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A baía das sombras

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Luaty Beirão é o rosto mais visível do grupo que está na linha da frente da contestação em Angola. Mas também há figuras do regime que já começam a reconhecer a necessidade de mudança num país mergulhado numa crise política, económica e social sem precedentes. O julgamento dos ativistas detidos começa a 16 de novembro. Para alguns pode ser tarde de mais. Conheça quem são

Gustavo Costa

Correspondente em Luanda

Em Angola, um diálogo entre surdos e mudos tem sempre vozes e ouvidos por perto. Por mais que uns e outros se escondam, as suas ondas são sempre detetadas por um Estado que tudo controla. Pensar o contrário é uma tremenda ingenuidade. Nem mesmo uma conversa entre dois pacotes de leite e uma lata de atum escapa ao controlo das sentinelas do regime.

Este diálogo absurdo tornou-se a melhor imagem para satirizar o comportamento das autoridades de Luanda. “Se calhar, o regime deve ter concluído que os pacotes de leite e a lata de atum estavam a programar um golpe de Estado”, contou há dias um conhecido humorista. É assim que alguns sectores da nova geração de jovens de diferentes origens e extratos sociais ridicularizam um sistema que está cada vez mais refém dos seus próprios serviços de segurança, onde todos se vigiam entre si.

Um sistema que, sem o decretar, instituiu o medo. Um medo que faz com que, hoje, até os governantes se recusem a discutir determinados assuntos ao telefone. “É triste, mas passaram a ter medo da própria sombra”, diz, indignado, o jornalista Graça Campos, antigo diretor do “Semanário Angolense”, que, tendo-se tornado incómodo para o regime, acabou por ser obrigado a vender a sua participação acionista e a assistir, depois, ao congelamento da sua linha editorial original.

O diálogo de surdos e mudos poderá, no entanto, encapotar ruídos que, segundo alguns observadores, não devem ser subestimados. Para o escritor João Melo, “os acontecimentos na Tunísia, no Egito, na Líbia, na Ucrânia ou no Burkina Faso, cada um com um desfecho diferente, demonstraram que é possível, mediante uma rebelião nas ruas, provocar a queda de qualquer Governo à margem dos processos eleitorais previstos em democracia”. Mas para aquele militante do MPLA é uma “ilusão” pensar que o Governo “está em vias de cair” e que precisa apenas de “um empurrãozinho” dos jovens que, desde 2011, têm sido detidos, espancados e ameaçados pelas forças policiais.

Luaty Beirão com os rappers Nástio Mosquito e MCK

Luaty Beirão com os rappers Nástio Mosquito e MCK

Essa “geração MCK”, formada, de acordo com a investigação do ativista Rafael Marques, por jornalistas, professores universitários, estudantes do ensino superior e médio e também por “remediados”, pode queixar-se de nunca lhe ter sido permitido levar até ao fim uma manifestação pública. Dentro de semanas, a 16 de novembro, 15 dos seus membros irão responder em tribunal por alegada conspiração para cometer um golpe de Estado...

Quase todos casados e com filhos, move-os o desejo de mudança. São de diferentes origens sociais e, na realidade, só Luaty Beirão é mesmo “filho do regime” — funcionando como ponte de ligação com outros “filhos do regime”, que se têm manifestado solidários com a sua causa. Alicerçando a sua estratégia em ações que, por vezes, resvalam para o extremismo, não é difícil perceber que a maioria revela falta de mundo e de conhecimento.

O que não os impede de descortinarem a existência de fissuras abertas de fora para dentro. Fissuras que estão a destapar laivos de discriminação social no tratamento VIP reservado a Luaty Beirão em relação a outro detido, Albano Bingobingo, também em greve de fome há mais de um mês. “A discriminação não é apenas social, é também racial, por parte da comunidade europeia”, denuncia Alcides Afonso, estudante universitário próximo dos ativistas. Bingobingo, conhecido por “Albano Liberdade”, já havia sido expulso da Casa de Segurança da Presidência Angolana por reclamar melhores condições salariais e de trabalho. Encarcerado numa “pocilga humana” e sem qualquer tipo de assistência médica, este preso político, motorista, encontra-se em estado de saúde delicado. Mas, segundo o “Maka Angola”, o espancamento “com porretes elétricos” que sofreu não foi suficiente para, tal como Luaty Beirão, ter guia de marcha para uma unidade hospitalar para receber tratamento médico.

“O Governo deve conceder igual tratamento a todos. O Luaty e o Albano são companheiros da mesma causa, foram detidos juntos, e não é bom serem tratados de forma discriminatória”, reclamou Luísa Rogério, ex-secretária-geral do Sindicato dos Jornalistas de Angola. “O Governo deve dar tratamento humano e condigno também ao Albano”, acrescentou aquela ativista sindical, indignada com a política de discriminação social encetada pelas autoridades em relação aos detidos deste processo.

