Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Um guia para aproveitar Peniche

  • 333

A experiência dos últimos sete anos provou que a loucura tem vários níveis. A maioria das pessoas vai senti-la na forma de uma multidão que parece omnipresente. Estará na praia e fará desaparecer a areia: no ano passado foram mais de 100 mil pessoas em todos os dias de prova.

O verão é uma barraca. Sempre foi. Chegava junho e a praia enchia-se de pequenas casinhas de pano azul e branco e de pessoas. Vinha setembro, com dias mais curtos e tardes mais frescas, e tudo desaparecia - até as pessoas. Esses eram os dias em que o verão durava três meses. Agora tudo mudou. O verão ainda principia em junho, sim, mas termina muito mais tarde. No fim de setembro, quando as filas de barracas começam a desaparecer na Praia da Consolação, duas enormes tendas brancas crescem nas dunas, ao fundo do enorme areal, em frente às ondas de Supertubos. A prova de Peniche, a penúltima etapa do circuito mundial de surf, tem início na terça-feira e acaba a 31 de outubro. Faltam três dias para voltar a ser agosto, para voltar a ser verão. Os hotéis, os restaurantes e as lojas vão estar cheios, tão cheios como a praia, onde as pessoas se vão juntar para verem os melhores surfistas do mundo numa das ondas mais exigentes de Portugal. Depois faltam 12 dias para o fim do verão - 12 dias tão estranhos como loucos.

A experiência dos últimos sete anos provou que a loucura tem vários níveis. A maioria das pessoas vai senti-la na forma de uma multidão que parece omnipresente. Estará na praia e fará desaparecer a areia: no ano passado foram mais de 100 mil pessoas em todos os dias de prova. Estará também nos restaurantes, à procura de uma refeição e, claro, de uma mesa ao lado daquela onde está um dos tops mundiais. Os mais experientes já conhecem as preferências dos surfistas.

Os outros podem organizar missões de reconhecimento: a maioria dos restaurantes tem troféus (pranchas ou licras de competição) dos atletas que por lá passaram. Mas a multidão estará também na estrada e nas ruas que levam aos parques de estacionamento. É uma marcha lenta e sem destino certo, que muitas vezes acaba na berma de uma estrada e antecede uma longa caminhada.

E, à noite, parte da multidão recolherá ao hotel. Outros continuarão, de bar em bar, até de manhã - e tudo começará de novo.

O segundo nível de loucura vive-se à beira--mar. Supertubos é uma onda especial, semelhante a poucas no mundo, que rebenta a escassos metros do areal e que permite uma proximidade única entre os surfistas e os espectadores. É uma estranha combinação entre perfeição e desastre (no primeiro ano, o australiano Owen Wright, que chega a Peniche como nº 4 do mundo, perfurou um tímpano depois de cair numa onda). Os atletas adoram a onda, e o público adora os atletas. Dito isto, quando os surfistas mais populares vão para a água ou voltam são seguidos por pequenas multidões que nascem da multidão maior. Todos querem uma fotografia (será mais um teste para os selfie-sticks), um autógrafo, uma camisola, uma prancha... Qualquer coisa serve, mas os seguranças estão lá para garantir que a caminhada se faz de forma tranquila até ao palanque principal, a tal tenda enorme.

Os números também parecem loucos. De acordo com a organização, o Moche Rip Curl Pro Portugal, cuja organização envolve diretamente 300 pessoas, representa um investimento de cerca de 2,5 milhões de euros (1,5 milhões de investimento nacional). Com base nos dados do ano passado, tudo isto traduz-se em mais de 19,5 milhões de pageviews no website do campeonato (é possível acompanhar a prova em direto em www.worldsurfleague.com e pela televisão, na SportTV) e mais de 28 milhões de euros de retorno mediático. E a economia local também ganha, com a taxa de ocupação das unidades hoteleiras em Peniche a rondar os 100%. Para os menos conhecedores, apesar de a prova decorrer entre 20 e 31 de outubro, é possível realizá-la em apenas três dias, o que já sucedeu. A janela de oportunidade serve para garantir que os surfistas entram para a água com as melhores condições de ondulação e de vento em Supertubos. As previsões meteorológicas são relativamente seguras e, em caso de necessidade, a prova pode ser transferida de Peniche para a Praia de Carcavelos ou do Guincho.

Os números podem ser impressionantes, mas não impressionam toda a gente. Em Peniche, há quem lamente a falta de envolvimento dos jovens da terra no grande evento local e também os danos ambientais que ele pode provocar. O que nos leva a uma outra questão, que tem tanto de física como de metafísica. Sempre que se realiza um campeonato do circuito mundial de surf, as ondas, durante o período de prova, ficam apenas para os competidores. Ou seja, mais nenhum surfista pode estar na água naquela zona. Ou, dito de outra maneira, não pode haver dois corpos a ocupar o mesmo espaço. Tirando raras exceções, quase todos os locais (categoria que inclui os melhores surfistas e bodyboarders da cidade e que estão na água nos melhores dias, e nos outros também) respeitam essa regra. Mas, quando não há prova, a presença dos tops mundiais a treinar numa praia onde já se encontram os tais locais (que reclamam como suas as melhores ondas que aparecem) e todos os que estão de passagem pode fazer subir a temperatura. Há dois anos, o australiano Joel Parkinson, que chegou ao fim do ano como campeão do mundo, teve alguns problemas durante uma sessão em Supertubos.

