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Cinco sítios para provar bons pastéis de nata em Lisboa

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Desde que “o Álvaro” (o ex-ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira) falou no pastel de nata como segredo para Portugal, multiplicam-se as histórias de sucesso em torno deste pastel que os estrangeiros adoram

Pastelaria Aloma, Campo de Ourique

A Pastelaria Aloma, em Campo de Ourique, venceu o título do "melhor pastel de nata" em 2012, 2013 e 2015.

A Pastelaria Aloma, em Campo de Ourique, venceu o título do "melhor pastel de nata" em 2012, 2013 e 2015.

No simpático bairro de Campo de Ourique, ergue-se a Pastelaria Aloma, desde 1943. O nome “estranho”, com ecos do Pacífico, remonta ao ano em que o filme “Aloma of The South Seas” estreou em Portugal, no cinema Europa, ali ao lado. O filme, passado numa ilha para os lados do Hawai, tinha uma protagonista com pouca roupa que marcou os proprietários da altura. O nome ficou. Em 2009, João Castanheira, morador do bairro e negociante nato, soube que a Pastelaria estava à venda - e comprou. Já na altura, o Bolo Rei, o pastel de nata e os parisienses ('croissants' meio folhados com amêndoas e açúcar) eram sucessos consolidados. Mas desde então, quando foram convidados a participar no Concurso do Melhor Pastel de Nata, venceram nos anos de 2012, 2013 e 2015. O título só contribuiu para trazer ainda mais gente à casa. A menção no New York Times e na CNN aumentaram ainda mais o fenómeno. Mas 85% dos clientes continuam a ser nacionais, garante o proprietário.

“O que distingue o nosso pastel de nata é que se consegue comer frio sem perder características”, defende João. “Mantém-se estaladiço, o creme não é demasiado doce, e é meio líquido, sem escorrer. O produto é 100% artesanal”. O pastel é muito macio, mas não vinha quente... A decoração, vintage, com serviços de chá antigos, rádios e e telefones originais nas montras, dão um ar acolhedor ao espaço, povoado por mesinhas redondas para duas pessoas. Entretanto, João transformou a Aloma original num polvo de sete tentáculos: em 2013, abriu uma outra no Calhariz; em Maio de 2014 inaugurou um novo espaço no Mercado da Ribeira; em Dezembro de 2014, abriu no Corte Inglès; em Junho deste ano, nas Amoreiras e no Aeroporto; e em Novembro próximo, irá abrir a oitava Aloma no Jardim Constantino, em Lisboa. O negócio prospera. E também exporta, desde 2013, para Paris, Londres, Bruxelas, Suíça e Madrid.

Preço: 1€ por pastel, 6€ a meia dúzia

Horário: das 8h às 19h, todos os dias, incluindo feriados (excepto 25 e 26 de dezembro e 1 de Janeiro)

Manteigaria, Rua do Loreto, 2, Chiado

A Manteigaria União, na Rua do Loreto, recupera um edifício histórico de 1900

A Manteigaria União, na Rua do Loreto, recupera um edifício histórico de 1900

Reaberta em Julho de 2014, a Manteigaria União recupera um importante marco histórico de cidade a adiciona-lhe uns maravilhosos pastéis de nata. O prédio, de 1900, mantém a bela fachada Arte Nova e as paredes de mármore no interior daquela que foi em tempos a sede da marca portuguesa. O novo dono demorou menos de um dia a comprar o espaço. “Moro aqui na zona, e quando passei e vi a placa a ser colocada, não hesitei. No dia seguinte, comprei”, conta Aristides Rocha Vieira, que trabalhava na área há 16 anos e estava “cansado”. O destino não o deixou descansar. Pegou no chef pasteleiro que tinha há anos, o Sr Rogério, que aprendeu a fazer pastéis de nata ainda pequeno, com o avô emigrado na Venezuela. Quis manter o conceito de fábrica, e por isso o espaço, exíguo, tem apenas um balcão, onde se pedem os pastéis de nata - óptimos, quentinhos e estaladiços -, destacando-se pelo fato de ter a zona de trabalho do mestre pasteleiro à vista de todos. Um vidro separa o Sr Rogério dos muitos turistas deleitados a ver como tudo se faz, desde a massa folhada amassada à mão ao enchimento das formas com o creme, às fornadas que vão entrando e saíndo do forno.

