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Quando não se tem nada, sobra apenas a nossa determinação

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Há relatos que, de tão duros, parecem irreais. Mas essa é uma das razões que fazem com que seja tão imperioso lê-las. A história da norte-coreana Yeonmi Park comprova que o ser humano consegue suportar quase tudo - até ao limite do insuportável

Como todos os norte-coreanos, Yeonmi Park cresceu a achar que o seu país era o melhor do mundo. Tinha um "Querido Líder" todo poderoso, que conseguia ler as mentes das pessoas - e por isso não se podia ter maus pensamentos. Havia, contudo, coisas estranhas a acontecer num país supostamente "perfeito": cadáveres na rua, execuções públicas, um país às escuras depois do pôr do sol, fome constante.

Yeonmi cresceu com as grandes fomes dos anos 90, que mataram três milhões de norte-coreanos. Ela tinha fome o tempo todo - havia dias em que conseguiam ter uma taça de arroz para comer, outros em que ela e a irmã iam para as montanhas enganar a fome com flores, raízes e gafanhotos, que fritavam.

Yeonmi e a irmã mais velha, Eunmi, em crianças, na Coreia do Norte

Yeonmi e a irmã mais velha, Eunmi, em crianças, na Coreia do Norte

Na Coreia do Norte, há um sistema social de "classes" extremamente rígido, que impede uma mobilidade normal. Isso significa que quando se nasce numa determinada classe está-se limitado a trabalhar em determinados sítios. Por exemplo, quem for de uma classe baixa tem de trabalhar numa fábrica, e tirar um ordenado que muitas vezes não permite sustentar e alimentar a família.

O pai de Yeonmi envolveu-se numa atividade de contrabando por esse motivo. Nos primeiros anos correu bem, mas quando foi apanhado pelo regime norte-coreano foi preso e enviado para um campo de "reeducação", do qual só saiu passados anos.

Yeonmi aos 8 anos com o pai, em Pyongyang. Para a maioria dos norte-coreanos, visitar a capital é o maior sonho

Yeonmi aos 8 anos com o pai, em Pyongyang. Para a maioria dos norte-coreanos, visitar a capital é o maior sonho

Pressionados pela falta de comida, Yeonmi e a mãe decidiram arriscar a vida e atravessar a fronteira com a China, sem sonhar que, do outro lado, o que as esperava era algo pouco menos que terrível. Mas a possibilidade de terem o que comer valia todos os riscos, explicou ela mais tarde.

Tudo correu mal: desde logo, o intermediário que as ajudou a entrar na China cobrou o pagamento. A mãe de Yeonmi foi violada à sua frente, tomando a lugar da filha para que esta fosse poupada. De pouco lhe iria servir. Tinham caído numa rede de tráfico de pessoas. Ela seria vendida por 58 euros, Yeonmi por 228 euros. Durante dois anos, as duas foram passadas de mão em mão, e violadas por cada novo "dono". Sem documentos nem dinheiro, estavam completamente à mercê daqueles traficantes.

Yeonmi teve a "sorte" de ganhar o afeto de um dos cabecilhas, que a poupou à passagem de mãos e tomou-a para si. Ela tinha 13 anos. Depois de muito resistir, Yeonmi rendeu-se à inevitabilidade da violação.

Uma das últimas fotografias dos quatro Park reunidos, na Coreia do Norte: mãe, pai e as duas irmãs

Uma das últimas fotografias dos quatro Park reunidos, na Coreia do Norte: mãe, pai e as duas irmãs

Dói que haja histórias tão duras como a de Yeonmi Park. Ao lermos o livro "Porque Decidi Viver" apercebemo-nos do quão resistente é a alma humana, quando aparentemente já não tem nada a que se agarrar.

Separada do pai, preso na Coreia do Norte sem ter como o contactar, da mãe, perdida algures da China, e da irmã, em paradeiro incerto, Yeonmi conseguiu viver de uma missão que meteu na sua cabeça: voltar a reunir a família. Conseguiu convencer o seu "proprietário" a comprar a sua família de volta, conseguiu trazer o pai da Coreia do Sul - embora para perceber apenas que ele tinha um cancro inoperável e acabar por enterrá-lo de noite, clandestinamente, numa montanha na China (onde anos mais tarde, o foi buscar). E dois anos mais tarde, conseguiu ela própria, com a mãe, fugir para a Mongólia, onde uma organização cristã as ajudou a chegar até à Coreia do Sul.