Este ano, a luta pelo título também ajuda à loucura. Tanto como a necessidade de pontos que muitos surfistas sentem para evitar a descida ao circuito mundial de qualificação. A duas etapas do fim - a última prova realiza-se em dezembro, no Havai -, há vários candidatos a campeão do mundo.

Três são australianos: Mick Fanning, que venceu em Portugal no ano passado, Owen Wright, o tal do tímpano, e Julian Wilson, que já ganhou em Peniche. Dois são brasileiros: Adriano de Souza e Filipe Toledo. Isto, claro, sem esquecer Gabriel Medina, brasileiro e campeão mundial em título, John John Florence, o miúdo sensação, Vasco Ribeiro e Tiago Pires, que irão defender as cores nacionais, e Kelly Slater, nome maior da história do surf e sobre quem tudo já foi dito. Muitos apostam que este ano será escrito o capítulo que falta: o da despedida de Slater, aos 43 anos. E outros tantos garantem que ele poderá vencer, somando 10 mil pontos e levando para casa 100 mil dólares.

Esta é a estrada para o nível mais obscuro dos 12 dias loucos. E há muitas estradas e caminhos para descobrir. A maioria das pessoas que visita Peniche pode aproveitar os lay days (dias em que o campeonato está suspenso por falta ou excesso de ondas ou vento em Supertubos) para conhecer a cidade ou a região. Ofertas não faltam. Mas há um pequeno grupo de fiéis que todos os anos faz questão de acompanhar os surfistas para onde quer que eles vão. São os que acordam antes do nascer do sol, os que montam vigilância aos hotéis e casas alugadas pelos tops mundiais e que os seguem estrada fora. São os que ficam na praia, à chuva e ao frio, a filmar e a fotografar, ou apenas a ver, cada onda surfada pelos melhores do mundo.

Os filmes e as fotografias chegam depressa à internet - como sucedeu no ano passado com o 540° de Slater no Baleal, uma manobra que correu mundo. Estes momentos, que pouco dizem a quem não faz surf, ganham uma dimensão estranha entre os surfistas, e não falta quem coce a cabeça de espanto ao ver o que é possível fazer numa onda. No caso em discussão, Slater acelerou e lançou-se no ar, deu duas voltas sobre si mesmo e aterrou em pé e com os pés na prancha. Loucura.

"Eles já aí andam", comentava, há dias, um surfista de Peniche a caminho do parque de estacionamento de uma das praias perto da cidade.

Atrás dele, cada vez mais longe a cada passo, estavam centenas de pessoas na água. As ondas não eram muitas e a vontade de mergulhar na multidão não era nenhuma. Mais do que desiludido, parecia conformado. "Isto é importante e é bom para a cidade. São mais duas semanas, e depois acaba tudo. Volta a paz", disse, antes de entrar no carro. Alguns vão ficar, como há 20 anos ficavam os australianos que vinham nas carrinhas.

Como ficam sempre. Mas outros, muitos, vão partir quando o campeonato acabar. A multidão vai desaparecer depois de aplaudir o novo campeão no pódio. As praias voltarão a estar desertas, sem pessoas nem barracas. O verão acaba dentro de dias. O outono chega em novembro.

Onde ir e o que fazer

Em Peniche, o peixe grelhado é rei, e os restaurantes da Avenida do Mar são sempre uma opção segura.

Destaque também para os petiscos do M de Marisco, na Marginal Norte, que conta com viveiros próprios.

A Tasca do Joel, no Lapadusso, é outra das recomendações.

A oferta hoteleira não é grande, mas este ano trouxe novidades para a Capital da Onda. O MH Hotel é um dos maiores e tem serviços de spa.

O seu restaurante panorâmico é um dos atrativos. Para os que preferem a vibe do Baleal, o melhor é irem ao Surfer's Lodge ou ao Baleal Inn.

A noite é passada nos bares, sendo o 3 Ás e o Java House os mais conhecidos (estão quase sempre cheios). O Bar do Quebrado, situado numa praia escondida à direita dos Portões da Cidade, é um segredo a descobrir. O fim da noite faz-se no Baleal (até de madrugada).

A Fortaleza - onde funcionou a prisão durante o Estado Novo - vale uma visita, mas na região há outras propostas culturais a não perder. O Buddha Eden, no Bombarral, o Museu da Lourinhã, dedicado aos dinossauros, e o Festival Literário de Óbidos são a prova de que há atividades para todos os gostos.

O melhor é deixar já algumas regras definidas. Utilizar a expressão "Amigos de Peniche" não é visto com bons olhos, e o tema é de evitar, pois pode levar a uma discussão feia com os locais.

A bem da segurança - embora permita tirar uma selfie radical com muitos likes -, também não é aconselhável aproximar-se das rochas que envolvem o cabo Carvoeiro.

Os amantes das caminhadas encontram aqui um local de sonho: a praia, o calçadão (que liga Peniche ao Baleal) ou o Parque da Cidade são marcas do estilo de vida da zona. O melhor é não esquecer os ténis e um casaco para enfrentar a nortada.