Os pastéis da Manteigaria. O logotipo tem na base um símbolo maçónico, depois alterado

Os pastéis da Manteigaria. O logotipo tem na base um símbolo maçónico, depois alterado

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Aristides quis desmistificar o secretismo em torno a do pastel de nata, mostrar tudo, e ainda assim, “bater os pastéis originais, de Belém”. “O nosso segredo”, garante, “é usarmos 100% de manteiga nos nossos pastéis de nata, em vez de margarina. Importamos a manteiga de França, o que custa os 'olhos da cara' - mas vale a pena”, assegura. “Em Portugal, as placas de manteiga que se usavam em pastelaria deixaram de se vender nos anos 80”. Quanto aos restantes ingredientes, também não faz segredo: “Só usamos canela, umas gotas de limão, um ponto de açúcar próprio. O segredo são as quantidades. E não usamos qualquer conservante”, garante. “Ao fim de três dias, os nossos pastéis de nata continuam óptimos. Veja se isso acontece com todos...”, desafia.

A vender 4000 pastéis de nata por dia, o negócio corre-lhe bem. Mas Aristides defende que quer manter o seu produto "artesanal, sem o transformar num produto gourmet. Os preços - 1€ por pastel - são um reflexo disso. Por esse motivo também, já recusou propostas de investidores para internacionalizar. Não quer desvirtuar o conceito. Contudo, já abriu excepções: Abril do ano que vem verá nascer uma Manteigaria em Madrid, perto das Portas do Sol; e em Londres, também andam à procura de um espaço. Mas sempre com pasteleiros portugueses.

Preço: 1€ por pastel de nata, 6€ por meia dúzia

Horário: das 8h às 24h, todos os dias

Confeitaria Nacional, Praça da Figueira, 18B

A Confeitaria Nacional no Natal, cuja fachada é sempre decorada com pinheiro natural

A Confeitaria Nacional no Natal, cuja fachada é sempre decorada com pinheiro natural

Fundada em 1829, a mais antiga confeitaria de Lisboa vende mais pastéis de nata do que qualquer outro artigo (cerca de 1000 por dia), mas essa não é a única “estrela da companhia”. Bolo Rei e 'petits-fours' partilham o protagonismo. O Bolo-Rei, porque a receita original foi trazida pela Confeitaria para Portugal, assegura. Os outros, porque o fundador da Confeitaria, Balthazar Castanheiro, era um homem muito viajado e trouxe de França e de Espanha estes adições à pastelaria tradicional.

O livro de receitas da Confeitaria Nacional, de 1852, com a receita do pastel de nata

O livro de receitas da Confeitaria Nacional, de 1852, com a receita do pastel de nata

O “coelhinho”, por exemplo, é outas especialidade da Confeitaria, que só se encontra ali - pão de ló com chantilly, topo de creme de ovo e avelãs a fazer de orelhas. Quanto ao pastel de nata, é cremoso e estaladiço, mas o meu vinha frio... O espaço, com traça e decoração de origem, é bonito e agradável. E sabe bem sentarmo-nos e acompanharmos o doce pastel com um bom café.

Horário: das 8h às 20h, todos os dias

Preço: 1,15€ ao balcão, 6,60€ a meia dúzia.

Nata Lisboa - R. da Prata, 78

Na Nata Lisboa, a estrela é mesmo o pastel

Na Nata Lisboa, a estrela é mesmo o pastel

Em 2011, o criativo publicitário José Carlos Campos teve uma ideia: criar a sua própria marca de pastéis de nata, e vendê-los pelo mundo. O 'slogan' da empresa, “The World Needs Nata”, piscava desde logo o olho à internacionalização. A primeira loja abriu portas no Chiado, em Lisboa, e hoje, volvidos três anos, são 29 as lojas franchisadas pelo mundo, de Paris a Abu Dhabi, estando outras três em fase de abertura, uma das quais em Cabo Verde. Um ano mais tarde, João Cunha, Nuno Seabra e a mulher, Teresa Marques, juntaram-se ao projeto. José Sadio ficou à frente do Nata Lisboa na R. da Prata, em Maio de 2014. Vende cerca de 400 pastéis de nata por dia, o produto-âncora da casa. Quentinho e estaladiço, o pastel não desmerece. O sítio tem também várias sugestões simpáticas para diferentes ocasiões - seja para almoçar, beber uma sangria com amigos ou desfrutar de um NataCafé em dias de mais frio, e artigos diversos de 'design', relacionados com Lisboa.