QUEM SÃO ELES

Henrique Luaty Beirão

“Brigadeiro mata-frakuxz”, de seu nome de guerra, faz parte da primeira geração de rappers contestatários que surgiu no final dos anos 90 em Luanda. Licenciado em Eletrotecnia, em Inglaterra, e em Economia e Gestão, em Montpellier, aos 33 anos tem já uma longa vida de marchas e de reivindicações. É a bandeira da contestação ao regime desde que iniciou uma greve de fome, em 21 de setembro, que tem gerado um enorme movimento de solidariedade internacional. AR/ASA

Sedrick de Carvalho

Natural de Luanda, tem 25 anos e frequentou o curso de Direito na Universidade Jean Piaget. É jornalista no “Folha 8” e no “Golo”, jornal do qual foi fundador, em 2014. Orientava um curso de paginação organizado pela Igreja Evangélica de Angola. Na manhã de 20 de junho, dia das detenções, tinha com ele o computador de Domingos Cruz, o autor dos livros considerados subversivos e para quem paginara um manuscrito “suspeito”. AR/ASA

Hitler Jessia Chiconda

“Samussuko” nasceu em Moxico, a maior província de Angola, tem 25 anos, frequenta o 4º ano de Ciências Políticas na Universidade Agostinho Neto e é também hip-hopper. Vive em casa de um tio, em Luanda, diácono da Igreja Evangélica de Angola, que descreveu ao “Maka Angola” como a polícia cercou a rua, “em posição de combate”, entrando em sua casa quando “a família comemorava um aniversário, e levaram os pertences de Hitler: roupa, livros e o computador”. AR/ASA

Osvaldo Caholo

Tem 26 anos, é licenciado em Relações Internacionais e é professor de História de África. É membro das Forças Armadas Angolanas, destacado como tenente da Força Aérea Nacional e casado com Delma Bumba, da Polícia Nacional. Montaram-lhe uma armadilha e confiscaram-lhe telemóveis, computadores e livros, sobretudo títulos considerados suspeitos, como “A Purga em Angola”, “Diamantes de Sangue: Tortura e Corrupção em Angola”. Em março deste ano já tinha passado à reserva. AR/ASA

Nuno Álvaro Dala

Tem 33 anos, é professor na Universidade Técnica de Angola de Língua Portuguesa e acompanha um centro de atendimento e integração de crianças com necessidades especiais. Vive com a mulher em Luanda e recentemente foi pai. Na sua foto de perfil no Facebook, a imagem que o caracteriza é a de um punho erguido com a inscrição “pensamento político dos jovens ‘revus’, discurso e ação”. Em abril, as suas publicações nas redes sociais foram criticadas pelo vice-presidente parlamentar do MPLA. AR/ASA

Manuel Baptista Chivonde

Conhecido por “Nito Alves”, tem 19 anos e é o mais novo do grupo. Nasceu no Huambo, frequenta o 1º ano de Direito em Luanda e é um dos alvos preferidos das autoridades. Foi detido pela primeira vez aos 15 anos e já vai na décima detenção. Manifestações e palavras de ordem a exigir a demissão do Presidente têm sido o móbil da sua ação política, mas o seu maior ‘crime’ foi ter impresso camisolas com a frase “Zé-Dú/Fora/Nojento Ditador”. Iniciou há dias uma greve de fome. AR/ASA

Fernando António Tomás

“Nicola, o radical”, com 39 anos, é o mais velho elemento do grupo. Técnico de geradores por conta própria, é ativista e pacifista, o que já lhe valeu cinco detenções, com tortura e espancamento incluídos. Foi acusado de ter em casa material “subvertido” e detido na operação de 20 de junho. Segundo consta na acusação, o tal material “subvertido”, e que foi confiscado, é uma coleção de jornais locais. AR/ASA

Nelson Dibango

Tem 32 anos, é técnico de informática, trabalha por conta própria, mas frequentou o curso de Psicologia na Universidade Católica de Angola. É natural de Luanda, casado, mas ainda vive na casa dos pais. Está detido por suspeita de participar na conspiração do alegado golpe de Estado contra o Presidente. Vários computadores e impressoras foram-lhe confiscados como meio de prova. Encontra-se atualmente em greve de fome. AR/ASA

Afonso Matias

“Mbanza hamza”, de 30 anos, frequentou o 4º ano do curso de Engenharia Informática e é professor do ensino primário. Vive em casa da mãe, tem dois filhos e desde 2011 tem sido perseguido pela polícia por participar em manifestações. Foi detido em 2012, quando milícias sob o comando do MPLA atacaram a residência do rapper Carbono Casimiro, onde se encontrava a preparar uma manifestação. Nessa detenção, “mbanza hamza” ficou com a cabeça rachada e uma omoplata partida. AR/ASA

