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Sócrates invoca Luaty Beirão para falar do seu próprio caso

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José Carlos Carvalho

Numa conferência sobre política e justiça em Vila Velha de Ródão onde foi o único a falar, Sócrates comparou a sua prisão à prisão de Luaty Beirão em Angola. E referiu-se à imprensa como “um poder corrupto” que ameaça e intimida

Micael Pereira

Micael Pereira

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Jornalista

José Carlos Carvalho

José Carlos Carvalho

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Fotojornalista

Foi recebido por uma sala cheia, mais de 200 pessoas que se puseram de pé, aplaudindo a sua subida ao palco do auditório da Casa das Artes da Cultura, em Vila Velha de Rodão. Foi o primeiro evento público em que participa desde que foi detido a 21 de novembro de 2014. O ex-primeiro-ministro tinha acertado a meio da semana que estava disponível este sábado para participar numa conferência sobre política e justiça nesta vila do distrito de Castelo Branco, mas no final pareceu mais uma conferência de imprensa do que um colóquio, já que foi o único a falar, perante uma bateria de jornais e televisões, presentes na plateia. O discurso durou uma hora e dez minutos, não teve interrupções e não houve direito a perguntas.

José Sócrates começou por dizer que não aceita “o banimento” que lhe “quiseram fazer da vida pública e da vida política do país”, que os seus direitos “estão intactos” e não tenciona abdicar deles, para depois começar por tecer duras críticas ao sistema judicial. “Nenhum Estado democrático pode permitir que a presunção da inocência seja transformada na presunção pública de culpabilidade. Quando isso se faz, ainda por cima não apenas com a complacência do Estado mas às vezes dando a impressão que os próprios agentes estão interessados nisso e que disso tiram benefícios, isso é um abuso de poder.”

E continuou, passando também a incluir os jornalistas como alvo. “É preciso fazer esta denúncia: o que verifico nestes últimos meses é que há na sociedade um poder oculto, um poder que se foi organizando em resultado de uma cumplicidade escondida entre alguns elementos da justiça e alguns elementos do jornalismo e dessa cumplicidade ativa resulta um poder que não é fiscalizado e que age criminosamente, trocando informações por elogios”.

José Carlos Carvalho

O ex-primeiro-ministro referiu-se à imprensa, pelo menos a uma parte da imprensa, como estando a agir por “interesse próprio” e não em defesa do interesse público. “Isto sim é um poder corrupto.” E quando o disse, irromperam as palmas. “Este poder é um poder sério, um poder que ameaça, que intimida, que diz a quem não o respeita: se não obedeces, fazemos-te uma campanha.”

Durante a primeira hora da conferência, dedicada ao tema dos limites do Estado de direito democrático, e depois de sublinhar como foi preso sem que não houvesse quaisquer indícios contra si, Sócrates aproveitou para abordar o caso de Henrique Luaty Beirão, o ativista luso-angolano que se encontra em greve de fome por estar preso preventivamente acusado de uma alegada tentativa de golpe de Estado em Angola. “Têm certamente reparado numa campanha pública em Portugal que me é muito simpática e à qual aderi imediatamente. Trata-se da campanha para defender um cidadão luso-angolano que está preso há quatro meses em Angola com acusação e à espera de julgamento”, disse, para acrescentar: “As autoridades angolanas parece que respondem a esta campanha da mesma forma que as autoridades portuguesas”.

José Carlos Carvalho

Logo de seguida, o ex-primeiro-ministro mencionou o caso de um cidadão português que esteve preso preventivamente em Timor-Leste durante cinco meses sem ser acusado, para sublinhar que “o Estado português não tem autoridade moral para reivindicar a libertação de ninguém sem acusação porque mantém cidadãos presos há mais de onze meses sem acusação.”