Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

“Não por mim mas pelo nosso tesouro”. Carta da mulher ajudou a convencer Luaty

  • 333

MONICA ALMEIDA

Advogado do ativista angolano afirma que foi a “pressão emocional” que o levou a suspender a greve de fome. A carta da sua mulher, que foi divulgada este sábado pelo Expresso, foi um dos aspetos decisivos que esteve por trás da decisão

Luís Nascimento, o advogado de Luaty Beirão, declarou esta manhã à Antena 1, que o ativista angolano decidiu suspender a greve de fome que cumpria há 36 dias, sobretudo em nome dos apelos da família e dos restantes ativistas.

“Um dos fatores que o levou a tomar esta decisão foi a grande pressão emocional, a carta da sua esposa, não só a carta mas a própria presença física diária e, sobretudo, o apelo que ela fez para se ter em conta a única filha, para além de várias moções, baixos-assinados, mesmo dos 14 colegas a pedirem que ele parasse, que não se transformasse em mártir, que seria uma inutilidade perante o que ainda falta fazer em Angola”, afirmou Luís Nascimento.

Na carta de Mónica Almeida - que o Expresso divulgou no sábado em exclusivo -, a mulher apelou ao fim da greve de fome do marido, invocando a filha de dois anos. “Quero-te presente e bem vivo para que possas transmitir esses valores bem vincados à nossa pequena Luena, o nosso raio de sol, o nosso sweet life, porque sinto-me incapaz de os passar sozinha, porque não os tenho tão vincados”.

“Quero lembrar-te da promessa que me fizeste quando recebeste a Luena dos meus braços, minutos depois de ela ter nascido: que a partir de agora a coisa mais importante da tua vida é ela”, escreveu Mónica.

De acordo com o advogado, Luaty acredita que a pressão exercida pelo “Jornal de Angola” teve como objetivo defender José Eduardo dos Santos, ao defender que não se podia exigir do Presidente da República que tomasse alguma decisão, e que era necessário dar uma oprtunidade aos tribunais.

Luís Nascimento disse que o seu cliente acredita que conseguiu cumprir os principais objetivos da greve de fome, mobilizando uma “sociedade angolana que estava apática”, e colocando ”a nu uma série de debilidades do sistema” angolano. “Nesse sentido, ele acha que contribuiu para que haja pelo menos possibilidade de minimizar uma série desses aspetos”, sublinha.

Questionado sobre o seu estado de saúde, o advogado afirma que Luaty Beirão se encontra “débil”- embora as análises não revelassem nada de grave - , esperando ainda que ele possa recuperar a sua condição o tempo que for necessário na clínica.

“O estado de prisão vai continuar e dado o longo tempo (37 dias) de greve de fome, não nos passa pela cabeça que seja obrigado a abandonar e que seja transferido para qualquer penintenciária que não tem condições. Ele vai precisar de algum tempo para reabilitar-se minimamente”.

Luaty Beirão é um dos 15 ativistas angolanos que se encontram em prisão preventiva desde junho, acusados de prepararem um atentado contra o José Eduardo dos Santos. O julgamento começa no próxsimo dia 16 de novembro.

Recorde aqui a carta da mulher de Luaty que o Expresso publicou em exclusivo na edição do passado sábado:

“A minha carta de Amor ao Herói da minha vida!”

“Amor, prefiro-te marido, pai e amigo a ter-te como mártir.

Sempre te admirei enquanto pessoa, pela tua determinação, pela tua sensatez e humildade, pela tua força e pela fé nas coisas em que acreditas. Mesmo antes de te lançares para o “canhão” da luta de derrube das injustiças que vivemos no nosso país admirava-te!

Não é de hoje a minha admiração nem cresce diante desta tua decisão. Cresceu durante estes rápidos sete anos da nossa relação. Rápidos, porque parece que foi ontem que te conheci, parece que foi ontem que me apaixonei por ti, e mesmo diante deste momento difícil que estás a passar vejo o mesmo olhar dantes.

Quero-te presente e bem vivo para que possas transmitir esses valores bem vincados à nossa pequena Luena, o nosso raio de sol, o nosso sweet life, porque sinto-me incapaz de os passar sozinha, porque não os tenho tão vincados.

Nós, eu e o nosso pequeno mas grande amor, queremos compartilhar mais momentos juntos, queremos ajudar-te na tua luta e acima de tudo recebermos o amor que é tão habitual termos.

Quero lembrar-te da promessa que me fizeste quando recebeste a Luena dos meus braços, minutos depois de ela ter nascido: que a partir de agora a coisa mais importante da tua vida é ela.

Entendemos que sejas um homem de palavra e que levarás a tua palavra até ao fim, mas quero que tenhas em mente que as promessas são apenas palavras até começarem a ser cumpridas pelas nossas atitudes. Eu e a Luena esperamos que a cumpras.

Tu és o nosso herói, o exemplo de pai presente, o exemplo de marido honesto e um homem de palavra. Amamos-te muito!

Da tua sempre persuasiva mulher, que conta, desta vez, persuadir-te a acabar a greve de fome, pois há uma promessa acima desta que tens mesmo de cumprir, não por mim mas pelo nosso tesouro, a Luena Almeida Beirão.”

  • Duas lições do caso Luaty Beirão

    O processo que envolve Luaty Beirão e a Justiça angolana serve para dar duas lições básicas à diplomacia portuguesa: não vale a pena ter medo de atuar e nunca se deve esperar gestos de compreensão. Que sirva de lição ao Ministério dos Negócios Estrangeiros

  • O herói insolente

    Henrique Luaty da Silva Beirão, 33 anos, é o improvável herói de um movimento de democratização que cresce todos os dias, tirando o sono ao Presidente José Eduardo dos Santos. O ativista está a mudar a História de Angola. Republicação de um texto da Revista E, de 17 de outubro