequências. Os dados do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) também vão neste sentido.

Em seis horas, entre as 7h e as 12h deste domingo, caíram 73,3 milímetros de chuva, segundo dados da estação de monitorização de Faro, disponibilizados pelo IPMA. Pouco menos do que isso caiu numa só hora (67,8 milímetros) a 13 de outubro de 1989, sem registo noticioso do mesmo nível de consequências. Ou seja, há 26 anos “choveu em 60 minutos o triplo do valor agora registado (19,9 mm) no mesmo período de tempo”, atesta Fátima Espírito Santo, coordenadora da Divisão de Clima e Alterações Climáticas do IPMA.