Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Quando a PIDE foi apanhada

  • 333

ENCURRALADO O major Silva Pais, último responsável da PIDE, na cela da prisão de Caxias

D.R.

Fez esta semana 70 anos - mais precisamente quinta-feira - que foi criada a Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE), a polícia política do regime deposto no 25 de Abril. Apanhada de surpresa pelo “golpe dos capitães”, foi a última instituição da ditadura a sucumbir, como relembramos neste trabalho, publicado originalmente na Revista do Expresso de 25 de abril de 2014

Há mais de três horas e meia que o golpe de Estado estava a rolar. A partida fora dada às 0h20, quando a Rádio Renascença soltara a segunda e última senha - a canção 'Grândola, Vila Morena', de José Afonso. Apanhadas completamente de surpresa, só muito perto das 4 horas da madrugada é que as autoridades militares e policiais foram alertadas.

Irene Pimentel, a historiadora que mais estudou a PIDE/DGS, considera, no livro “Democracia e Ditadura” (2014,) que "o fator surpresa apenas foi quebrado às 3 horas e 56 minutos, quando a DGS (Direção Geral de Segurança, o nome com que a PIDE foi rebatizada em 1969) soube que algo se passava, através de um telefonema do ministro do Exército, general Andrade e Silva, ao diretor daquela polícia política, major Fernando da Silva Pais, a dar conta da chegada de forças com blindados ao Terreiro do Paço".

Número dois da PIDE estava descansado, em Paris

Se o número um da DGS nada sabia, o número dois estava sossegado em... Paris. Foi já a meio da manhã de 25 que Barbieri Cardoso soube do que se estava a passar em Portugal. Também aqui não foi nenhum dos seus homens que o informou, mas o conde Alexandre de Marenches, chefe dos serviços secretos franceses, o SDECE. No livro "No Segredo dos Deuses", editado em França (1986) e depois traduzido em Portugal, Marenches gabou-se à jornalista Christine Ockrent de ter sido ele a comunicar a Barbieri (que identifica como 'senhor B.') que em Lisboa o poder estava na rua. "Pergunto-lhe: 'Está ao corrente do que se passa em Portugal?' Responde: 'Não, que é que se passa?' Digo: 'Há uma revolução.' Levanta-se como esticado por uma mola: 'Não é possível!' 'Ora, não sabe?' Ele responde-me: 'Não!'"

Em Bruxelas, por sua vez, estava Cunha Paço, que dirigia o gabinete português da Interpol. A participar numa reunião da NATO, também ele ignorava o que se passava no país. Segundo Bruno Oliveira Santos, em "Histórias Secretas da PIDE/DGS", Paço admitiu: "Pensávamos que o golpe estava programado só para maio." "A revolução (...) veio efetivamente de surpresa" - confessou Marcello Caetano no seu "Depoimento", escrito e editado no Brasil ainda em 1974.

Na noite de 24 para 25, o ministro da Defesa, Silva Cunha, não tinha motivos para estar preocupado e adormeceu em paz. No seu livro de memórias "O Ultramar, a Nação e o 25 de Abril" (1977), contou como, antes de ir para a cama, recebera um telefonema de um colega do Exército, general Andrade e Silva, a dar-lhe conta de que "no dia seguinte de manhã, sairia de Lisboa para visitar algumas unidades militares ao sul do Tejo" e que tudo "estava tranquilo".

A seguir falara-lhe o diretor-geral de Segurança, dizendo o mesmo. "Pode dormir descansado, sr. ministro!", assegurara Silva Pais. O sono não durou muito. Horas depois, novo telefonema, de teor diametralmente diferente, desta vez do comandante-geral da PSP, general Tristão de Carvalhais, informando que uma coluna blindada da Escola Prática de Cavalaria avançava sobre Lisboa.

Prontamente alertados por Silva Cunha, os ministros do Exército e da Marinha, o subsecretário de Estado do Exército e o chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA), general Luz Cunha, reuniram-se no Ministério do Exército. Pelas janelas, assistiram às deambulações da coluna da Escola Prática de Cavalaria, comandada por Salgueiro Maia, e recolheram informações alarmantes de todo o país. Sentindo-se perdidos, mandaram abrir, à picareta, um buraco na parede do gabinete, por onde fugiram, para se refugiarem no bunker da Força Aérea em Monsanto.