A última foto tirada ao pai de Yeonmi antes da sua morte, muito magro depois da sua passagem pelo campo de "reeducação" norte-coreano

A última foto tirada ao pai de Yeonmi antes da sua morte, muito magro depois da sua passagem pelo campo de "reeducação" norte-coreano

Numa noite gelada, guiadas apenas pela luz das estrelas, Yeonmi e a mãe conseguiram entrar naquele país vizinho - mas tão, tão distante. Passados seis meses, quando finalmente obtiveram documentos, Yeonmi começou a ter vislumbres de "uma vida normal". Foi estudar - completou o liceu, depois o ensino secundário, depois ingressou na universidade para cursar Investigação Criminal. Leu todos os livros que conseguiu agarrar, descobriu palavras até então desconhecidas - "amor", "liberdade". Na esperança de encontrar a irmã, ainda desaparecida algures na China, participou num programa de televisão onde deu a conhecer parte da sua história.

Quando já não sabia se haveria de manter a esperança, a irmã reapareceu. Conseguira fugir da China, onde vivera horrores semelhantes aos da mãe e da irmã. Yeonmi começou a dar os seus primeiros passos no ativismo político, só por contar a sua história. Foi convidada para falar nas Nações Unidas, e finalmente, para pôr tudo em livro.

Pensou muito. Escrever a sua história implicava uma exposição muito grande, de acontecimentos traumáticos que tentara a todo o custo esquecer. Mas uma pessoa que entretanto conheceu em Nova Iorque deu-lhe força. Andrew Moroz mostrou-lhe que havia homens que não magoavam nem possuíam pela força.

"Antes de começarmos a namorar, disse-lhe que não podia ter uma relação com ele", conta ela ao Expresso, na editora que publicou o seu livro em Londres. "Ele quis saber porquê. Eu contei-lhe a minha história. Na verdade, há coisas que apaguei da minha memória. Ele disse-me que, quando alguém pode fazer alguma coisa pelos outros e ajudá-los, tem uma vida gloriosa. Acho que foi aí que ganhei força para escrever o livro e contar a minha história".

Yeonmi Park, hoje com 22 anos. Vive em Nova Iorque há uns meses

Yeonmi Park, hoje com 22 anos. Vive em Nova Iorque há uns meses

Beowulf Sheehan

Ao escrever "Porque escolhi viver", Yeonmi percebeu uma coisa: sentia-se estranhamente leve por contar a verdade. Pôr a sua vida por escrito implicou reviver todos os acontecimentos. "Perdi a conta à quantidade de vezes que acendi todas as luzes que tinha disponíveis à minha volta - detesto o escuro desde sempre, lembra-me as intermináveis noites na Coreia do Norte em que não tínhamos luz e passávamos horas no escuro frio da casa. E tinha muita dificuldade em adormecer". Mas escreveu o livro em poucos meses, de fevereiro a junho.

Perguntamos-lhe se conseguiu entretanto fazer terapia, para tentar atenuar o inferno vivido durante tantos anos. Yeonmi responde que "nem sabia o que era terapia, como também não sabia que estava traumatizada... Tinha muitas memórias baralhadas no tempo, sem ordem, confusas. Só quando comecei a trabalhar para escrever este livro, em janeiro deste ano, comecei a recordar o passado e a tentar reordená-lo. Foi interessante perceber como a memória funciona. Mas nunca tive dinheiro para pensar sequer em terapia. O pouco dinheiro que tínhamos era para sobreviver. Agora, já sei o que é stresse pós-traumático, talvez possa finalmente procurar ajuda."

De há uns meses para cá, Yeonmi trocou a Coreia do Sul por Nova Iorque, onde vive pela primeira vez um relacionamento amoroso saudável. Não deixa de ser irónico, uma norte-coreana em Nova Iorque... Parece uma história de um filme pop. Há uns anos, ela não sonharia possível que os "terríveis ianques de narizes grandes e olhos azuis", de que se falava nos livros da Coreia do Norte, pudessem ser iguais a ela. No fundo, a Humanidade que há em todos nós uniu-a ao seu anterior pior inimigo - para lhe mostrar que os seres humanos querem todos o mesmo. E que há segundas oportunidades.

Yeonmi sonha em ser mãe, ter uma família, e ser como a sua mãe. E ver a Coreia do Norte ser livre. E reencontrar os familiares que lá deixou. Que não sonham quão bonito é o mundo.