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Armador recusa atracar em cais de 18 milhões de euros

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O cais não tem tamanho para os grandes paquetes, fica inoperacional em dias de mar agitado e, em plena época alta, são já duas as escalas canceladas no porto do Funchal

Marta Caires

Jornalista

O principal operador de navios de cruzeiros no porto do Funchal – o armador alemão Aida - recusa acostar os barcos no cais mandado construir no último governo de Jardim e inaugurado em agosto. Apesar de ter custado 17,8 milhões de euros, a estrutura fica inoperacional em dias de agitação marítima, os grandes paquetes não podem lá atracar e, por isso, não serve de alternativa à zona do porto que está em obras. Duas escalas já foram canceladas e a administração dos Portos da Madeira admite que possam acontecer mais alguns cancelamentos até Janeiro, altura em que terminam as obras.

A reparação da parte norte do porto – que irá durar até metade da época de cruzeiros – reduziu o espaço para a acostagem de navios e o que foi inaugurado de novo não é uma alternativa segura. Os vários dias de ondulação marítima de quadrante sul em Outubro acabaram por evidenciar as fragilidades de uma obra contestada desde o dia em que foi anunciada. A zona onde atracam os barcos está exposta, além de ser curta para os navios maiores. A falta de tamanho foi a justificação para o cancelamento da escala do 'Rhapsody of the Seas', que deveria parar no Funchal no fim de Novembro.

A empresa que agencia este navio da Royal Caribbean deita água na fervura: há muito que se sabe que o novo cais está condicionado. João Welsh, da JFM Shipping, sublinha que, apesar de tudo, “é uma alternativa”, “uma mais valia” e que o mais importante foi assegurar a manutenção das escalas semanais do grupo Aida. A recusa do principal armador de navios de cruzeiros a operar no Funchal veio reacender a polémica. Também deita por terra aquela que era a “convicção” da entidade que administra o porto do Funchal. “O novo cais será muito procurado pelas companhias”, garantia, há um ano, a presidente da APRAM numa entrevista ao Diário de Notícias da Madeira.

Por essa altura, a obra já não era apresentada como uma ampliação do porto, mas como uma proteção ao arranjo urbanístico da baixa do Funchal. Em caso de necessidade poderia servir também como cais para os barcos de cruzeiro que passam pela Madeira de Setembro a Maio. Entre Fevereiro de 2011, altura em que foi apresentada, e Agosto de 2015, foi dado como seguro para os maiores navios, depois ia atrair o nicho de mercado dos grandes iates numa sucessão de versões que terminou como cais acostável e também protecção do arranjo urbanístico.

Polémico e contestado

Quatro dias após o anúncio da construção do cais em 2011, mais de mil pessoas juntaram-se numa manifestação contra o projecto. O protesto não sensibilizou o Governo Regional que decidiu aplicar 17,8 milhões de euros das verbas para a reconstrução da Madeira após o temporal de 2010 num novo cais. Dinheiro que, ainda hoje, Raimundo Quintal, geógrafo, activista e um dos promotores dessa manifestação, entende que deveria ter sido aplicado na retirada das pessoas das zonas de risco. “Em vez do betão teria sido melhor colocar as pessoas em segurança e avançar com um plano de reordenamento do território”.

A construção do cais – integrada no plano de reconversão da baixa e da foz das ribeiras – foi apresentada como essencial para o mercado dos cruzeiros em crescimento e com o molhe do porto com cada vez menos espaço para a procura. A solução, garantia o Governo, era melhor, a mais barata e estava blindada com estudos e pareceres contra todas as críticas que se levantavam, sobretudo na Câmara Municipal do Funchal, na altura presidida por Miguel Albuquerque. A operacionalidade do porto estava garantida e tão falada exposição ao mar só sentiria em 25-30 dias ao ano.

As garantias estavam num relatório do projectista e, em 2012, a obra foi adjudicada contra todas as críticas e contra o parecer da Câmara do Funchal, que defendia a ampliação do molhe, só depois se deveria avançar para um novo cais. A posição de Albuquerque levou o Governo Regional a regionalizar várias ruas da cidade, esteve na origem da expulsão de um vereador do PSD e abriu a primeira grande crise com Jardim. A visita às obras inacabadas do cais foi um dos últimos actos de Alberto João Jardim como presidente do Governo. Até ao fim, Jardim defendeu a ideia: aumentar o molhe era “uma loucura”, “uma tontaria”

A ampliação do molhe, a “tontaria local dos teóricos”, não serviria apenas para proteger o cais novo, mas também para acabar com a ondulação dentro do porto e as ondas que batem num paredão e rebatem noutro. As queixas são dos donos dos barcos na marina do Funchal, que está cheia, mas que ninguém arrisca a mudar para a parte nova, a que fica na parte interior do cais. Rui São Marcos, proprietário de um veleiro, é dos que diz que, enquanto, não se aumentar o molhe, todo o investimento de 17,8 milhões de euros estará condicionado. Tanto para as embarcações de recreio, como para os navios de cruzeiro. “Não estou a ver ninguém a arriscar e a recusa do armador alemão indica isso mesmo”.

Uma obra para aumentar o molhe do porto tem custos que, de momento, o Governo Regional não tem maneira de financiar. O programa de resgate termina a 31 de Dezembro e, para assegurar o serviço da dívida em 2016, foi necessário ir aos mercados – ou melhor aos bancos – e pedir um empréstimo de 185 milhões. E isto depois de ter sido negociado um alargamento do prazo de pagamento do plano de resgate assinado com o Governo da República.