José Gomes Hata

“Cheik Hata”, líder do grupo de hip-hop Terceira Divisão, tem 29 anos e é licenciado em Relações Internacionais. As suas canções foram consideradas revolucionárias e vistas como um apelo à revolta. “Desperta-te, vamos a isso./ Pensamentos negativos, atos diabólicos/ resultam em violações, corrupção e assassinatos./ Homens possuídos sem clemência no geral...” Estes são alguns dos versos que “Cheik Hata” escreve, canta e que deram origem à sua prisão. AR/ASA

Domingos da Cruz

É o intelectual da “linha da frente”. Tem 31 anos, é licenciado em Filosofia e mestre em Ciências Jurídicas e Direitos Humanos na Universidade de Paraíba, Brasil. As suas obras “Ferramentas para Destruir o Ditador” e “Evitar a Nova Ditadura: Filosofia Política de Libertação para Angola” foram confiscadas. Consta que os livros são usados como manuais nas reuniões. É tido como um dos principais oradores em debates sobre pacifismo nas lutas estudantis e, por isso, considerado um dos “cabecilhas” do grupo. AR/ASA

Inocêncio António de Brito

“Drux”, de 28 anos, frequentou o 4º ano de Economia na Universidade Católica de Angola e levou a cabo várias ações cívicas, como por exemplo liderar um grupo de acolhimento de escuteiros. Segundo consta, a sua arma é uma caneta, a sua acusação é ser contra o regime. Na altura da detenção foram-lhe apreendidos o computador, cadernos e livros universitários. Saiu de casa da mãe, onde vive, com um saco preto enfiado na cabeça. AR/ASA

Benedito Jeremias

“Dito Dali” tem 26 anos e é estudante do 2º ano de Relações Internacionais. Terá sido transferido, na semana passada, do hospital penitenciário de São Paulo para a Comarca Central de Luanda por volta das 23h. Como este tipo de operações normalmente ocorre no período diurno, esta transferência começa a levantar suspeitas na sua família. Vitima de maus-tratos, apresenta graves ferimentos nos membros inferiores e no peito. Receando ser envenenado, recusa receber alimentos. AR/ASA

Albano Evaristo Bingobingo

Segundo várias fontes, “Albano Liberdade”, de 29 anos, é um dos detidos que se encontra em estado crítico, com necessidade de apoio médico, devido a espancamentos e torturas sucessivos. Foi motorista da Casa de Segurança da Presidência Angolana e expulso, em 2011, por reivindicar melhores condições de trabalho e salariais. Conta no currículo com sete detenções. Tem uma filha de 6 anos que vive no Huambo. Também ele entrou em greve de fome. AR/ASA

Arante Kivuvu

Aluno de Filosofia na Universidade Agostinho Neto, Kivuvu, com 20 anos, é um dos ativistas da chamada “linha da frente”, com um currículo vasto de detenções. Nunca falhou as manifestações dos massacres de 27 de maio de 1977. Foi detido pela primeira vez em 2012 e deste então tem estado sempre na mira da polícia. AR/ASA

Laurinda Gouveia

Arguida. Tem 27 anos e em 2015 já foi detida três vezes, a última das quais após uma manifestação contra o aumento dos combustíveis. Nascida no Kwanza Sul e entregue a uma tia em Luanda, a jovem do 2º ano de Filosofia encontra-se em liberdade provisória. Em 2014 foi alvo de agressões pela Polícia Nacional, denunciadas pelo “Maka Angola”. Até à 10ª classe, os seus estudos foram pagos pelo tio. Depois tornou-se empregada de limpeza e começou a vender churrascos para poder continuar a estudar. AR/ASA

Rosa Conde

Arguida. É tratada por “Zita”. Natural de Cabinda, tem 28 anos e trabalha como secretária. Pertence ao Movimento Revolucionário de Angola desde julho, depois de ter assistido ao julgamento do assassínio de Manuel Hilberto, conhecido como “Ganga”, um opositor do regime. Continua a fazer campanha no Facebook e garante não ter medo. “Sou filha de Angola e lutarei contra tudo e todos para arrebatar o meu país das mãos dos ditadores”, escreveu a 1 de setembro. AR/ASA

[Texto publicado na Revista E a 24 de outubro]

  • O herói insolente

    Henrique Luaty da Silva Beirão, 33 anos, é o improvável herói de um movimento de democratização que cresce todos os dias, tirando o sono ao Presidente José Eduardo dos Santos. O ativista está a mudar a História de Angola. Republicação de um texto da Revista E, de 17 de outubro