Caetano no Carmo. Tomás na Giribita

Segundo o livro "A Fita do Tempo da Revolução", do Centro de Documentação 25 de Abril, um telefonema entre o ministro da Defesa e o colega do Exército foi intercetado pelos militares sublevados.

Eram 3h31, e os ministros, alheados de quanto se passava, comentavam a próxima deslocação do Presidente da República, Américo Tomás, a Tomar, "com a habitual falta de segurança". Um minuto depois o Rádio Clube Português era ocupado "sem dificuldades" pelos revoltosos e transformado em posto emissor do Movimento das Forças Armadas. De lá foi emitido, às 4h20, o primeiro comunicado do MFA, lido pelo jornalista Joaquim Furtado.

Estranhamente, segundo José Freire Antunes (em "Nixon e Caetano", 1992), só por volta das cinco da manhã é que o diretor da política acordou o Presidente do Conselho, Marcello Caetano.

Pelo telefone, informou-o que havia tropas na rua e que se tratava de mais uma tentativa de golpe de Estado. Se na madrugada de 16 de março, aquando do golpe das Caldas da Rainha, Silva Pais instruíra Caetano a procurar refúgio no comando da Força Aérea, em Monsanto, agora, admitindo que este viesse a ser um dos alvos prioritários dos revoltosos, recomendou-lhe o quartel da GNR no Largo do Carmo. O mesmo local de retaguarda foi sugerido por Silva Pais, quando telefonou para o Presidente da República, Américo Tomás. O almirante rejeitou. No livro de memórias "Últimas Décadas de Portugal", explicou que lhe parecera "pouco aconselhável por variadas razões, entre elas a da sua localização". Tomás acabou por passar o dia entre a residência no Restelo e o pequeno forte da Giribita, em Oeiras.

A VEZ DELE. Detido a 27 de abril em sua casa, Silva Pais foi o principal prisioneiro do novo regime saído do 25 de Abril

A VEZ DELE. Detido a 27 de abril em sua casa, Silva Pais foi o principal prisioneiro do novo regime saído do 25 de Abril

d.r.

Depois da tentativa de golpe de 16 de março, explicou Silva Pais, a DGS passara "a orientar-se para o 1º de maio". "A verdade é que não se contava com aquele movimento", disse, referindo-se ao 25 de Abril

No já referido depoimento à Comissão de Extinção da PIDE/ DGS, Silva Pais considerara que, após o fracasso do golpe de 16 de março, o caso estava "liquidado, pelo menos aparentemente", acreditando que os ministérios da Defesa e do Exército conseguiriam, "lentamente, sossegar tudo". O mesmo julgara Marcello Caetano, que, em carta dirigida a 20 de março ao amigo Laureano López Rodó, estava otimista: "Tenho vivido dias difíceis mas que graças ao apoio do povo português e à fidelidade das forças armadas fui vencendo" (Paulo Miguel Martins, "Cartas entre Marcello Caetano e Laureano López Rodó").

Para o último ministro da Defesa do Estado Novo, Silva Cunha, fora "possível dominar" o golpe das Caldas "por se dispor de informações a tempo". Só que "entre o 16 de março e o 25 de Abril faltou completamente a informação sobre o que se preparava". Depois do 16 de março, explicou Silva Pais, a DGS passara "a orientar-se para o 1º de maio". O 25 de Abril surpreendeu inteiramente o diretor da DGS.
No seu depoimento confessou: "A verdade é que não se contava com aquele movimento."

Militares despistam polícia

Se houve demérito da polícia política - e dos serviços secretos das grandes potências aliadas de Portugal, que também nada sabiam -, também houve mérito dos jovens capitães e majores. O movimento lograra despistar a polícia. No rescaldo do 16 de março, que provocara cerca de duas centenas de detenções entre os militares insurrectos, a direção do movimento - explicou Vasco Lourenço - "como que adormece". Deixou de haver plenários, as reuniões passaram a ser muito mais restritas e sigilosas, não houve mais comunicados, o segredo tornou-se regra. "O inimigo tinha que pensar que o 16 de março arrumara com o movimento..."

