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Os homens também têm os seus pequenos segredos. Limpinhos

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d.r.

Há uma semana contamos a história de Andrew e Anne. Ela saiu de casa para ficar famosa, ele ficou com os filhos e segurou as pontas do lar. A experiência foi dura, mas eles viveram para a partilhar. Em Portugal, depois de ler este pequeno conto sem fadas, houve quem se identificasse e generosamente aceitasse revelar as dificuldades do quotidiano nas trincheiras familiares

Andrew e Anne viveram um conto de fadas — daqueles modernos, sem feitiços ou poções mágicas mas com igualdade de direitos e deveres. Andrew e Anne viveram com ele em casa a tomar conta dos miúdos e ela a fazer carreira em Washington, ao lado de Hillary Clinton. Andrew e Anne viveram um mito que se desfez: ela deixou a carreira e regressou a casa para salvar o que ele não conseguiu sozinho — lidar com a puberdade do filho. Ela acaba de lançar um livro (“Unfinished Business”) para nos explicar o “pequeno segredo sujo” das mulheres que ocupam cargos de liderança, como ela própria classificou o essencial apoio dos companheiros às mulheres que arriscam assumir protagonismo. Mas ele também tinha umas coisas para dizer sobre a solidão do homem perante a mulher de sucesso.

Foi assim que agarramos alguns leitores na semana passada. Pelas entranhas. Do lar, do cansaço, das dúvidas. No fim do texto que contava a história de um casal norte-americano, pedíamos um exercício de doação. Queríamos que os homens portugueses que se identificassem com o tema, nos contassem as armadilhas que foram encontrando pelos seus caminhos de pais. Mas não os pais tradicionais, a que nos habituamos, mas os pais que encostaram a vida profissional num cantinho de casa, deixaram as mulheres voar e ocuparam-se dos filhos. E não é que eles apareceram? Rapidamente, na caixa do correio eletrónico presentearam-nos com fragmentos de vidas de homens, mulheres. E crianças. Alguns pediram discrição e, nesses casos, ficou entre nós. Outros abriram os braços e saltaram. Aqui vamos nós:

RAPAZES João, Mário e Manuel, uma família e uma confraria de amigos para a vida

RAPAZES João, Mário e Manuel, uma família e uma confraria de amigos para a vida

d.r.

Mário não tem dúvidas

Não quer falar da parte feminina da família. É a condição. Aceite. Aquela é uma família no masculino. João tem 13 anos, Manuel, dez. Há seis anos vivem os três. Mário é gestor de energia. Começa a trabalhar às 8H00 e acaba às 17H00. Para ficar com os filhos, perdeu dois empregos. Não aguentaram a necessidade de vê-lo a pedir para sair mais cedo para ir às reuniões de pais e às consultas médicas. A vida não é fácil lá em casa. Manuel tem problemas de aprendizagem, ainda não fala. Os rapazes fazem desporto, futebol, o mais velho, e natação e judo, o mais pequeno.

Andam em colégios particulares em Lisboa. “Sinto-me mais seguro. É um grande esforço financeiro, mas ganha-se na personalização do ensino”, desabafa Mário. Do alto dos seus receios de pai sozinho, diz que, embora não goste de pensar nisso, talvez seja verdade que as mães dão mais mimo aos filhos. Mas, equilibrado na suas certezas de pai sobrevivente, concede que a educação no masculino é “mais pragmática”. A experiência já lhe mostrou que o mais difícil é conjugar a vida profissional com esta paternidade ativa. “Há um preconceito à partida no emprego, é como se estes homens fossem incapazes”, atira. Nada que o demova ou faça mudar de opinião: “Foi uma opção de vida”. É.

Henrique à espera de amanhã

Foi acontecendo. A trama foi sendo urdida, os nós foram sendo apertados. Sem ruído. Nada foi premeditado. Tinha de ser assim e foi. O assim foi a decisão de Henrique ficar em casa para que a mulher crescesse profissionalmente. Ele, gestor, criou a própria empresa e ficou livre de horários e das exigências de uma carreira. Ela, economista, cresceu. A decisão não tem o selo da chucha. Quando a tomaram ainda não havia as crianças. Assim, quando estas chegaram, um rapaz e uma bebé, ele deu continuidade ao projeto de vida. Diz que nunca se deixou atrapalhar com as fraldas, quando, finda a licença maternidade, a mulher voltou ao trabalho e ao horário prolongado.

E ele ficou em casa. Com o horário ilimitado de pai. Reconhece que, deste caldo, uma realidade nova surgiu: “Um laço estreito entre pai e filhos.” E conclui, consciente: “Sou o elemento mais estável na vida do meu filho.” Mas Henrique sabe que há um mas nesta história. E que passa por “uma instabilidade profissional enorme”. Com a profissão colocada em segundo lugar, Henrique trabalha mais ao fim de semana, quando arranja tempo. “Há alturas de maior desespero, sobretudo à noite, mas passa logo. Se voltasse atrás, faria tudo da mesma forma”. E continua à espera de quando as crianças crescerem, quando poderá dedicar-se mais ao outro filho, a empresa.

