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Sócrates acusa Cavaco Silva de desrespeitar a Constituição

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José Carlos Carvalho

O ex-primeiro-ministro está de volta à vida política. E escolheu o primeiro alvo: o presidente da República

Micael Pereira

Micael Pereira

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Jornalista

José Carlos Carvalho

José Carlos Carvalho

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Parece que nunca saiu da vida política ativa. Depois de dedicar uma hora a discutir os limites da justiça num Estado de direito e a sua própria prisão preventiva a que esteve sujeito durante mais de onze meses, José Sócrates reservou os últimos 20 minutos da conferência que foi dar este sábado à tarde em Vila Velha de Ródão para censurar Cavaco Silva.

O ex-primeiro-ministro lembrou que “há um artigo na Constituição que diz que ninguém pode ser privado dos seus direitos independentemente das suas convicções”, numa alusão ao facto de o Presidente da República ter rejeitado na quinta-feira a hipótese de indigitar um governo de esquerda que integrasse partidos que são contra o facto de Portugal pertencer à NATO e ao euro. “Eu sou a favor da NATO mas sou muito mais a favor de um país em que se possa ser contra a NATO. Eu sou a favor da Europa mas sou muito mais a favor de um país em que se possa ser contra a Europa.”

Sem se referir diretamente a nomes, Sócrates defendeu que deve governar “quem tem a maioria no Parlamento” e considerou que Cavaco Silva desrespeitou e “ostracizou” o Bloco de Esquerda e o PCP. “É como quem diz: sim, têm direito a eleger os seus deputados, mas para governar só alguém que esteja em condições de ter acesso aos superiores interesses nacionais. Eu pensei que em democracia o interesse nacional se realizaria na conjugação das diferentes interpretações do interesse nacional que existem no parlamento. É assim que funcionam as democracias. Mas parece que há um interesse nacional superior que só alguns, muito dotados para falar com esse além, com essa transcendência, essa entidade superior, estão em condições de interpretar.”

José Carlos Carvalho

Sempre num tom provocatório, o antigo chefe de governo do PS, que se demitiu em 2011 em plena crise política e nas vésperas de Portugal ter sido intervencionado pela Troika, disse que até é a favor “de um país em que haja pessoas que são contra a Constituição” mas não se sente “confortável em viver num país onde pessoas decidam não cumprir a Constituição. Principalmente por parte daqueles que juraram cumprir a Constituição”.

Ainda sobre a atitude de Cavaco Silva de ter indigitado a coligação PSD/CDS para formar governo, mesmo que não haja garantias de estabilidade, preferindo um governo de gestão do que um governo de esquerda, Sócrates resolveu recorrer a uma metáfora: “Diz-se que o presidente da República é a pedra angular do sistema. É a pedra que fecha o arco, a pedra que está no centro. E tem uma particularidade: ela não deve mexer. Por uma única razão: quando mexe, desaba tudo.”