Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Exames nacionais: o seu concelho tem bom ou medíocre? Ora veja

  • 333

Fosso entre bons e maus resultados escolares agravou-se. Nos concelhos onde já havia mais dificuldades as notas nos exames do 9º e do secundário tenderam a piorar nos últimos seis anos, revela estudo. O território pesa, mas não é fatal

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

Jornalista infográfica

Chama-se Atlas da Educação e como qualquer livro de mapas mostra diferentes imagens da realidade — neste caso educativa — e do território continental. O primeiro foi lançado em 2014, os dados foram entretanto atualizados e o retrato que fica é o de um país que, apesar de pequeno, é muito diverso. E cuja evolução ao longo dos últimos seis anos (2009-2014), medida pelos resultados nos exames do 9º e do secundário, revela um agravamento das disparidades entre concelhos. Apenas um dado: ao nível do secundário, 40 dos 42 municípios que têm elevadas taxas de insucesso escolar relativo (face à média do país) registaram nesse período uma progressão entre o “risco” e o “mau”.

A investigação foi feita por uma equipa do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais CICS.Nova, coordenada pelo ex-ministro da Educação David Justino, a pedido da associação Empresários pela Inclusão Social (EPIS). Olhando para o que se passou nesse período, fica evidente que as evoluções positivas (marcadas a azul) aconteceram sobretudo em concelhos do litoral e mais a centro e a norte do que a sul. No caso do ensino secundário, os únicos concelhos abaixo do Tejo que, além de terem notas mais altas do que a média do país, melhoraram significativamente o desempenho (azul escuro) foram os de Sesimbra e São Brás de Alportel (Algarve). Já no 9º ano, só aconteceu em Beja.

Mas além da tendência geral, o que estes mapas mostram é que existem diferenças assinaláveis entre municípios que são vizinhos e que partilham características semelhantes. Uns conseguem contrariar os obstáculos; outros não. Perceber o porquê e como é que as escolas podem fazer a diferença é a próxima etapa deste projeto.

Veja-se o caso de Penedono, um pequeno concelho do Douro, com um índice socioeconómico baixo, mas cujos alunos apresentam uma média nos exames do 9º superior à nacional e acima do estimado — tem um dos maiores desvios no país entre as notas registadas e as estimadas. Mesmo ali ao lado, em Vila Nova de Foz Coa, a situação é a oposta. Os resultados são baixos, inferiores ao estimado e afastaram-se ainda mais da média do país.

Histórias de sucesso

Mais do que os resultados absolutos e enumerar os concelhos com melhores e piores resultados, a análise permite encontrar as histórias bem sucedidas e alertar para os casos em que algo se está a perder. E é assim que municípios com médias bem inferiores às nacionais podem aparecer destacados a azul, pela simples razão de que estão a melhorar (ver Sobe e Desce). E são estes casos de sucesso que importa analisar, sublinham os investigadores.

“Não faz sentido definir uma política nacional para diminuir o abandono escolar, por exemplo, e não ter em consideração as nuances de cada concelho. Há áreas de uma mesma região que têm comportamentos completamente diferentes. As estratégias têm de ser definidas de baixo para cima”, defende David Justino.

Em Vila de Rei, distrito de Castelo Branco, a tendência foi para subir sempre. Com apenas uma escola com 3º ciclo e secundário, o mérito vai para alunos e professores da Básica e Secundária do Centro de Portugal e para a autarquia que tem “trabalhado em articulação com o agrupamento”, afirma Celeste Costa, do departamento de Educação da câmara municipal: “Enquanto concelho do interior temo-nos debatido com o problema da falta de alunos, sobretudo no secundário. E o município tem tomado medidas para o combater.”

Desde o ano passado que a autarquia oferece os manuais escolares a todos os estudantes do secundário. E desde há mais tempo ainda faculta aos alunos com notas iguais ou inferiores a 12 valores explicações gratuitas, a juntar aos apoios de preparação para os exames também garantidos na escola.

Ensino das mães decisivo

Para este Atlas da Educação (disponível no site da EPIS), os investigadores da CICS.Nova verificaram ainda as tendências de evolução mais frequentes em grupos de concelhos com características semelhantes. Agregaram cinco grupos com base nos valores do sucesso e abandono escolar registados. E concluíram que no grupo dos que estão em situação mais difícil — são 68 concelhos com insucesso relativo e elevado atraso escolar a nível do 9º ano — a tendência que mais se verificou oscilou entre o “mau” e o “em risco”. Aconteceu com 82% destes concelhos, significando que não só já tinham desempenhos piores, como agravaram a sua situação.

A situação foi precisamente a inversa no grupo mais bem sucedido. Integra 64 escolas e a maioria (78%) apresentou uma evolução positiva ou pelo menos não piorou.

Olhando para o secundário, a situação repete-se e até de forma mais intensa. Nenhuma escola do grupo do insucesso melhorou significativamente e 95% registaram uma tendência de evolução dos resultados entre o “mau” e “em risco”. A conclusão é clara: as disparidades entre concelhos com bons e maus resultados acentuaram-se nos últimos seis anos.

Os investigadores analisaram ainda o que ajuda a explicar as variações dos resultados dos exames ao longo daqueles seis anos. Após testarem uma série de indicadores, chegaram à conclusão de que as notas dependem muito de fatores socioeconómicos territoriais e de origem social. “No modelo estatístico a que chegámos, as características socioeconómicas do concelho (urbanos, agrícola, industrial, etc.) e a percentagem de mães com ensino superior explicam 50% da variação dos resultados. A percentagem é muito elevada, mas falta encontrar os restantes 50%”, sublinha David Justino.

Nesta equação, o presidente do Conselho Nacional de Educação reforça o peso das habilitações das mães — mais importante do que o poder de compra da família, por exemplo. Faz-se sentir nos resultados do secundário, mas sobretudo do 9º ano. De acordo com os cálculos da CICS.Nova, 25% desses resultados são explicados pela escolaridade de nível superior das mães”.