Este pai tem de vencer as chefias

A história pode ser partilhada, mas os nomes, não. Em casa, pai e mãe trabalham, os filhos têm sete e três anos. Aqui não há meias palavras: “A conciliação da educação dos nossos filhos com os objetivos profissionais é uma luta diária, com várias vertentes, a gestão das nossas expectativas profissionais e como estas são vistas pelas nossas chefias.” Os maiores problemas vêm justamente dos superiores hierárquicos que lhes estão mais próximos. Porque, conta, “distingue-se positivamente aquele que menospreza o tempo familiar em favor da empresa”. As crianças precisam de apoio. De tempo.

“O simples facto de um filho adoecer, — e como adoecem nestas idades! — implica uma ginástica por vezes a roçar o ridículo”, desabafa este pai anónimo a pedido. E há mais, neste caso, a mulher, que todos os anos recebia um prémio, nunca mais o recebeu, desde que ficou grávida, embora os colegas do sexo masculino continuem a recebê-lo. E quando o segundo filho nasceu e o pai ficou em casa um mês ao abrigo da licença paternidade legalmente prevista, teve de ouvir da chefia que esta estava “desiludida”. Mas o tempo passa e a sociedade vai mudando e quando foi promovido, este pai passou a sentir maior compreensão. Um homem que conta os passos do seu caminho porque não concorda com “a discriminação existente no meio profissional que tende a acentuar-se, agora mascarada de políticas vazias e ocas de responsabilidade social”.

Sem crianças também se partilha

Neste caso, quem nos conta uma história é uma voz no feminino. A história de um casal sem filhos em que a partilha das responsabilidades da casa navega ao sabor das necessidades profissionais de cada um. Ele, músico, não podia virar a cara a uma oportunidade rara de integrar uma orquestra de renome em Portugal. Ela, uma operária fabril, ainda nem licenciada era quando o convite surgiu e não, entre o casal não houve espaço para hesitações, ela o acompanhou em direção a Lisboa, deixando para trás família e raízes. Chegada à capital, foi estudar, emendou licenciatura e mestrado, fez-se uma profissional completa.

Ele, sem abrir mão da sua carreira, rumou à cozinha, deu-lhe chão: “Eram dele todas ou quase todas as responsabilidades de organização do lar, desde compras, refeições limpeza. Foi ele o grande impulsionador das minhas conquistas e recebi dele todo o apoio que foi necessário.” Ele é discreto, não se quer identificar nem quer detalhes da vida em comum partilhados. Ela, tem uma palavra a dizer. Quer ser ouvida e não tem dúvidas em deixar o seu recado: “A vida é feita de escolhas, e ao fazê-las devemos viver bem com elas. O importante é, como casal, fazer as escolhas com o objetivo de maximizar o bem estar dos dois e não individualmente. Defendo a independência das mulheres e a responsabilização dos homens. Estou convicta que, as próprias mulheres, que continuam a ter uma responsabilidade muito grande na educação dos filhos, educam filhos machistas e mulheres 'fadas do lar'. Assim, será muito difícil mudar mentalidades e formas de estar na vida.”

Uma mãe sozinha. Mas com um cão e gatos

“Eu não sou homem, nem tenho uma história pessoal em que tivesse de ceder protagonismo profissional, mas parece-me que talvez possa ser interessante o que tenho para dizer.” Foi assim que Cândida se apresentou. Ouçamo-la. Como mais uma mãe de duas filhas, educadas sem a presença do pai, desde que as meninas eram apenas bebés, de meses. Mas, situa, “na década de 80, num Portugal em que ninguém sabia o que era um doutoramento em Biologia, não havia trabalho”. Deu aulas. Mudou de cidade, teve outra filha, o casamento acabou. Ouviu várias vezes que o currículo era bom de mais. Desesperou. A vida era escola, infantário, supermercado. Dar banho, colocar o jantar na mesa, deitar as meninas. Sentar para trabalhar, afinal, conseguira um lugar numa universidade do interior.

“Entre as fraldas, as otites, as birras, as festas de aniversário, a roupa que não secava e a restante miríade de indispensabilidades quotidianas, flutuavam sobre a minha cabeça como abutres preocupações tão diversas como as omnipresentes aulas do dia seguinte, as linhas de trabalho de investigação que era preciso desenvolver a todo o custo, o início da orientação de alunos de investigação, que, numa universidade daquelas, todos eram pessoas que tinham caído na armadilha do necessário, tão perdidos quanto eu.”

A vida foi passando, muitas vezes ao lado, apoiada pela ajuda das avós, pela criatividade das mães. E, com as filhas adultas, já longe de Portugal, mas na companhia dos animais que as três amam, Cândida não se poupa a vaticinar: “O género feminino é naturalmente multitask, mas mesmo assim o exercício requer o estofo de uma Rosa Mota, que como se sabe não venceu a maratona todos os dias durante a vida inteira. Não sobrevivem necessariamente os mais aptos, mas os que por sorte ou coincidência feliz, ou por obscuridades várias, conseguem manter a cabeça fora da água. É pois possível que o homem possa sentir-se mal ao confrontar-se com uma mulher forte. A mulher por seu lado confronta-se sempre com uma barreira feita de contextos criados à medida do homem. Afinal, a noção de que ele lhe possa ceder o protagonismo, é em si essencial enquanto afirma que o protagonismo é à partida e por defeito dele para poder ceder. Em minha opinião, a importância não está em quem é o detentor do protagonismo, mas em vez disso em quem é que tem a resiliência necessária para bater de cara no muro todos os dias e sobreviver contente”.

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