Preço: 1€ o pastel, 6€ a meia dúzia

Horário: das 8h às 19h, das 9h às 19h ao fim-de-semana

Pastelaria Paris, Av. Embaixada Augusto Castro, nº 18, Oeiras

A Pastelaria Paris, em Oeiras, é um segredo de bairro que vale a pena conhecer

A Pastelaria Paris, em Oeiras, é um segredo de bairro que vale a pena conhecer

Na linha de Oeiras, num bairro insuspeito a que chegam apenas os que conhecem, esconde-se a Pastelaria Paris, onde o pastel de nata é uma absoluta maravilha. Esta “Paris”, no bairro Dr Augusto Castro, existe há escassos 6 anos, mas a “Paris” original, na R. Gil Vicente, mais central, perto do Centro Comercial Palmeiras, abriu portas em 1976 - e já na altura o pastel de nata era uma das especialidades da casa. O segredo do sucesso, conta o gerente, Rui Gaspar, é que “é feito à antiga, a massa batida à mão, sem conservantes”. Isso faz diferença. Nós comprovamos. O pastel de nata, servido quentinho, derrete na boca como manteiga. “Para mim, são melhores que os de Belém”, defende o gerente. Opiniões à parte, o facto é que é um dos pedidos com mais procura entre as especialidades da casa, que passam também pelo pastel de feijão, as queijadinhas de laranja e os 'croissants' pequenos, de açúcar ou doce de ovos. Uma agradável surpresa. A Pastelaria tem ainda muitas opções de almoço muito em conta, sendo muito procurada por estudantes.

Preços: 1€ o pastel, 6€ a meia dúzia

Horário: das 7h às 20h de segunda a sábado, e das 8h às 20h aos domingos e feriados

A história do pastel de nata

Em 1837, em Belém, perto do Mosteiro dos Jerónimos, os clérigos do mosteiro, numa tentativa para sobreviver, puseram à venda pastéis de nata feitos por eles. Nessa altura, Belém e Lisboa eram duas localidades diferentes, ligadas apenas pelos barcos a vapor. Depois da Revolução Liberal de 1820, e da extinção das ordens religiosas, em 1834, o mosteiro fechou. e o pasteleiro do convento vendeu a receita a um empresário português que vinha do Brasil, Domingos Rafael Alves - e hoje, passadas quatro gerações, permanece na família dos seus descendentes, os Clarinha. No início, os pastéis foram postos à venda numa refinaria de açúcar próxima do Mosteiro dos Jerónimos. E em 1837 foram inauguradas novas instalações num anexo, então transformado em pastelaria, “A antiga confeitaria de Belém”.

Tanto a receita original como o nome “Pastéis de Belém” estão patenteados. E muito se fala no segredo da receita original dos pastéis, que passa de chefe-pasteleiro em chefe-pasteleiro, sob juramento de não o partilhar com ninguém. Na atual Fábrica dos Pastéis de Belém, há uma sala a que se chama “a oficina do segredo”. Diz-se que é ali que está guardada a receita secreta da confeção dos Pastéis de Belém - mas Miguel Clarinha, um dos descendentes que ali trabalha, garante que a receita física é o produto apenas da imaginação. Naquela sala, os mestres pasteleiros trabalham à porta fechada - mas a receita vive apenas dentro da sua cabeça, garante. Na verdade, os mestres pasteleiros da Oficina do Segredo são os poucos detentores da receita, e têm de assinar um termo de responsabilidade em como se comprometem a não divulgar a receita. Só seis pessoas conhecem o “segredo": os três mestres em atividade, dois já reformados e o gerente da casa.

Nos dias que correm, a Fábrica dos Pastéis de Belém vende mais de 20 000 por dia, tendo a faturação do ano passado ficado nos 8 milhões de euros.