Para despistar, acrescentou Vasco Lourenço no seu "Do Interior da Revolução", chegou a ser lançado o boato de que seria feita "uma grande manifestação no dia 2 de maio (...) o que enganou em grande medida a PIDE".

Apesar de todos os cuidados, houve descuidos imprevisíveis.

"Numa noite, quando me dirigia para casa de Vítor Crespo, para uma reunião sobre o programa do MFA, enganei-me na morada e bati à porta de um tipo da DGS", contou ao Expresso o então tenente-coronel Costa Braz.

A data exata do golpe foi um segredo que a cúpula operacional do movimento soube guardar a sete chaves. Apesar de envolvido na conspiração, Costa Braz garantiu: "Não sabia que o 25 era a 25. Só o soube nesse dia. Mas também foi intencional da minha parte: não quis saber nada da parte operacional." Melo Antunes, principal autor do programa do MFA, e Vasco Lourenço, um dos motores do movimento, ambos transferidos para Ponta Delgada, só souberam da data a 24, graças a um telegrama em código de Otelo Saraiva de Carvalho: "Tia Aurora segue Estados Unidos da América 25, 3 da manhã. Um abraço primo António."

Spínola sugere fuga a Silva Pais

A informação ficara limitada ao restritíssimo círculo de operacionais em torno de Otelo e Garcia dos Santos. A ela acederam os jornalistas encarregados de propagar as duas senhas radiofónicas e poucos mais. E o próprio PCP - a principal força organizada entre as várias oposições - só foi informado da data dois dias antes, a avaliar pelo relato de Carlos Brito em "Tempo de Subversão".

A sede nacional da PIDE/DGS, na Rua António Maria Cardoso, e as prisões de Caxias e Peniche figuravam entre os alvos do plano geral das operações do 25 de Abril, tendo-lhes sido atribuídos os nomes de códigos, respetivamente, de 'Moscovo', 'Pequim' e 'Varsóvia'. Para tomar conta da sede da polícia e de Caxias fora apontado o Regimento de Infantaria 1. Sabe-se como, nas vésperas, esta unidade considerou não haver condições operacionais para controlar aqueles objetivos, o que levou Otelo a desistir deles - viriam a ser tomados, muito mais tarde do que o planeado, por forças de fuzileiros e de paraquedistas.

Foi no cerco popular à sede da DGS, ao princípio da noite de 25, que se verificaram as cinco mortes da revolução dos cravos: quatro civis baleados por atiradores da DGS, e um agente morto por forças do movimento quando tentava fugir.

Ao raiar do dia 26, Marcello Caetano e Américo Tomás, acompanhados dos ex-ministros Silva Cunha (Defesa) e Moreira Baptista (Interior), apanharam um avião para a Madeira - de onde os dois primeiros partiram, mais tarde, para o exílio no Brasil. Silva Pais passou a noite no seu gabinete na António Maria Cardoso, tendo-se rendido por volta das 9h30. A delegação do Porto foi o último bastião da polícia política a depor as armas, após ter sido também ela cercada pela multidão. Detidos, os elementos da DGS em serviço no Porto foram levados em viaturas militares para fora da cidade e libertados na estrada entre Famalicão e Braga.

Entre os fugitivos contava-se António Rosa Casaco, o chefe da brigada da PIDE que assassinara o general Humberto Delgado em 1965 e que fugiu para Espanha. À noite, o general António de Spínola, presidente da Junta de Salvação Nacional, falou ao telefone com o último diretor da polícia política.

Silva Pais garantiu no seu depoimento que Spínola ter-lhe-ia dito que dispunha de 24 horas para se ausentar do país. Ao contrário da maior parte do seus colaboradores diretos, Silva Pais recusou. Seria detido no dia seguinte, 27 de abril, em sua casa e enviado para o forte de Caxias, onde passou a ser o principal prisioneiro do novo regime.