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Ikonoklasta: uma voz inconformada de Angola

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O rapper, filho das elites angolanas mas ainda assim apostado na denúncia do que considerava ser um injusto statu quo, fazendo justiça ao nome artístico

Em 2009, estreou-se em Portugal a aventura Batida de Pedro Coquenão, uma entidade musical já com dois álbuns editados na britânica Soundway e para que Iknoklasta contribuiu desde a primeira hora. Batida tornou-se, aliás, o principal púlpito para o discurso de Iknoklasta: o sucesso do projeto no circuito internacional de festivais e o aplauso de estrelas pop como Damon Albarn, dos Blur, traduziu-se em atenção generosa para Batida e Dois, álbuns em que a voz de Ikonoklasta surge pontualmente como fonte de denúncias de desigualdades sociais e de outras maleitas presentes na sociedade angolana. Para lá de Batida, Ikonoklasta, que também assina pontualmente como Brigadeiro Mata Frakuzx, também contribuiu para trabalhos de outros artistas, como MCK, que têm igualmente usado a música como trampolim para palavras de protesto.

Foi com o Conjunto Ngonguenha que Ikonoklasta, nome artístico de Luaty Beirão, primeiro se fez ouvir. Ngonguenhação, editado em 2004 na etiqueta do Porto Matarroa, é um importantíssimo documento, por várias razões. O trabalho de estreia desse coletivo angolano surgiu numa época de particular ebulição do hip hop português — Sam The Kid já tinha editado o seu segundo álbum, ‘Beats Vol. 1 — Amor’, Valete tinha-se estreado com Educação Visual e Chullage tinha acabado de lançar ‘Rapensar’, o seu ambicioso segundo álbum — com uma proposta estética diferenciada: uma nova maneira de entender a língua, uma original paleta sonora construída a partir de samples da memória da música popular angolana e um genuíno fervor revolucionário.

No seio de um grupo que também incluía o produtor Conductor, que se viria a revelar um dos principais arquitetos do fenómeno Buraka Som Sistema logo em 2006, encontrava-se o rapper Ikonoklasta, filho das elites angolanas mas ainda assim apostado na denúncia do que considerava ser um injusto statu quo, fazendo plena justiça ao nome artístico escolhido.

O Conjunto Ngonguenha ainda lançou, de forma extremamente limitada e informal, o álbum Nós os do Conjunto, em 2010, altura em que o grupo, de facto, já não existia e cada um dos seus membros já tinha seguido caminhos distintos: os Buraka de Conductor já colhiam frutos do impacto do seu álbum de estreia e Ikonoklasta já tinha assinado participações em ‘Remisturas Vol. 1’ de Xeg (2004), ‘Serviço Público’ de Valete (2007) e lançado, a solo, o álbum ‘Ikonodamus’ (2008) em que participavam artistas portugueses como Sam The Kid, Bezegol ou Terrakota. Foi o primeiro de vários trabalhos que se disseminaram sobretudo através da internet e em que Ikonoklasta foi crescentemente assumindo uma vocação de denúncia e de protesto.

[Texto publicado na Revista E de 17 de outubro]