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Sócrates. A história de uma conferência de imprensa feita a 200 quilómetros de Lisboa

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José Carlos Carvalho

A indicação era de que o ex-primeiro-ministro iria participar numa conferência sobre justiça e política em Vila Velha de Ródão. Mas o que aconteceu foi uma espécie de conferência de imprensa. Sem direito a perguntas

Micael Pereira

Micael Pereira

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Jornalista

José Carlos Carvalho

José Carlos Carvalho

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Fotojornalista

À porta da Casa das Artes e Cultura, um edifício de linhas modernas inaugurado em 2008 por Cavaco Silva, a única cara conhecida era de André Figueiredo, antigo chefe de gabinete do ex-secretário-geral do PS, que parecia ir dando indicações à esquerda e à direita enquanto aguardava a chegada a qualquer momento de José Sócrates.

O ex-primeiro-ministro apareceu minutos depois conduzido por Paulo Campos, antigo secretário de Estado das Obras Públicas do seu Governo. E veio acompanhado do seu recém-nomeado assessor de imprensa, Nuno Fraga Coelho, e de um amigo de longa data, Carlos Martins, vice-presidente da câmara da Covilhã. Também compareceu Afonso Camões, diretor do Jornal de Notícias.

Lá dentro estava um anfiteatro bem composto, com mais de 200 pessoas. A maioria era gente local de meia idade de Vila Velha de Ródão e de outras localidades do distrito de Castelo Branco, incluindo da Covilhã, a terra do convidado especial desta tarde de sábado. Um dos fundadores do Movimento Cívico José Sócrates Sempre encontrava-se nas filas da frente.

Nos corredores, o anfitrião da conferência, António Carmona, presidente da assembleia municipal e da comissão política do PS de Vila Velha de Ródão, contou ao Expresso que tinha convidado o ex-primeiro-ministro para ir ao seu concelho assim que o visitou na cadeia de Évora a 7 de junho. “Lembro-me bem que foi na véspera do eng. Sócrates ter recusado ir para casa com pulseira electrónica. Disse-lhe que um dia que ele quisesse explicar a sua versão sobre os acontecimentos que teria todo o gosto que ele viesse contá-la em Vila Velha de Ródão.”

José Carlos Carvalho

O convite ficou feito em junho e já esta semana, poucos dias depois de ter deixado de estar em regime de prisão domiciliária, foi o próprio José Sócrates que lhe telefonou para pôr a ideia em marcha. “Ligou-me na terça ou na quarta-feira a perguntar-me se podia vir cá este sábado e eu disse-lhe que sim. Foi tudo muito improvisado.”

A iniciativa do ex-primeiro-ministro em avançar com a conferência em Vila Velha de Ródão coincidiu com o adiamento de uma entrevista prevista para acontecer na TVI na quinta-feira, dia 22, e que foi desmarcada em cima da hora.

Quando foi inicialmente divulgada a aparição pública de Sócrates, a primeira desde que está em liberdade, a indicação é de que iria “participar numa conferência” sobre justiça e política, dando a entender de que haveria outros participantes. Mas não foi isso que aconteceu, já que António Carmona sentou-se ao seu lado no palco apenas para uma nota inicial. “Queria fazer um agradecimento muito especial a José Sócrates porque facilmente poderia realizar esta conferência em qualquer lado do país e encher uma sala.”

O ex-primeiro-ministro entrou no auditório debaixo de uma ovação, com as pessoas de pé. Uma apoiante trouxe cravos brancos para distribuir pela plateia, enquanto as duas funcionárias de serviço encaminhavam os jornalistas, recomendando-lhes as últimas filas como as mais indicadas.

José Carlos Carvalho

Embora os jornalistas tenham sido diretamente visados na conferência sobre “justiça e política” que deu nos 70 minutos que se seguiram, referindo-se à imprensa como “um poder corrupto”, Sócrates baixou do palco para agradecer a recepção calorosa dos presentes, parando para beijinhos e abraços, mas recusando-se a responder a perguntas dos órgãos de comunicação social. Subiu ao primeiro andar e esteve 10 a 15 minutos numa área reservada com o seu círculo mais próximo de amigos, antes de abandonar o edifício, para ser conduzido de novo por Paulo Campos.

José Carlos Carvalho

O aparente boicote às perguntas dos jornalistas e as violentas críticas que fez durante a sua intervenção à cobertura que os media têm feito sobre o caso em que está a ser investigado por corrupção, fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais, dizendo-se vítima de uma campanha em que “o direito à presunção da inocência” foi “transformado na presunção pública de culpabilidade”, acontece depois de na sexta-feira à noite os seus advogados terem divulgado um requerimento que fizeram chegar à procuradora-geral da República para que Joana Marques Vidal tome medidas urgentes para impedir que continuem a sair notícias sobre o conteúdo do inquérito-crime.

“Triste sina esta, em que um processo penal decente, democrático, é substituído pelo teleponto pré-programado de “jornalistas” sem escrúpulos. Em que se insinua que se o arguido disse uma coisa, era porque só poderia ter querido dizer outra”, escreveram os advogados. “Cabe a vossa excelência, senhora procuradora-geral da República, sem prejuízo da tutela jurisdicional competente, a responsabilidade de fazer cessar, de imediato, esta campanha de denegrimento do nosso constituinte, da sua família, dos seus amigos e das pessoas com quem se relaciona.”