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O beijo de despedida das estrelas

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Impressão artística que mostra o VFTS 352 — o sistema binário mais quente e mais massivo descoberto até à data, onde as duas componentes estão em contacto, partilhando material

ESO / L. Calçada

Uma equipa internacional de astrónomos descobriu uma estrela dupla, sobreposta, que constitui o sistema estelar mais quente e massivo do Universo próximo. São duas estrelas quentes e brilhantes, que vivem em função uma da outra e podem estar a encaminhar-se para “um fim dramático” - que poderá gerar um buraco negro ou uma explosão de vida

Duas estrelas quentes, brilhantes e massivas, tão próximas que as suas superfícies se sobrepõem. Vivem em função uma da outra, com uma órbita que dura pouco mais de um dia. Juntas, constituem a estrela dupla mais quente (com temperaturas superiores a 40.000 ºC) e mais massiva (com uma massa combinada de cerca de 57 vezes a massa solar) do Universo próximo.

Foi esta a descoberta que uma equipa de internacional de astrónomos anunciou esta quarta-feira, após a observação e análise de imagens captadas pelo Very Large Telescope do Observatório Europeu do Sul (ESO, na siga inglesa). Localicado na nossa galáxia vizinha, a Grande Nuvem de Magalhães, este sistema binário - denominado VFTS 352 - situa-se a cerca de 160 mil anos-luz da Terra (cerca de 10 mil milhões de vezes a distância entre a Terra e o Sol) e estima-se que as suas estrelas estejam a partilhar 30% da sua matéria.

“A visão romântica e dramática do ‘beijo final’ é uma metáfora, dada a visão que temos do atual sistema, com as duas estrelas coladas uma à outra e em virtude dos possíveis cenários que podem ocorrer nesse sistema estelar”, explica ao Expresso o autor principal do estudo publicado na revista “Astrophysical Journal”, Leonardo A. Almeida.

“Há três anos, a nossa equipa mostrou que as estrelas de maior massa não vivem sozinhas e que a interação dentro de um sistema binário é um dos principais fenómenos que domina a vida das estrelas até à sua morte”, acrescenta. “Agora procuramos entender como as estrelas massivas vivem e morrem dentro de um sistema binário.”

Um buraco negro ou uma fusão de estrelas?

Na última semana de março de 2014, estava Leonardo Almeida na Universidade de John Hopkins quando - ao analisar um conjunto de sistemas binários de grande massa - houve um que se destacou. “O VFTS mostrou ser muito diferente. Com cerca de um dia de período orbital e temperatura superior a 40.000 ºC, já sabíamos que era um sistema único.”

Estrelas como estas desempenham um papel fundamental na evolução das galáxias e os investigadores calculam que estas sejam as principais produtoras de elementos como o oxigénio. Mas este é um tipo de sistema muito raro de encontrar, já que esta fase da vida das estrelas (de sobrecontacto) é muito curta.

Uma vez descoberto, é preciso investigar como as estrelas vivem e morrem dentro dos sistemas binários. Os investigadores preveem um “fim dramático” para esta dupla - ou darão origem a uma estrela gigante ou culminarão numa grande explosão.

A primeira possibilidade é a fusão das duas estrelas que irá dar origem, provavelmente, a uma rotação rápida - e possivelmente a uma estrela magnética gigante. “Nesse cenário, de acordo com os nossos cálculos, após cerca de 60 mil anos estas irão tornar-se numa única estrela, com massa combinada de 57 vezes a massa solar - evoluindo assim para uma das mais energéticas explosões que observámos no Universo”, explica o investigador da Universidade de John Hopkins, em Baltimore (Estados Unidos), e do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (Brasil).

No segundo cenário, as estrelas “não só queimarão o combustível nuclear no seu centro, mas praticamente toda a sua estrutura interna”, adianta. Isto iria originar aquilo que os investigadores denominam de uma explosão de supernovas, dando origem a “um sistema binário de buracos negros”.

Os astrónomos ainda não sabem dizer qual destas duas hipóteses é mais provável - talvez dentro de um ano consigam ter uma resposta à pergunta. Mas o maior risco ocorre “se o primeiro cenário for verdadeiro”, sublinha: a explosão energética em questão liberta raios gama, extremamente nocivos para atmosfera, podendo - no limite - destruir a camada de ozono. “Mas devo lembrar que isso só ocorrerá dentro de quatro a cinco milhões de anos. E a probabilidade da Terra estar na direção dos feixes de raios gama é muito reduzida.”