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“Um bife de 200 gramas já é de mais”

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Rui Duarte Silva

Entrevista a Júlio Leite, cirurgião perito em cancro colorretal

Na semana em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) colocou os enchidos na mesma categoria de cancerígenos que o tabaco, Júlio Leite, cirurgião em Coimbra e perito em cancro colorretal, aconselha os portugueses a comer cozido só em dias de festa. A carne vermelha é para reduzir, mas cuidado com os extremismos. Nada prova que os vegetarianos têm menos cancro, diz.

Comer enchidos com frequência é tão perigoso como fumar?
O tabaco é mais problemático. Mas não há dúvida de que estes dados divulgados pela OMS têm um fundamento científico muito forte e não podem ser ignorados. De facto, devemos reduzir o consumo de carne vermelha e evitar, ou comer apenas em doses muito baixas, as carnes processadas, que têm um impacto comprovado no cancro colorretal.

Devemos abandonar o cozido à portuguesa?
Não. Mas talvez devamos deixá-lo para ocasiões especiais e de preferência com menos quantidade de enchidos.

Qual é o limite de consumo de carnes processadas considerado seguro?
Os estudos indicam que um consumo médio diário de 50 gramas já tem um impacto significativo no risco de aparecimento de cancro colorretal. Uma dose menor, muito de vez em quando, não faz mal.

E quanto à carne vermelha?
Aponta-se para um limite de 500 gramas por semana. Neste sentido, um bife de 200 gramas já é de mais, sobretudo se a pessoa ainda quiser ter mais uma ou duas refeições de carne nessa semana. É um excesso desnecessário. É preciso dosear, não fazer duas refeições seguidas de carne e compensar sempre com legumes.

Há formas de cozinhar a carne que aumentam o risco?
Sujeitar a altas temperaturas pode aumentar o risco. E se for grelhada no carvão também pode envolver mais substâncias tóxicas. Mas é importante não transformar a carne no mau da fita. Há outros fatores tão ou mais importantes.

Quais?
A genética é determinante. Entre 5% a 10% das pessoas têm uma alteração genética que favorece claramente o aparecimento do cancro e cerca de um terço da população tem história familiar de cancro colorretal, o que significa que tem alguma tendência para o desenvolver. A idade também é um fator de risco. A partir dos 50 anos a tendência é maior.

É mais arriscado comer enchidos depois dos 50 anos?
Não diria isso porque os efeitos são cumulativos. Reduzir o consumo de carne vermelha e evitar as carnes processadas é uma recomendação para a vida. Assim como o combate à obesidade, que é um grande fator de desenvolvimento do cancro. Para o estilo de vida atual, as pessoas comem de mais.

Devemos optar por uma alimentação vegetariana?
Não. A carne tem um valor proteico importante. E não existe qualquer estudo que demonstre que os vegetarianos têm menos cancro colorretal.

A distribuição do cancro colorretal em Portugal reflete as diferenças alimentares entre as regiões?
No que diz respeito ao cancro gástrico, a incidência é mais elevada no Norte e nas zonas do Interior, onde muitas comidas são conservadas em sal e através de fumeiro. Na zona da Guarda e da Covilhã, por exemplo, o número de casos era enorme. Mas nos últimos dez anos tem vindo a diminuir. No cancro colorretal, essa relação não é tão evidente.

A alimentação dos portugueses é mesmo equilibrada?
É muitíssimo variada. Em muitos países é difícil pedir peixe num restaurante. Não há ou é muito caro. Portugal é dos países onde há mais hábito e facilidade de comer peixe.

A alimentação é a melhor forma de reduzir a mortalidade provocada por este cancro?
Comer pouca carne não impede o cancro, da mesma maneira que há não-fumadores com cancro no pulmão. Ainda sabemos pouco sobre a origem do cancro. Por isso, a forma mais eficaz é mesmo a deteção das lesões pré-malignas através de rastreios regulares, como as colonoscopias, depois dos 50 anos.

Perfil

Professor catedrático de cirurgia e chefe do serviço de Cirurgia Geral do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, Júlio Leite, de 67 anos, é considerado um dos maiores especialistas no tratamento do cancro colorretal, um dos mais frequentes em Portugal.

Segundo um alerta divulgado segunda-feira pela OMS, há uma relação direta entre este tipo de cancro e o consumo frequente de carnes processadas como salsichas, chouriço, bacon ou presunto. Estes produtos passaram a integrar a categoria mais elevada de carcinogénios, onde se inclui o tabaco, o álcool ou a exposição elevada a raios-X.